O Fundo de Energia (FUNAE) pretende transferir a gestão da Fábrica de Painéis Solares de Moçambique para um operador privado, numa tentativa de reativar a unidade industrial, localizada no Parque Industrial de Beluluane, no distrito da Boane, província de Maputo. A fábrica, inaugurada em 2013, encontra-se paralisada desde 2022, devido à perda de competitividade face aos equipamentos importados, sobretudo provenientes da China.
O anúncio foi feito no sábado (1) pelo presidente do Conselho de Administração do FUNAE, Mety Gondola, durante uma visita às instalações da fábrica.
Segundo Gondola, caso o setor privado demonstre capacidade para assumir a gestão da unidade, o processo de transição deverá avançar de forma gradual, permitindo que o FUNAE concentre a sua atuação na mobilização de recursos, definição de critérios e disponibilização desses recursos ao setor privado através de processos transparentes.
O responsável defendeu ainda que a gestão da fábrica não precisa de permanecer sob responsabilidade do FUNAE, considerando que a infraestrutura poderá funcionar de forma mais eficiente se for administrada por um operador privado, através de um contrato-programa que mantenha os objetivos estratégicos definidos pelo Governo.
De acordo com Mety Gondola, o Executivo continuará a definir a visão e a utilidade estratégica da fábrica para o país, enquanto a administração operacional poderá ser concessionada a uma entidade privada.
A intenção de concessionar a unidade surge depois de o FUNAE ter lançado, em novembro de 2025, um concurso público destinado à seleção de uma empresa nacional ou estrangeira para explorar e gerir a fábrica, com o objetivo de melhorar a sua eficiência.
Fábrica gera elevados custos mesmo sem produzir
Dados divulgados pelo FUNAE em julho revelam que a paralisação da fábrica representa um custo fixo anual estimado em 18,75 milhões de meticais.
A unidade possui capacidade para produzir cerca de 40 painéis solares por dia, com potência máxima de 270 watts-pico, ao custo aproximado de 14 mil meticais por unidade.
Entretanto, o mercado disponibiliza atualmente painéis importados com potência de até 610 watts-pico, vendidos por cerca de 15 mil meticais, uma diferença que evidencia a necessidade de modernização tecnológica para que a produção nacional consiga competir com os equipamentos importados.
FUNAE reforça papel de financiador
Criado em 1997, o FUNAE é uma instituição pública responsável pelo financiamento e implementação de projetos de expansão do acesso à energia, sobretudo nas zonas rurais e em comunidades fora da rede elétrica nacional.
Nos últimos anos, a instituição tem vindo a reposicionar-se como mobilizadora de financiamento e facilitadora do investimento privado, reduzindo gradualmente a sua participação direta na operação de infraestruturas energéticas.
Em 2025, o FUNAE anunciou igualmente a intenção de transferir 40 mini-redes elétricas para operadores privados, mantendo apenas as funções de assistência técnica, supervisão e garantia da continuidade e qualidade dos serviços.
Trabalhadores foram integrados noutras áreas
No âmbito da reestruturação da fábrica, os trabalhadores foram integrados em diferentes áreas do FUNAE.
Segundo o diretor da unidade, Edson Mohanjane, cerca de 40 funcionários foram redistribuídos após um processo de consulta e avaliação das suas competências.
Mohanjane afirmou que todos os colaboradores continuam a desempenhar funções na instituição e têm demonstrado empenho e dedicação nas novas responsabilidades que lhes foram atribuídas.
Mercado solar apresenta forte potencial de crescimento
A possível reativação da fábrica acontece num contexto de expansão da eletrificação e do mercado de energias renováveis em Moçambique.
O relatório “Renewables in Mozambique 2025”, elaborado pela Associação Lusófona de Energias Renováveis e pela Associação Moçambicana de Energias Renováveis, estima que o mercado de autoconsumo solar no país tenha um potencial de 173 megawatts, avaliado em aproximadamente 286 milhões de euros.
No segmento de sistemas fora da rede elétrica, o potencial identificado é de 34 megawatts, correspondendo a um mercado estimado em 147 milhões de euros.
O estudo indica ainda que Moçambique conta atualmente com 113 mini-redes, com uma capacidade instalada conjunta de 11,7 megawatts.
Em 2025, a capacidade instalada de energia solar fotovoltaica ligada à rede nacional situava-se em cerca de 58 megawatts, prevendo-se que ultrapasse 1.080 megawatts até 2032.
O relatório acrescenta que a taxa nacional de eletrificação atingiu 66,4%, após a realização de 436 mil novas ligações à rede elétrica pela EDM e de mais 122 mil ligações através de soluções fora da rede.
Inaugurada em abril de 2013, a Fábrica de Painéis Solares de Moçambique foi criada para produzir equipamentos destinados aos projetos de eletrificação do país, reduzir a dependência das importações e fortalecer a capacidade industrial nacional no setor das energias renováveis.
