vecteezy prague czech republic may 2 2024 woman holding iphone 45141062 4 scaled

Grupo em Moçambique é acusado de burlar portugueses através de falsas relações amorosas na internet

Uma investigação jornalística da SIC identificou, a partir de Moçambique, um grupo de jovens que se dedica a aplicar burlas românticas pela internet contra cidadãos portugueses, recorrendo a identidades falsas, perfis fictícios nas redes sociais e vários números de telemóvel.

O caso envolve vítimas que acreditam estar a desenvolver relações amorosas, mas acabam convencidas a enviar grandes quantias de dinheiro para pessoas que, na realidade, não conhecem.

Idoso de 81 anos acreditou ter encontrado o amor

Entre as vítimas está Aurélio, nome fictício atribuído a um homem de 81 anos, residente na região centro de Portugal.

Viúvo há três anos e à procura de companhia, o idoso acreditou ter encontrado uma nova oportunidade de relacionamento através do Facebook. Na rede social, uma mulher chamada Karen começou a conversar com ele e a utilizar palavras de afecto que acabaram por conquistar a sua confiança.

A filha do idoso contou à SIC que a mulher recorria frequentemente a expressões carinhosas, como “meu amor” e “gosto muito de ti”, levando o pai a envolver-se emocionalmente apesar dos alertas feitos pelos familiares.

“Como apelavam muito ao carinho, ‘meu amor, gosto muito de ti’, esse género de discurso, ele acabou por se deixar enredar, apesar dos alertas dos filhos”, relatou.

Segundo o inspector-chefe da Polícia Judiciária, Bernardino Martins, os autores deste tipo de crime procuram perceber as necessidades emocionais das vítimas e adaptam a abordagem para criar uma ligação de confiança.

“Eles sabem aquilo que essas pessoas em contexto isolado necessitam e sabem adequar o conteúdo daquilo que estão a dizer a essas pessoas”, explicou à SIC.

Pedidos de dinheiro começaram pouco depois

Depois de estabelecerem uma relação emocional com Aurélio, os burlões começaram a pedir-lhe dinheiro.

A família não conseguiu determinar exactamente quanto o homem perdeu, mas a filha estima que o prejuízo possa aproximar-se dos 30 mil euros.

O subintendente da PSP Nelson Ribeiro explicou que as vítimas de burlas românticas podem ficar emocionalmente tão envolvidas que continuam a efectuar pagamentos sucessivos.

“As pessoas são de tal forma envolvidas emocionalmente que acabam por fazer um primeiro pagamento, um segundo…”, afirmou.

O responsável acrescentou que existem casos em que as vítimas chegam ao ponto de contrair empréstimos para responder às exigências dos burlões, havendo situações em que os valores emprestados rondam os 20 mil euros.

De acordo com os dados apresentados na investigação, somente até ao final de Março de 2025, a PSP havia recebido mais de 30 queixas relacionadas com este tipo de burla.

A Polícia Judiciária, por sua vez, recebia em média mais de duas denúncias por dia relativas a casos de burla romântica.

Dinheiro enviado para pelo menos sete contas

No caso de Aurélio, as transferências bancárias foram efectuadas para pelo menos sete contas abertas em bancos portugueses.

As contas estavam registadas em nomes de homens que o idoso não conhecia e com quem nunca tinha mantido qualquer conversa.

Apesar de o dinheiro ser enviado para essas contas, os destinatários finais não seriam os homens titulares das contas. Segundo a investigação, os valores destinavam-se às pessoas que mantinham contacto com Aurélio através do Facebook e, sobretudo, do WhatsApp.

SIC segue o rasto até Moçambique

A Investigação SIC decidiu acompanhar o percurso das transferências e acabou por chegar aos verdadeiros responsáveis pelo esquema.

O rasto conduziu a Moçambique, onde, segundo a investigação, opera um grupo de jovens que utiliza perfis falsos nas redes sociais e vários cartões de telemóvel para assumir diferentes identidades.

No caso específico de Aurélio, os burlões chegaram a representar várias personagens para tornar a história convincente.

Além da suposta mulher com quem o idoso acreditava falar, os criminosos fizeram-se passar pela mãe dela, por uma enfermeira, pela directora de um banco, por uma contabilista e até por elementos da própria polícia.

A utilização de diferentes personagens servia para reforçar a credibilidade das histórias inventadas e manter a vítima envolvida no esquema.

Burlão admite esquema e revela destino do dinheiro

Um dos integrantes do grupo falou sobre o funcionamento da operação e admitiu que o esquema lhes proporcionou dezenas de milhares de euros.

Segundo o relato apresentado na investigação, os criminosos utilizavam contas bancárias abertas em Portugal para receber o dinheiro das vítimas. Posteriormente, os valores eram transferidos para os responsáveis pelo esquema.

“As pessoas usam uma conta no banco. Eu tenho acesso a essa conta que está em Portugal. O dinheiro entra na conta deles e eles mandam para mim, para a minha conta e eu dou para as pessoas que são os burlões”, explicou.

Equipamentos e bens comprados com dinheiro das burlas

Depois de serem descobertos pela equipa da SIC, os integrantes do grupo assumiram o envolvimento no esquema e mostraram alguns dos bens que, segundo a investigação, foram adquiridos com o dinheiro obtido através das burlas.

Entre os artigos apresentados estavam equipamentos informáticos, telemóveis de topo de gama, electrodomésticos e até um aparelho de ar condicionado.

“Se eu não burlar portugueses vamos comer aonde?”

Questionados pela SIC sobre as razões que os levam a dedicar-se a burlas contra portugueses através da internet, os integrantes do grupo responderam de forma directa e em conjunto.

Um dos elementos chegou a questionar a possibilidade de abandonar a actividade, argumentando que precisariam de outra fonte de rendimento.

“Este aqui diz que eu não posso andar a burlar pessoas. Mas está maluco? Vamos comer onde? Se eu não burlar portugueses vamos comer aonde?”, responderam.

A investigação expôs, assim, um esquema de burla romântica transnacional, no qual os criminosos utilizam identidades fictícias, relações sentimentais construídas online e múltiplos intermediários bancários para obter dinheiro de vítimas em Portugal, com parte da operação a ser conduzida a partir de Moçambique.

Outras Notícias do Autor

FB IMG 1788098147663

Ministério Público arquiva processo sobre banner “Quem mandou matar Anselmo” em Massinga e manda devolver material ao ANAMOLA

CT5XJPB54BMUZOUOPG2ZCDJLQE 1 scaled

Chapo manifesta solidariedade ao Nepal após cheias devastadoras em Rasuwa

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *