Os 5 países e regiões que poderão enfrentar condições extremas de calor até 2050, segundo a análise apresentada
O avanço das alterações climáticas está a modificar gradualmente as condições de habitabilidade em diferentes partes do planeta. Uma das formas utilizadas pelos cientistas para avaliar esse risco não é apenas observar a temperatura registada pelos termómetros, mas analisar a combinação entre calor e humidade e o impacto dessa combinação na capacidade do corpo humano de se arrefecer.
O foco está em regiões onde o calor e a humidade podem atingir níveis tão elevados que o suor deixa de evaporar adequadamente. Quando isso acontece, o mecanismo natural de arrefecimento do organismo deixa de funcionar de forma eficaz e a temperatura interna do corpo pode subir rapidamente, provocando falhas nos órgãos em poucas horas.
A importância da temperatura de bulbo húmido
Para compreender esse risco, é necessário distinguir o índice de calor tradicional da temperatura de bulbo húmido.
O índice de calor normalmente divulgado nos meios de comunicação combina a temperatura do ar com a humidade relativa e considera condições à sombra. Já a temperatura de bulbo húmido procura medir o nível mínimo de arrefecimento que pode ser alcançado através da evaporação da água.
No passado, esta medição era realizada manualmente, utilizando um termómetro envolvido num pano molhado e exposto ao vento. Actualmente, sensores electrónicos instalados em estações terrestres e dados obtidos por satélites permitem acompanhar estas condições com maior precisão em diferentes partes do planeta.
Quando a temperatura de bulbo húmido sobe suficientemente, a humidade do ar torna-se tão elevada que o suor deixa de evaporar adequadamente da pele, comprometendo o principal mecanismo natural de arrefecimento do corpo humano.
Actualmente, grande parte das regiões tropicais e quentes do mundo apresenta valores de bulbo húmido entre 25°C e 27°C. Embora esses níveis possam provocar grande desconforto e exigir cuidados durante actividades físicas, ainda permitem a realização de actividades ao ar livre.
O maior risco aparece quando os valores se aproximam do limite que o organismo humano consegue suportar.
O limite da resistência humana
Segundo a análise apresentada, cientistas estabeleceram 35°C de temperatura de bulbo húmido durante seis horas como um limite máximo de sobrevivência para uma pessoa saudável.
Depois desse período, caso a pessoa não seja transferida para um ambiente refrigerado ou com menor humidade, o risco de morte torna-se extremamente elevado. Nestas condições, o corpo perde a capacidade de regular adequadamente a própria temperatura e o calor interno aumenta rapidamente.
O desenvolvimento da ciência climática permite actualmente projectar não apenas o aumento das temperaturas, mas também identificar regiões onde a combinação de calor e humidade poderá ultrapassar os limites de tolerância do organismo humano.
Estudos associados ao monitoramento por satélite indicam que, entre 2050 e 2070, diferentes regiões poderão atingir níveis de calor e humidade que dificultariam a sobrevivência sem recurso permanente a sistemas tecnológicos de arrefecimento.
O limite de 35°C de bulbo húmido já foi registado de forma pontual nos últimos 15 anos, sobretudo em algumas zonas da Ásia e do Médio Oriente. O acompanhamento desses episódios indica que fenómenos anteriormente considerados raros estão a tornar-se mais frequentes e prolongados.
Regiões sob maior risco nas próximas décadas
As projecções apresentadas apontam para grandes áreas do Sul da Ásia como algumas das regiões que poderão enfrentar problemas graves de habitabilidade até 2050.
O Paquistão aparece entre os territórios considerados mais vulneráveis, numa região onde episódios de calor acompanhado por elevada humidade já representam um desafio para as populações. A configuração geográfica contribui para a retenção de massas de ar muito quentes e carregadas de humidade.
O Golfo Pérsico também surge entre as regiões sob maior alerta. Os países situados em redor desta bacia enfrentam uma combinação de temperaturas desérticas extremamente elevadas e elevada evaporação das águas marítimas.
Situação semelhante poderá ocorrer em países com litoral junto ao Mar Vermelho. Nestas regiões, condições extremas poderiam tornar a vida urbana cada vez mais dependente de sistemas de climatização, o que criaria dificuldades adicionais para populações com menor acesso a esses recursos.
Brasil e China entre as regiões de preocupação futura
Enquanto 2050 representa um período crítico sobretudo para partes do Médio Oriente e do Sul da Ásia, as projecções para 2070 apontam para riscos adicionais noutras regiões densamente povoadas.
O leste da China, uma das zonas mais populosas do planeta, aparece entre as áreas que poderão enfrentar episódios extremos de calor e humidade. A actividade industrial e as características geográficas locais podem contribuir para intensificar as condições térmicas.
O Brasil também surge entre as áreas de risco elevado. Algumas partes do território brasileiro poderão enfrentar, nas próximas décadas, combinações de calor e humidade que representariam um desafio significativo para a capacidade de adaptação do organismo humano.
Além disso, alguns estados dos Estados Unidos, sobretudo nas regiões sul e sudeste, poderão registar valores elevados de temperatura de bulbo húmido, criando desafios para a saúde pública e para a produtividade económica.
O perigo começa antes dos 35°C
O risco não surge apenas quando a temperatura de bulbo húmido alcança os 35°C. Episódios de calor intenso podem provocar mortes mesmo com valores consideravelmente inferiores.
Em 2021, uma forte onda de calor atingiu o noroeste dos Estados Unidos e o oeste do Canadá. Na ocasião, a temperatura de bulbo húmido não ultrapassou os 25°C, mas o episódio esteve associado à morte de cerca de 1.400 pessoas.
Nos Estados Unidos, o calor extremo é apontado como o fenómeno meteorológico que provoca mais mortes por ano, superando eventos como furacões, tornados e inundações. Em média, são registadas 143 mortes directas por ano no país atribuídas ao stress térmico.
Outro factor preocupante é o aumento das temperaturas durante a noite. Quando as temperaturas mínimas permanecem elevadas, o organismo tem menos oportunidade de recuperar durante o período nocturno, aumentando a acumulação do stress físico provocado pelo calor.
As projecções do IPCC
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) também alerta para o aumento da frequência dos episódios de calor extremo.
Segundo a perspectiva apresentada, caso o aquecimento global alcance 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, episódios de calor extremo poderão ocorrer cerca de quatro vezes mais frequentemente do que no século passado.
Isso significa que os impactos não estarão limitados às regiões que atingirem o limite de 35°C de bulbo húmido. Mesmo locais com valores inferiores poderão enfrentar aumento da mortalidade relacionada com o calor e maior pressão sobre os sistemas de saúde.
A possibilidade de algumas regiões se tornarem cada vez mais difíceis de habitar também poderá aumentar a pressão migratória. Quando as condições ambientais ultrapassam a capacidade de adaptação do corpo humano, actividades como agricultura, construção civil e outros trabalhos realizados ao ar livre podem tornar-se particularmente difíceis ou perigosos.
Neste contexto, o acompanhamento através de satélites e outros sistemas de monitoramento funciona como uma ferramenta para acompanhar a transformação das condições climáticas e avaliar os impactos que o aumento do calor e da humidade poderá ter sobre a habitabilidade de diferentes regiões do planeta.
