Os ministros da Saúde dos países africanos aprovaram, esta quarta-feira, 26 de agosto, um plano que prevê a formação, contratação e retenção de mais de três milhões de profissionais de saúde no continente até 2035. A iniciativa pretende reforçar os sistemas de saúde africanos e responder à crescente necessidade de trabalhadores qualificados no sector.
O compromisso foi assumido durante a 17.ª sessão do Comité Regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para África, que decorre esta semana em Adis Abeba, capital da Etiópia, e termina na sexta-feira, 28 de agosto.
Durante o encontro, o director regional da OMS para África, Mohamed Yakub Janabi, considerou a decisão um passo importante para transformar um dos principais pilares dos sistemas de saúde do continente.
“África comprometeu-se colectivamente a transformar um dos pilares fundamentais dos seus sistemas de saúde”, declarou Janabi.
Formação não é suficiente
Ao adoptar a Agenda Africana para a Força de Trabalho em Saúde 2026-2035, os Estados-membros reconheceram que a formação de profissionais constitui apenas a primeira etapa.
Segundo Mohamed Yakub Janabi, além de formar médicos, enfermeiros, parteiras e outros trabalhadores da área da saúde, os países precisam de criar empregos, melhorar as condições de trabalho e garantir a retenção dos profissionais.
A agenda pretende fortalecer os mercados de trabalho dos sistemas de saúde africanos através de um melhor planeamento, formação, contratação e retenção da força de trabalho.
A OMS defende que a implementação do plano exige investimentos coordenados para garantir que os países disponham de profissionais competentes, motivados e devidamente apoiados, capazes de responder às necessidades crescentes de saúde das populações.
África enfrenta falta de profissionais, mas há cerca de 1 milhão desempregados
Apesar da escassez de trabalhadores de saúde em vários países africanos, a OMS estima que cerca de um milhão de profissionais qualificados estejam desempregados no continente.
O problema afecta particularmente os recém-formados.
Segundo a organização, em vários países africanos, mais de metade dos médicos, enfermeiros e parteiras recém-formados não consegue encontrar emprego imediatamente após concluir a formação.
Para a OMS, esta situação evidencia a necessidade urgente de melhorar a coordenação entre a formação dos profissionais e a criação de postos de trabalho, além de garantir financiamento sustentável e planeamento de longo prazo.
Investimento pode gerar retorno de até 10 vezes
Para reduzir esta lacuna, a OMS estima que seria necessário um investimento adicional de 4 a 6 dólares por pessoa por ano.
Segundo a organização, esse investimento poderia produzir benefícios económicos e sociais significativos.
A OMS calcula ainda que cada dólar investido em profissionais de saúde pode gerar um retorno de até 10 dólares, reforçando a ideia de que a aposta na força de trabalho do sector não deve ser vista apenas como uma despesa de saúde.
“Estes dados reforçam a ideia de que investir em profissionais de saúde não é apenas uma prioridade para a saúde, mas também um investimento inteligente para o futuro de África”, concluiu a organização.
Fuga de profissionais preocupa o continente
O novo compromisso surge também num momento em que vários países africanos enfrentam uma crescente saída de profissionais de saúde para países do Norte Global, onde procuram melhores oportunidades profissionais e condições de trabalho.
Entre os factores que contribuem para essa migração estão a falta de recursos, condições laborais consideradas inadequadas e a escassez de oportunidades de emprego nos países de origem.
A retenção dos profissionais formados em África constitui, por isso, um dos principais desafios que a nova agenda pretende enfrentar.
Cortes na ajuda internacional aumentam preocupações
A reunião de Adis Abeba ocorre ainda num cenário marcado pela redução da ajuda internacional.
Desde o ano passado, os Estados Unidos da América e vários países europeus efectuaram fortes cortes na assistência internacional, uma situação que, segundo a informação divulgada, ameaça afectar programas de saúde e colocar em risco a vida de milhões de pessoas em diferentes partes do mundo, sobretudo no continente africano.
A Agenda Africana para a Força de Trabalho em Saúde 2026-2035 procura, neste contexto, criar uma estratégia de longo prazo para garantir que África disponha de profissionais suficientes, qualificados e com condições adequadas para responder às necessidades de saúde da população.
Fonte: Lusa
