Mulheres assam castanhas para sustentar família em Maputo em meio a desafios diários

Em Maputo, duas mulheres chamadas Rosalina mantêm viva a tradição familiar de assar castanha de caju, atividade que atravessa gerações e voltou a ganhar força no país. Sentadas à porta de uma casa escurecida pelo fumo, elas trabalham diariamente para sustentar suas famílias.

Rosalina Justino começa a rotina antes do amanhecer. “Acordo às três da madrugada para começar a partir as castanhas”, relata à Lusa, enquanto se senta em frente à sua casa, feita de chapa de zinco e já escurecida pela fuligem. A atividade é totalmente artesanal: assam a castanha, partem cada caroço individualmente e enchem os copos que serão vendidos aos clientes.

A vendedora enfrenta desafios como o preço elevado da castanha, o cansaço e dores de estômago causadas pelo fumo diário, mas garante que essa rotina, praticada há 30 anos, cobre as despesas domésticas e os estudos dos filhos, alguns já na universidade. Ela lembra os tempos em que comprava a castanha no mercado por 50 meticais (0,67 euros), valor que hoje triplicou, reduzindo seus lucros. Atualmente, vende cada copo por 120 meticais (1,60 euros) e reclama da escassez de clientes.

O Ministério da Agricultura anunciou que a comercialização de castanha de caju atingiu 195.400 toneladas na última campanha, aproximando-se do recorde histórico dos anos 70, quando Moçambique era um dos maiores produtores mundiais, com mais de 200 mil toneladas anuais. A produção atual se aproxima desse valor na campanha de 2024/2025.

Ao lado de Rosalina Justino, está Rosalina Bule, 55 anos, que atua nesse ofício há 22 anos. Ambas compartilham histórias e dificuldades, unidas pelo objetivo comum de sustentar suas famílias. “Fui no Fajardo comprar castanhas para assar e vender e alimentar meus filhos”, diz Bule, limpando o suor com as mãos negras de carvão. Apesar das dificuldades, garante que consegue manter os filhos na escola e prover alimento.

Em dias sem aula, os filhos ajudam a vender a castanha na baixa de Maputo, enquanto a mãe também improvisa vendendo carvão e bolinhos para complementar a renda. O trabalho exige esforço repetitivo: partem os caroços sobre pedras usando pedaços de ferro para libertar a amêndoa, centenas de vezes por dia. A esquina da casa é o ponto de venda, mantendo clientes fiéis.

No mercado Fajardo, Nelson, um comerciante que compra castanha bruta em Inhambane desde 2008 para revenda, também enfrenta instabilidade nos preços e pouco lucro. Apesar das reclamações dos clientes, a castanha é rapidamente vendida, tornando-se uma fonte de sobrevivência.

Historicamente, Moçambique foi o segundo maior produtor mundial de caju, com 210 mil toneladas processadas em 1973, atrás apenas da Índia. Após a independência, em 1975, a produção caiu para 15 a 20 mil toneladas anuais, mas vem crescendo desde então. Atualmente, a cadeia de valor do caju envolve cerca de 1.047.000 famílias, 69 empresas e 7.287 trabalhadores em todo o país, sendo Maputo o principal centro de consumo, com 32.168 famílias envolvidas.

O governo prevê aumento de 23% na produção este ano, totalizando 218.900 toneladas, com expansão significativa da área de cultivo. Entre o fumo das brasas e a casca que estala com o fogo, as Rosalinas resistem ao cansaço e às dificuldades para garantir alimentação e educação aos filhos.

“Estou cansada, o estômago dói com esse lume, não está fácil. Mas vou fazer o quê? Os meninos também querem comer, têm de ir à escola”, conclui Rosalina Justino.

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