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Jovem é retirada à força pela polícia por usar vestido que mostrava as pernas no Ruanda

polémica sobre roupa feminina testa controlo das autoridades no Ruanda

Uma polémica relacionada com a forma como as mulheres se vestem no Ruanda transformou-se num novo ponto de tensão entre as autoridades e uma parcela da juventude, que começa a contestar o que considera ser uma fiscalização excessiva da vida quotidiana.

O pequeno país da região dos Grandes Lagos, no leste de África, procura apresentar-se internacionalmente como um destino aberto a estrangeiros, turismo e investimentos. No entanto, nas últimas semanas, voltou a ganhar destaque uma faceta mais conservadora do país, depois de a polícia intensificar ações contra aquilo que considera ser “comportamento indecente”.

Jovem retirada à força por causa do vestido

Um vídeo que se tornou viral na última semana mostra uma jovem a ser colocada à força num veículo policial na cidade de Rubavu. Nas imagens, a mulher é aparentemente abordada pelas autoridades devido ao vestido que usava, considerado inadequado por deixar as pernas visíveis.

O episódio provocou indignação nas redes sociais e acabou por obrigar a polícia a pedir desculpas publicamente.

As autoridades ruandesas afirmaram que os agentes envolvidos no incidente foram detidos e que a jovem foi posteriormente libertada.

Apesar do pedido de desculpas, o caso surgiu num contexto mais amplo de fiscalização. No início de agosto, a polícia anunciou uma campanha contra o chamado “comportamento indecente”.

Desde então, surgiram relatos de operações policiais em festas realizadas em residências, enquanto bares e clubes passaram a estar sujeitos a horários de encerramento mais rigorosos.

Concertos também entram na polémica

A discussão ganhou ainda maior dimensão depois de vários espectadores terem sido impedidos de entrar num concerto do artista tanzaniano Diamond Platnumz, realizado em 29 de agosto, na BK Arena, em Kigali.

Alguns participantes foram barrados devido ao estilo das roupas que vestiam.

Entre as pessoas impedidas de entrar estava Grace Uwinkamiye, de 24 anos, que contou ter usado um vestido curto com blazer.

“Eu estava a usar um vestido curto com blazer, nada realmente escandaloso, mas mandaram-me embora. Fiquei furiosa. Foi muito humilhante”, relatou.

Segundo Uwinkamiye, as amigas também reagiram negativamente à situação. Uma delas, afirmou, chegou a viajar para um país vizinho para permanecer temporariamente fora do Ruanda.

Os episódios desencadearam uma onda de críticas nas redes sociais.

A conhecida modelo Pamella Uwicyeza manifestou-se publicamente contra o controlo sobre a roupa das mulheres.

“A mulher não é um convite ao controlo. Nenhuma mulher deve ouvir o que lhe é ‘permitido’ vestir, e ninguém merece violência, humilhação ou medo por causa da sua roupa”, escreveu.

Governo alerta para influência cultural externa

O governo ruandês parece estar particularmente preocupado com determinados hábitos associados à vida noturna e com escolhas de moda consideradas “sexualizadas” entre as mulheres.

A ministra de Estado para a Juventude e Artes, Sandrine Umutoni, advertiu nas redes sociais que a falta de referências culturais próprias pode abrir espaço para a adoção de padrões externos.

“Quando não produzimos referências culturais suficientes por nós próprios, as definições de beleza, desejo e modernidade de outras pessoas podem facilmente tornar-se nossas”, afirmou.

“Pela primeira vez senti vontade de lutar pelos meus direitos”

O endurecimento das regras está a provocar um debate pouco habitual num país onde os cidadãos ruandeses têm, há muito, a reputação de aceitar de forma relativamente silenciosa um modelo de governação autoritário em troca de estabilidade e crescimento económico.

Para Grace Uwinkamiye, contudo, a polémica despertou uma reação diferente.

“Pela primeira vez, senti vontade de lutar pelos meus direitos”, afirmou a jovem.

O advogado e analista político Louis Gitinywa considera que a questão ultrapassa a discussão sobre saias ou vestidos curtos.

“A conversa não é apenas sobre minissaias. É sobre como as pessoas são governadas. As pessoas estão frustradas porque as decisões são tomadas sem que sejam incluídas”, explicou.

Jovens adaptam roupa para evitar problemas

Apesar da contestação, há também jovens dispostos a adaptar-se às novas exigências para evitar confrontos com as autoridades.

Durante um concerto do artista nigeriano Rema, realizado neste fim de semana, foi possível observar jovens com roupas visivelmente mais discretas.

A própria BK Arena havia avisado antecipadamente o público de que as “áreas íntimas devem permanecer devidamente cobertas”.

Uma das espectadoras, questionada pela AFP sobre se normalmente usaria a combinação de calças e blusa que escolheu para o espetáculo, respondeu:

“Está a brincar comigo?

É a primeira vez que me visto assim para um espetáculo. Eu não queria perder o concerto do Rema por nada deste mundo, mas não podia arriscar ser tratada com as humilhações habituais.”

Estrangeiros consideram situação difícil de interpretar

Para estrangeiros que vivem ou estudam no Ruanda, as novas regras também têm provocado perplexidade.

Um estudante estrangeiro presente no concerto resumiu a sua perceção sobre o país dizendo:

“O Ruanda é difícil de interpretar!”

Segundo o estudante, existe uma aparente contradição no modo como o Estado lida com questões sociais e culturais.

“Não é um Estado religioso — fecha igrejas. Mas quando pensamos que é um Estado secular, prende mulheres por usarem minissaias e fecha bares e clubes mais cedo”, afirmou.

Kagame e a questão religiosa

O Presidente Paul Kagame, que governa o Ruanda há muitos anos, tem manifestado forte desconfiança em relação às igrejas.

Kagame acusou algumas instituições religiosas de retirarem dinheiro às pessoas sem contribuírem para o desenvolvimento do país. Como resultado de medidas tomadas pelas autoridades, milhares de igrejas foram encerradas.

Apesar dessa posição em relação à religião, o antigo comandante militar também exige dos cidadãos um determinado nível de decoro e comportamento público.

Para o estudante estrangeiro, existe uma sensação de que as autoridades parecem incomodadas quando a população desfruta de momentos de diversão.

“É como se as autoridades ficassem irritadas quando as pessoas têm algum espaço para se divertir e ser felizes”, afirmou.

A polémica sobre a roupa feminina e as novas regras para a vida noturna colocam, assim, em evidência uma tensão crescente entre a imagem de estabilidade e modernidade que o Ruanda procura projetar e as medidas de controlo social que têm sido implementadas internamente.

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