Elísio de Sousa questiona destino dos mais de 500 mil meticais da campanha solidária de Guyzelh Ramos e exige esclarecimentos
O jurista Elísio de Sousa publicou uma carta aberta dirigida ao influenciador Guyzelh Ramos, na qual exige esclarecimentos sobre o destino dos valores angariados numa campanha solidária destinada a apoiar crianças de uma escola em Luabo, na província da Zambézia.
Intitulada “As crianças da Zambézia precisam de ajuda e não de marketing digital”, a carta questiona a gestão dos donativos recolhidos durante a transmissão solidária realizada nos dias 4 e 5 de Agosto, que, segundo o autor, terá mobilizado mais de 500 mil meticais, havendo referências a valores próximos dos 600 mil meticais, além de bens materiais.
Na publicação, Elísio de Sousa afirma que a iniciativa foi apresentada como uma acção de solidariedade destinada às crianças e defende que os beneficiários devem estar no centro das atenções, em vez da exposição pública dos envolvidos.
“Há uma diferença abissal entre ser influenciador e ser exemplo. O primeiro precisa de seguidores; o segundo precisa de princípios”, escreve o jurista no início da carta, criticando o que considera ser uma possível confusão entre solidariedade e autopromoção.
Jurista questiona entrega dos donativos
Elísio de Sousa refere que leu a explicação de Guyzelh Ramos, segundo a qual o influenciador pretende fazer pessoalmente a entrega dos donativos. Perante essa posição, questiona por que razão a distribuição da ajuda dependeria da disponibilidade do próprio influenciador.
Na sua perspectiva, as crianças necessitam de alimentos, cadernos e outras formas de apoio, pelo que considera que a assistência não deve ficar condicionada à realização de transmissões em directo ou à presença de figuras públicas.
O jurista defende ainda que a prioridade deve ser a satisfação das necessidades dos beneficiários, sem que a iniciativa solidária se transforme num espaço de promoção pessoal.
Elísio de Sousa exige prestação de contas
Um dos principais pontos levantados na carta diz respeito à necessidade de esclarecer os valores efectivamente arrecadados durante a campanha.
Elísio de Sousa pede que sejam tornados públicos o montante total recolhido, incluindo os bens materiais, a quantia já entregue, a identidade dos destinatários, as datas da distribuição e os respectivos comprovativos.
O jurista questiona igualmente qual terá sido o destino da diferença, caso o valor global angariado tenha ultrapassado os 500 mil meticais.
Apesar das exigências, esclarece que não está a acusar Guyzelh Ramos de se ter apropriado dos valores, mas a defender a transparência na gestão de recursos mobilizados publicamente para uma causa solidária.
“Não estou a acusá-lo de apropriação de valores. Estou a exigir, como cidadão e interessado, a sua transparência”, afirma na carta.
Para Elísio de Sousa, quem participa na gestão de donativos recolhidos junto do público deve compreender que a prestação de contas constitui uma demonstração de responsabilidade e boa-fé.
Jurista reafirma apoio ao Professor Jaleia
Na mesma publicação, Elísio de Sousa manifesta respeito pelo trabalho educativo e social atribuído ao Professor Jaleia e recorda que já disponibilizou apoio jurídico ao docente, apesar de afirmar que não o conhece pessoalmente.
O jurista sustenta que a defesa dos interesses das crianças não depende de relações pessoais e reafirma a sua intenção de acompanhar o caso até que a situação seja devidamente esclarecida.
“Não preciso de conhecer um professor para defender uma causa justa, nem de pedir autorização a um influenciador para defender crianças da minha Província”, escreve.
Elísio de Sousa acrescenta que não descansará enquanto o assunto não estiver esclarecido e os interesses das crianças não estiverem salvaguardados. Caso considere necessário, admite recorrer aos mecanismos legais competentes, sublinhando a importância do contraditório e do respeito pela presunção de inocência.
“As crianças da Zambézia não são de segunda categoria”
Na parte final da carta, o jurista afirma que a vulnerabilidade económica das crianças da Zambézia não deve ser utilizada como instrumento de promoção nas redes sociais.
Defende que os beneficiários devem ser os verdadeiros protagonistas das iniciativas solidárias e apela a Guyzelh Ramos para que esclareça as contas e concretize a ajuda anunciada, caso essa seja a sua intenção.
“Um influenciador verdadeiramente grande não é aquele que consegue fazer milhares de pessoas olhar para si, mas aquele que consegue fazer a sociedade olhar para quem mais precisa”, escreve.
Elísio de Sousa termina a carta com uma questão dirigida às autoridades: “A propósito, por onde anda o Ministério Público?”
A intervenção surge no contexto da polémica em torno dos mais de 500 mil meticais alegadamente angariados para apoiar crianças em Luabo, um caso que tem provocado debate público sobre a transparência na gestão de donativos e a responsabilidade dos envolvidos em campanhas solidárias.
Até que sejam apresentados esclarecimentos e comprovativos sobre os valores arrecadados e entregues, as questões levantadas na carta permanecem como exigências de transparência formuladas pelo jurista.
Fonte: Carta aberta publicada por Elísio de Sousa.
