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Capital chinês compra 70% dos activos de grafite da Triton em Moçambique

Última Hora: Capital chinês assume 70% dos activos de grafite da Triton em Moçambique por 17 milhões de dólares australianos

MAPUTO — A NQM Gold 2 Pty Ltd, subsidiária da chinesa Shandong Yulong Gold, concluiu a aquisição de 70% dos activos de grafite da australiana Triton Minerals em Moçambique, numa operação avaliada em 17 milhões de dólares australianos, equivalentes a cerca de 9,6 milhões de euros.

Com a transacção, a NQM passa a deter uma posição maioritária nas empresas moçambicanas Kwe Kwe Graphite e Grafex, que concentram os principais activos da Triton no norte de Moçambique. A empresa australiana mantém os restantes 30%, conservando assim exposição ao desenvolvimento e à eventual entrada em produção dos projectos.

A operação inclui o projecto de grafite de Ancuabe, na província de Cabo Delgado, além de 70% dos interesses em propriedade intelectual e testemunhos de sondagem associados aos projectos Nicanda Hill e Nicanda West, bem como 70% da concessão mineira de Cobra Plains.

A conclusão da transacção encerra um processo iniciado em 2024, marcado por sucessivos adiamentos, atrasos nos pagamentos e uma disputa judicial na Austrália.

Último pagamento permite concluir a operação

A aquisição foi inicialmente estruturada através de três pagamentos. O primeiro, no valor de 2,55 milhões de dólares australianos, foi efectuado em Julho de 2024, tendo sido posteriormente realizados pagamentos adicionais associados às etapas de pré-conclusão e conclusão definitiva da operação.

No dia 20 de Agosto de 2026, a Triton informou a Australian Securities Exchange (ASX) que tinha recebido da NQM o pagamento final de 5,5 milhões de dólares australianos, correspondente ao montante que ainda permanecia pendente no âmbito do acordo de compra e venda.

O pagamento criou as condições financeiras necessárias para concluir efectivamente a transacção e permitiu avançar com a desistência do processo judicial que corria no Supremo Tribunal da Austrália Ocidental.

A transferência das acções correspondentes a 70% da Kwe Kwe Graphite e da Grafex já havia sido efectuada, mas permanecia condicionada à liquidação do valor em falta.

Caso o pagamento não fosse efectuado dentro do prazo acordado, a Triton teria o direito de exigir a devolução imediata da participação à Triton Minerals Management e à Triton United.

Com a entrada dos 5,5 milhões de dólares australianos, esse cenário deixou de ser o principal risco da operação e a NQM consolidou a sua posição maioritária nas duas empresas moçambicanas.

Acordo põe fim ao diferendo entre as empresas

Antes da conclusão da aquisição, as partes assinaram, em 18 de Agosto, um acordo de resolução e exoneração de responsabilidades envolvendo a Triton, NQM Gold, Triton Minerals Management e Triton United.

Segundo o comunicado apresentado pela Triton à bolsa australiana, o acordo estabeleceu a resolução de todos os diferendos relacionados com o contrato de compra e venda, confirmou a conclusão da operação e determinou a desistência, por mútuo acordo, dos processos judiciais, sem imputação de custas.

A Triton comprometeu-se igualmente a indemnizar a NQM por qualquer Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas que possa resultar directamente do perdão das dívidas da Kwe Kwe Graphite e da Grafex à empresa australiana.

Essa responsabilidade foi limitada a 850 mil dólares australianos.

O conflito entre as partes surgiu na sequência de atrasos na conclusão da aquisição e no pagamento das parcelas acordadas. Depois de emitir notificações formais de incumprimento, a Triton recorreu aos tribunais para procurar fazer cumprir o contrato e obter o pagamento dos valores em dívida.

A solução negociada permite agora substituir o diferendo contratual por uma estrutura accionista conjunta, com a NQM a controlar 70% e a Triton a manter 30% dos activos.

Ancuabe é o principal activo da operação

O projecto de Ancuabe, localizado em Cabo Delgado, é considerado o principal activo abrangido pela transacção.

O empreendimento foi concebido para produzir concentrado de grafite de elevada qualidade, destinado a aplicações industriais e à cadeia internacional de produção de baterias.

A Triton já tinha obtido a licença ambiental necessária para o projecto, uma das condições importantes para avançar para a fase de desenvolvimento.

A entrada da NQM foi apresentada pela empresa australiana como uma oportunidade para mobilizar recursos financeiros e acelerar o processo de desenvolvimento e eventual comercialização dos recursos.

Os activos de Nicanda Hill, Nicanda West e Cobra Plains ampliam a dimensão estratégica do portefólio adquirido.

A própria Triton descreve Nicanda Hill como um depósito de grafite e vanádio com recursos estimados em aproximadamente 1,4 mil milhões de toneladas de minério, apresentando um teor médio de 11,1% de carbono grafítico total.

Com a aquisição, a NQM passa a ter acesso a recursos minerais considerados de potencial longa duração e reforça a posição do grupo chinês num dos países africanos com importantes reservas de grafite natural.

Para a Triton, a venda parcial permite obter liquidez imediata, reduzir a necessidade de financiar sozinha o desenvolvimento dos projectos e, simultaneamente, conservar uma participação de 30% nos activos.

Produção de grafite em Moçambique supera previsões

A aquisição ocorre numa altura de recuperação da produção nacional de grafite.

Dados oficiais citados pela Lusa indicam que Moçambique produziu 28.018 toneladas de grafite no primeiro trimestre de 2026.

O volume representa quase o dobro das 14.814 toneladas que tinham sido inicialmente projectadas para todo o ano, correspondendo a uma execução de 189% da meta definida para os primeiros três meses.

O desempenho foi associado à estabilidade operacional do principal produtor nacional e à entrada em actividade de uma nova empresa na província do Niassa.

A recuperação acontece depois de um período de forte instabilidade na produção.

Em 2022, Moçambique produziu cerca de 165,9 mil toneladas de grafite. O volume caiu para 97,3 mil toneladas em 2023 e voltou a recuar para aproximadamente 34,9 mil toneladas em 2024, devido à paralisação e interrupção de diferentes operações mineiras.

Em 2025, a produção recuperou para 67.078 toneladas, apesar de não ter sido registada actividade durante o primeiro trimestre, na sequência da suspensão das operações da mina de Balama.

A entrada da NQM nos activos da Triton poderá acrescentar uma nova base produtiva ao sector, caso o novo accionista avance com o financiamento, construção e posterior entrada em funcionamento do projecto de Ancuabe.

Capital chinês reforça presença na indústria de grafite

A operação acontece depois da entrada em funcionamento, no início de 2026, de uma unidade chinesa de mineração e processamento de grafite no distrito de Nipepe, província do Niassa.

A unidade, operada pela DH Mining, tem uma capacidade anunciada de 200 mil toneladas por ano e resultou de um investimento acumulado de aproximadamente 200 milhões de dólares.

Segundo informações divulgadas durante a inauguração, a unidade emprega actualmente 890 trabalhadores, número que poderá aumentar para cerca de 2.000 na segunda fase.

Com a aquisição dos activos da Triton, o capital chinês reforça a sua presença tanto no Niassa como em Cabo Delgado, duas províncias que concentram uma parcela significativa dos recursos de grafite de Moçambique.

A tendência acompanha a posição dominante da China na cadeia global deste mineral. O país controla uma parcela significativa da extracção, refinação e produção de materiais utilizados nos ânodos das baterias de veículos eléctricos e sistemas de armazenamento de energia.

O controlo de recursos em Moçambique permite aos grupos chineses diversificar as suas fontes de abastecimento, garantir matéria-prima para a indústria de baterias e integrar os activos nacionais em cadeias produtivas internacionais.

Processamento local será determinante para os benefícios económicos

Apesar da mudança accionista, a aquisição não significa que o projecto de Ancuabe entrará imediatamente em produção.

O desenvolvimento do empreendimento dependerá de decisões finais de investimento, obtenção de financiamento, construção de infra-estruturas, aquisição de equipamentos, disponibilidade de energia, logística, segurança e acesso a compradores internacionais.

Para Moçambique, o impacto económico da operação dependerá da capacidade de transformar a entrada de capital num projecto efectivamente operacional, capaz de gerar processamento local, emprego, receitas fiscais, contratação de fornecedores nacionais e formação de mão-de-obra.

A nova legislação mineira estabelece uma participação mínima de 15% do Estado, gratuita e não diluível, nos projectos mineiros, além de orientar o sector para o processamento local dos minerais.

Contudo, ainda permanece por esclarecer como algumas destas disposições serão aplicadas a empreendimentos abrangidos por acordos e licenças anteriores.

Neste contexto, a estrutura accionista da Kwe Kwe Graphite e da Grafex poderá ter de ser articulada com o novo quadro regulatório, particularmente no que diz respeito à participação pública, ao processamento local e às condições de exportação.

O grafite é um mineral fundamental para a produção de ânodos de baterias e assume importância crescente nas áreas da mobilidade eléctrica, armazenamento de energia e diversas aplicações industriais.

No entanto, a maior parcela do valor económico não está apenas na extracção do minério, mas também nas etapas de purificação, transformação e produção de materiais activos.

A entrada da NQM cria, assim, condições para retomar o desenvolvimento de Ancuabe. Para Moçambique, o principal desafio será garantir que a nova fase não se limite à transferência de propriedade dos activos, mas resulte numa cadeia produtiva com maior incorporação de valor dentro do país.

Fonte: O Económico

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