Na cidade de Pemba, em Cabo Delgado, alguns jovens e adultos entrevistados reconhecem os riscos associados às relações sexuais desprotegidas, mas admitem não utilizar preservativo. Entre as justificações apresentadas estão a alegada perda de prazer, desconforto durante a relação e confiança no parceiro, revelando uma realidade em que ter conhecimento sobre prevenção nem sempre significa adoptar comportamentos seguros.
Falar sobre preservativos não parece ser uma novidade entre adolescentes e jovens de Pemba. Muitos conhecem o método e sabem que pode ajudar na prevenção do HIV, de outras infecções sexualmente transmissíveis (ITS) e de gravidezes não planificadas.
O principal desafio, contudo, surge no momento da decisão: utilizar ou não utilizar o preservativo.
Durante entrevistas realizadas em Pemba, no dia 25 de Agosto de 2026, alguns cidadãos afirmaram que, apesar de conhecerem o método, optam por não recorrer ao preservativo nas relações sexuais. Para alguns, questões relacionadas com prazer, conforto e confiança no parceiro ou parceira acabam por pesar mais do que a prevenção.
Miguel Alfane Artur é um dos entrevistados que admite não usar preservativo. Segundo contou, algumas mulheres chegam a exigir que o parceiro utilize o método, mas, na sua percepção, alguns homens rejeitam essa opção por considerarem que o sexo sem preservativo proporciona maior prazer.
“Tem outros que não negam usar o preservativo por falta de condição. Algumas mulheres exigem o homem para usar o preservativo, mas eu não uso porque o melhor é carne e osso.”
Uma posição semelhante é apresentada por Chimaquinde Júlio, que afirma que o preservativo interfere no prazer e provoca desconforto durante a relação.
“Eu não uso o preservativo, porque a minha parceira não está com uma doença sexualmente transmissível, e o preservativo incomoda e não dá prazer, por isso não uso.”
Os depoimentos recolhidos mostram que a resistência ao uso do preservativo nem sempre resulta da ausência de informação. Em determinadas situações, está ligada a percepções individuais sobre prazer, conforto, confiança e avaliação do risco.
Zaida Razaque chama atenção precisamente para essa contradição. Segundo ela, muitas pessoas conhecem o preservativo, mas acabam por não o utilizar.
“O conhecimento acerca do preservativo as pessoas têm, só que ignoram o uso do mesmo, principalmente os homens, acham que se não usarem o preservativo não irão sentir o prazer, apesar das doenças que podem vir a ter.”
Confiança no parceiro também pesa na decisão
Entre os entrevistados em Pemba, a percepção sobre os riscos das relações desprotegidas varia.
Belmone Baptista afirma já ter ouvido falar do preservativo, mas admite não possuir conhecimento suficiente sobre a sua utilização.
“Eu não tenho conhecimento do uso do preservativo. Já ouvi falar, mas nunca usei. Eu tenho uma esposa e nunca usamos isso.”
O depoimento evidencia outra dimensão do problema: ouvir falar sobre o preservativo não significa necessariamente saber utilizá-lo correctamente ou compreender as situações em que a sua utilização é importante.
Já Samuel Adriano afirma conhecer o preservativo, mas diz nunca o ter utilizado nas suas relações.
“Já ouvi, do preservativo, mas nunca usei. Todas as mulheres que eu me relaciono não têm doenças.”
A declaração levanta uma questão importante: como saber se o parceiro ou a parceira possui uma infecção sexualmente transmissível quando não existe testagem?
Muitas ITS podem não apresentar sintomas evidentes, fazendo com que a percepção individual de risco não seja suficiente para determinar se existe ou não uma infecção.
Os relatos recolhidos também evidenciam o peso da confiança dentro das relações. Para alguns entrevistados, estar numa relação considerada estável ou acreditar que o parceiro não possui uma doença é suficiente para dispensar o preservativo.
Informação pode não ser suficiente
A realidade encontrada durante as entrevistas sugere que as campanhas de prevenção podem precisar de ultrapassar a simples transmissão de informação.
Alertar os jovens de que o preservativo ajuda a prevenir infecções e gravidezes não planificadas pode não ser suficiente enquanto persistirem crenças de que as relações sem preservativo proporcionam mais prazer, de que um parceiro de confiança não representa risco ou de que o preservativo provoca desconforto.
Em Pemba, o desafio passa, por isso, por compreender o que acontece entre a informação recebida e a decisão tomada no momento da relação sexual.
Os depoimentos recolhidos não permitem concluir que todos os adolescentes e jovens da cidade tenham o mesmo comportamento. Revelam, contudo, percepções que merecem atenção, incluindo homens que associam o preservativo à perda de prazer, pessoas que baseiam a prevenção na confiança no parceiro e entrevistados que afirmam conhecer o método, mas nunca o utilizaram.
A questão que permanece é: se os jovens sabem que o preservativo pode ajudar a prevenir o HIV, outras ITS e gravidezes não planificadas, o que os leva a continuar a recusá-lo?
AMODEFA defende reforço da sensibilização
Para aprofundar a questão, a equipa de reportagem contactou Noé Abílio Muativisa, educador de pares e vice-presidente provincial da Associação Moçambicana para o Desenvolvimento da Família (AMODEFA), organização que trabalha, entre outras áreas, na saúde sexual e reprodutiva, educação para a saúde, planeamento familiar e prevenção do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis.
Muativisa considera que a ideia de que o preservativo retira o prazer deve ser combatida através de informação.
“É um mito o que foi dito, porque o preservativo tem uma dupla função: prevenir ITS e gravidezes indesejadas. O preservativo dá, sim, prazer. Os adolescentes e jovens não devem construir essas narrativas, porque o HIV e SIDA e outras infecções são uma realidade.”
O responsável defende igualmente um maior envolvimento dos órgãos de comunicação social na sensibilização da juventude.
“O preservativo deve fazer parte da nossa vida. Os órgãos de comunicação social devem fazer parte dessa mobilização, intensificando mensagens que possam eliminar esse mito no seio da juventude. O preservativo salva vidas, os jovens não se devem focar em mitos, mas sim no conhecimento real.”
Segundo Muativisa, a AMODEFA tem desenvolvido actividades de sensibilização em escolas e outros espaços, e os relatos recolhidos pela reportagem reforçam a necessidade de intensificar esse trabalho.
“Nós, como AMODEFA, temos vindo a desenvolver actividades nas escolas e outros lugares. E, com essas declarações de que o preservativo não dá prazer, isso dá-nos a missão de intensificarmos mais as nossas actividades. Contudo, existem jovens que já estão a seguir os nossos aconselhamentos e mudam a sua forma de pensar para melhor.”
Dados mostram dimensão do desafio
Dados apresentados pelo governador de Cabo Delgado, Valige Tauabo, em Novembro de 2025, durante o Fórum de Reflexão sobre a Resposta ao HIV em Contextos de Emergência, ajudam a dimensionar os desafios relacionados com a resposta ao HIV na província.
Segundo os números divulgados naquela ocasião, entre Janeiro e Setembro de 2025 foram realizados cerca de 693.122 testes de HIV, dos quais aproximadamente 16 mil apresentaram resultado positivo.
No mesmo período, 17.710 pacientes iniciaram o tratamento antirretroviral.
Ao final dos primeiros nove meses de 2025, a província contabilizava 126.238 pacientes activos em tratamento antirretroviral (TARV).
Os dados ajudam a contextualizar os relatos recolhidos pela reportagem e reforçam a importância das estratégias de prevenção, testagem e tratamento na resposta ao HIV em Cabo Delgado.
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