A directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, afirmou que chegou ao fim o período em que os governos podiam contar com financiamento barato e crescimento económico acelerado para manter as suas dívidas sob controlo.
Perante este novo cenário, a responsável defende maior disciplina na despesa pública e uma orientação monetária mais restritiva em várias economias mundiais.
Georgieva fez estas declarações na quarta-feira, 7 de Outubro, em Singapura, antes das reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, que terão lugar na próxima semana, em Banguecoque.
Segundo a directora-geral do FMI, os responsáveis políticos já não podem depender exclusivamente de um crescimento económico mais forte para solucionar os problemas relacionados com as contas públicas.
Dívida mundial pode superar 100% do PIB
A dívida pública global encontra-se próxima dos níveis registados no período posterior à Segunda Guerra Mundial e poderá ultrapassar 100% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial antes de 2030, alertou Georgieva.
As economias avançadas são apontadas como as principais responsáveis pelo elevado nível de endividamento.
A responsável considera que ainda não existem medidas suficientemente decisivas nas economias desenvolvidas com níveis elevados de dívida. Segundo Georgieva, estes países precisam de apresentar planos credíveis de consolidação orçamental de médio prazo.
A directora-geral do FMI defendeu igualmente que é necessário reforçar com urgência o chamado espaço orçamental, de forma a permitir que os governos tenham maior capacidade de resposta perante futuros choques económicos.
Custos de financiamento estão a aumentar
Georgieva chamou também atenção para o aumento dos custos de financiamento.
Segundo a responsável, as rendibilidades das obrigações soberanas a 10 anos nos Estados Unidos, Alemanha e Japão encontram-se nos níveis mais elevados desde 2007, 2009 e 1996, respectivamente.
O cenário representa uma pressão adicional sobre os governos, sobretudo aqueles que apresentam níveis elevados de endividamento e precisam de refinanciar as suas obrigações.
FMI defende política monetária mais restritiva
No domínio da política monetária, Georgieva considerou “altamente adequadas” as recentes subidas das taxas de juro promovidas pela Reserva Federal dos Estados Unidos, pelo Banco Central Europeu e pelo Banco do Japão.
A directora-geral do FMI entende ainda que poderá ser o momento adequado para várias autoridades monetárias adoptarem uma orientação prudentemente restritiva.
A posição surge num contexto de preocupações relacionadas com a inflação e com a evolução dos preços da energia.
Guerra no Irão e inteligência artificial pressionam economia mundial
Georgieva alertou igualmente para a existência de forças económicas que estão a puxar a economia mundial em direcções opostas.
De um lado, existe um choque negativo na oferta de energia, associado à guerra no Irão. Do outro, verifica-se um choque positivo na procura relacionado com a inteligência artificial (IA).
Segundo a responsável do FMI, o efeito combinado destas duas forças não será igual em todas as regiões do mundo, podendo produzir impactos bastante diferentes entre economias.
Petróleo aproxima-se dos 100 dólares por barril
Outro motivo de preocupação é o preço do petróleo, que, segundo Georgieva, permanece próximo dos 100 dólares por barril.
O valor está significativamente acima dos 89 dólares por barril que o FMI tinha utilizado como referência nas suas previsões de Julho para este ano.
Na altura, as projecções do organismo apontavam para um crescimento da economia mundial de 3% em 2026 e 3,4% em 2027.
Apesar de admitir que a guerra no Golfo possa terminar num período relativamente curto, Georgieva alertou que os preços elevados da energia poderão permanecer durante algum tempo.
A combinação entre dívida elevada, custos de financiamento crescentes, pressão sobre os preços da energia e mudanças provocadas pela inteligência artificial coloca novos desafios aos governos e às autoridades monetárias, num momento em que o FMI pede maior prudência na gestão das finanças públicas.
