O ministro das Relações Internacionais e Cooperação da África do Sul, Ronald Lamola, classificou como profundamente perturbadores os comentários do líder do partido ActionSA, Herman Mashaba, sobre as homenagens ao antigo Presidente moçambicano Samora Machel, assinaladas na segunda-feira, 19 de Outubro, por ocasião dos 40 anos da tragédia de Mbuzini. As declarações de Mashaba, entretanto apagadas, provocaram fortes críticas e reacenderam o debate sobre o papel de Moçambique na luta contra o regime do apartheid.
A polémica começou depois de Mashaba ter afirmado que Samora Machel era um líder de Moçambique, e não da África do Sul, defendendo que os sacrifícios do antigo estadista deveriam ser homenageados no seu próprio país, em vez de se esperar que os sul-africanos participassem nas comemorações.
O dirigente do ActionSA questionou, assim, os apelos para que a população sul-africana se concentrasse nas homenagens a Machel. As suas declarações foram criticadas por várias figuras públicas, que recordaram o apoio prestado pelo antigo Presidente moçambicano e pelo seu país aos movimentos de libertação que combateram o apartheid.
Ronald Lamola condena declarações de Mashaba
Em reacção aos comentários, Ronald Lamola condenou veementemente a posição do líder do ActionSA, considerando-a profundamente perturbadora e reveladora da orientação política do partido.
“Isso revela profundamente o tipo de política que você e seu partido defendem”, afirmou o chefe da diplomacia sul-africana.
Lamola destacou que a história da libertação da África do Sul não pode ser dissociada do contributo dos países vizinhos, particularmente dos Estados da Linha da Frente, que apoiaram a luta contra o regime do apartheid e também suportaram custos humanos e materiais nesse processo.
O ministro recordou que Samora Machel morreu em território sul-africano quando regressava de uma reunião realizada em Lusaka, na Zâmbia, relacionada com a libertação dos povos oprimidos na África do Sul e noutros lugares.
“O presidente Machel morreu na África do Sul vindo de uma reunião em Lusaka que tratava da libertação dos povos oprimidos na África do Sul e em outros lugares”, afirmou Lamola, sublinhando a importância de reconhecer os sacrifícios feitos pelos países vizinhos durante a luta contra o apartheid.
“Os sul-africanos amantes da paz sabem que o custo da liberdade não foi arcado apenas pelos sul-africanos; os Estados da Linha da Frente, como Moçambique, também pagaram o preço final pela nossa liberdade”, acrescentou.
Declarações surgiram após vídeo de Josina Machel
As observações de Lamola foram feitas na sequência de uma publicação de Herman Mashaba, na qual o político reagia a um vídeo de Josina Machel, filha de Samora Machel, sobre a importância de preservar o legado do pai, quatro décadas depois da sua morte.
No vídeo, Josina descreveu o aniversário como um momento emocional, mas também como uma oportunidade para reconhecer os sacrifícios de todos os que participaram na luta de libertação e assegurar que a sua memória seja transmitida às gerações futuras.
“Este é um local que precisa ser preservado e conhecido porque meu pai e os outros três que morreram aqui morreram por causa da libertação da África do Sul”, declarou Josina no Memorial de Mbuzini.
A filha do antigo Presidente explicou que o pai e a sua delegação tinham viajado para a Zâmbia para discutir questões regionais, com destaque para os preparativos relacionados com a libertação da África do Sul.
Josina defendeu ainda que Samora Machel deve ser reconhecido como um herói não apenas de Moçambique, mas também da África do Sul, uma vez que perdeu a vida em território sul-africano enquanto representava os ideais de liberdade e solidariedade entre os povos africanos.
“Samora é um herói, não apenas para Moçambique, mas deve ser considerado um herói que perdeu o seu último suspiro, a sua última gota de sangue em solo sul-africano para representar como os africanos lutaram, que sempre disseram que até a África do Sul ser livre, nenhum de nós, como africanos, é livre”, afirmou.
Memorial de Mbuzini simboliza solidariedade regional
O Memorial Samora Machel foi inaugurado em Mbuzini, em 1999, pelo antigo Presidente sul-africano Nelson Mandela. O espaço foi criado para homenagear as vítimas da tragédia aérea e preservar a memória da solidariedade entre os povos da África Austral.
Na cerimónia de inauguração, Mandela destacou os valores defendidos por aqueles que perderam a vida no acidente, incluindo a liberdade, a dignidade humana, a solidariedade e o direito dos povos de determinarem o seu próprio futuro.
“Honramos o legado do Presidente Machel e homenageamos todos aqueles que pereceram ao seu lado. Também celebramos os ideais que eles defenderam: liberdade, dignidade humana, solidariedade e o direito de todos os povos de determinar seu próprio futuro”, declarou Mandela na ocasião.
Durante as comemorações realizadas na segunda-feira, Ronald Lamola afirmou que a África do Sul e Moçambique têm a responsabilidade de garantir que as gerações mais jovens compreendam os sacrifícios que tornaram possível a liberdade dos dois povos.
O ministro recordou igualmente o compromisso assumido após a morte de Samora Machel de que o monumento de Mbuzini representaria o sofrimento partilhado pelos povos da África Austral e reafirmaria o seu destino comum, assente na liberdade, na paz e no progresso social.
Samora Machel morreu num acidente de avião em Mbuzini, em Outubro de 1986, quando regressava da Zâmbia. A tragédia, que vitimou 34 moçambicanos, continua associada a suspeitas e investigações relacionadas com possíveis responsabilidades das forças de segurança do regime do apartheid.
Jornalista Hopewell Chin’ono acusa Mashaba de ignorância histórica
A polémica também provocou reacções fora da África do Sul. O jornalista zimbabweano Hopewell Chin’ono acusou Herman Mashaba de demonstrar “grande ignorância” ao questionar a necessidade de os sul-africanos homenagearem o primeiro Presidente de Moçambique.
Chin’ono classificou as declarações como uma demonstração vergonhosa de desconhecimento histórico, considerando que não se espera este tipo de posição de um político africano que pretende ocupar cargos públicos.
“Isso é uma grande ignorância, do tipo que não esperamos de líderes políticos africanos”, afirmou.
O jornalista recordou que Samora Machel morreu em solo sul-africano, num acidente aéreo que, durante muito tempo, foi associado ao regime do apartheid, devido ao apoio prestado pelo antigo Presidente moçambicano aos movimentos de libertação.
“Samora Machel morreu em solo sul-africano, num acidente aéreo que durante muito tempo foi atribuído ao regime do apartheid, porque ele apoiava os movimentos de libertação. No entanto, um político sul-africano que almeja um cargo público publica ‘tuites’ tão ignorantes. Isso é mais do que vergonhoso e decepcionante”, declarou Chin’ono.
Na sua reacção, o jornalista também criticou o facto de Mashaba se opor, segundo a sua interpretação, à recordação da morte de Machel e dos outros cidadãos moçambicanos que perderam a vida no acidente.
“Que homem sem vergonha você é, Herman Mashaba. Os seus ancestrais são moçambicanos e, mesmo assim, você não quer que a morte e o acidente que vitimou 34 moçambicanos que lutavam pelo seu país sejam lembrados na África do Sul. Certamente, dinheiro não compra classe”, concluiu.
Ex-jornalista da SABC pede retratação
O antigo jornalista da emissora sul-africana SABC, Tshepo Ikaneng, também condenou os comentários de Herman Mashaba, classificando-os como imprudentes e potencialmente prejudiciais às relações da África do Sul com os países vizinhos.
“Ntate Mashaba, esta é uma declaração muito imprudente e irresponsável, e espero que os seus assessores em relações exteriores lhe peçam para se retratar”, escreveu Ikaneng.
O antigo jornalista acrescentou que Mashaba, enquanto aspirante à Presidência da República, deveria compreender a importância das relações diplomáticas com os países da África Austral e com o restante continente africano.
“Como aspirante à presidência de nossa amada República, o senhor deveria saber que, como chefe de Estado, terá que dialogar primeiro com os seus vizinhos na África Austral e com o resto do continente”, afirmou.
Ikaneng alertou ainda que, caso Mashaba venha a tornar-se Presidente da África do Sul, poderá ser chamado a responder pelas declarações que fez sobre Samora Machel e o papel de Moçambique na luta contra o apartheid.
Quem é Herman Mashaba?
Herman Mashaba é empresário e político sul-africano, antigo presidente da Câmara Municipal de Joanesburgo e fundador do partido ActionSA, criado em 2020, do qual continua a ser líder.
O político procura obter a indicação do partido para voltar a concorrer à presidência da Câmara Municipal de Joanesburgo nas eleições autárquicas previstas para Novembro de 2026.
Actualmente, o ActionSA conta com seis assentos no Parlamento sul-africano.
A controvérsia em torno das declarações de Mashaba surge num momento em que as comemorações dos 40 anos da morte de Samora Machel voltam a colocar em evidência os laços históricos entre Moçambique e a África do Sul, bem como os sacrifícios partilhados durante a luta contra o apartheid.
