Keiko Fujimori impõe regras rígidas nas escolas do Peru e proíbe cabelo comprido, maquilhagem e telemóveis
A Presidente do Peru, Keiko Fujimori, anunciou um novo regulamento de disciplina escolar que prevê a proibição de cabelos compridos para rapazes, cabelo pintado, maquilhagem, unhas pintadas e minissaias nas escolas públicas do país. As medidas incluem ainda restrições ao uso de telemóveis durante as aulas, a recuperação das notas de comportamento e a possibilidade de expulsão de alunos por infracções graves.
O Governo afirma que as novas regras têm como objectivo combater a violência e o assédio no ambiente escolar, reforçando a disciplina nas salas de aula.
O anúncio foi feito na segunda-feira, 12 de Outubro de 2026, durante uma cerimónia realizada em Chaclacayo, nos arredores de Lima, capital peruana.
“O ordenamento não deve existir apenas nas ruas. Também tem de regressar às nossas escolas e às nossas salas de aula”, declarou Keiko Fujimori durante a apresentação das medidas.
A governante lidera um país afectado por extorsões e assassinatos associados ao crime organizado e fez do restabelecimento da ordem uma das principais bandeiras da sua agenda política. Durante a campanha eleitoral, o seu plano de governo foi apresentado sob o lema “Peru com Ordem”.
Contudo, a aplicação desta política parece, para já, mais direccionada à aparência e ao comportamento dos estudantes do que ao combate às organizações criminosas. “Os mais malcomportados não vão permanecer nas salas de aula”, advertiu a Presidente.
Cabelo curto, proibição de maquilhagem e regras sobre uniformes
“Os rapazes devem apresentar-se com o cabelo curto. É totalmente proibido pintar o cabelo ou usar maquilhagem”, afirmou Keiko Fujimori.
O ministro da Educação, José Antonio Chang, esclareceu os limites das novas regras disciplinares. Segundo as orientações apresentadas, os estudantes não poderão usar maquilhagem, pintar as unhas ou tingir o cabelo. Os rapazes deverão manter o cabelo curto, enquanto as saias das alunas terão de ficar abaixo dos joelhos, excluindo-se o uso de minissaias.
Os telemóveis também estarão proibidos durante as aulas, excepto quando houver autorização do professor.
As exigências relativas à aparência pessoal serão aplicadas às escolas públicas. Já os estabelecimentos privados, frequentados habitualmente por famílias com maiores recursos financeiros, poderão continuar a estabelecer os seus próprios regulamentos.
Ex-governante critica medidas e alerta para retrocesso social
As novas regras estão a gerar críticas de especialistas na área da educação. Ana Andrade Pacora, antiga vice-ministra da Gestão Pedagógica, considera que as medidas são inadequadas e podem representar um retrocesso na sociedade peruana.
“Creio que são medidas absolutamente erradas e que nos farão recuar mais de três décadas como sociedade”, afirmou.
A antiga governante considera ainda que as restrições representam uma desistência da responsabilidade da escola de formar integralmente as novas gerações, incluindo na educação para a cidadania.
“Estas medidas equivalem a uma renúncia declarada da escola à formação integral das jovens gerações e à educação para a cidadania. Não acredito que funcionem”, acrescentou.
Andrade Pacora também classificou como sexistas as restrições relacionadas com a forma de vestir das alunas. Na sua avaliação, as regras transmitem a ideia de que são as raparigas que devem proteger-se do assédio, em vez de se promoverem mudanças sociais para impedir que os homens assediem.
“A rapariga é que tem de se proteger, em vez de se mudar a sociedade para que os homens deixem de assediar. Essa é a mensagem que está a ser transmitida”, alertou.
Mais de seis milhões de alunos abrangidos pelas novas regras
O novo regulamento deverá abranger o sistema de ensino público peruano, que reúne mais de seis milhões de estudantes.
Entretanto, por detrás da iniciativa governamental centrada nos penteados e na aparência dos alunos, existe um problema mais grave: a violência nas escolas.
Entre Janeiro e Agosto de 2026, o Ministério da Educação do Peru registou 11.805 casos de violência escolar.
Em Setembro, um adolescente de 16 anos denunciou ter sido vítima de agressão sexual praticada por colegas durante uma viagem num autocarro escolar. Na sequência do caso, a Justiça determinou o internamento preventivo de seis estudantes de uma escola administrada pela Marinha de Guerra do Peru.
O escândalo levou o Governo a intervir no estabelecimento de ensino e voltou a colocar no centro do debate público a questão da violência no ambiente escolar.
Para Ana Andrade Pacora, a aparência dos estudantes não deve ser confundida com a sua capacidade de respeitar os outros.
“Não importa a forma como te apresentas, mas sim a maneira como tratas as pessoas”, observou a especialista, que considera um erro associar o aspecto físico dos alunos ao respeito pelos colegas.
“É um completo disparate”, concluiu.
Presidente defende que disciplina prepara os alunos para a vida
Keiko Fujimori, por sua vez, defendeu que as novas regras pretendem ensinar responsabilidade aos estudantes e contribuir para a sua formação ao longo da vida.
“Sei que pode ser bastante rigoroso, mas acreditem que isto será importante ao longo da vida”, declarou a Presidente.
Além das restrições à aparência e ao uso de telemóveis, o regulamento prevê a recuperação das notas de comportamento e a possibilidade de expulsar estudantes envolvidos em infracções graves.
“Todos estes critérios estabelecerão a dis-ci-pli-na”, afirmou Keiko Fujimori, pronunciando a palavra de forma enfática para reforçar a mensagem central da iniciativa.
Fonte: El País, reportagem de Américo Zambrano, publicada em 13 de Outubro de 2026.
