Cérebro de músico continua a gerar música três anos após a sua morte
Três anos depois da morte do renomado compositor norte-americano Alvin Lucier, o músico voltou a ser notícia por uma experiência que prolonga a sua investigação artística sobre o som de uma forma inesperada.
Lucier morreu em 2021, aos 90 anos, e ficou conhecido pelas suas experiências com o som e a percepção humana. O compositor não se limitava à criação de melodias tradicionais, explorando fenómenos físicos como ondas sonoras e ressonâncias produzidas pelos espaços.
Uma das suas obras mais conhecidas, “I Am Sitting in a Room”, utiliza gravações da sua própria voz que são reproduzidas e novamente gravadas sucessivamente. Com cada repetição, a voz vai dando lugar a ecos e ressonâncias cada vez mais puras, até que permanece essencialmente a vibração característica do espaço.
Agora, o projecto “Revivificação” leva esse espírito experimental para uma nova dimensão, combinando arte, biologia e tecnologia.
A instalação foi desenvolvida a partir de um conceito particularmente ousado. Células de glóbulos brancos de Lucier foram recolhidas e reprogramadas para se transformarem em células-tronco. A partir dessas células, investigadores produziram pequenos organoides cerebrais, estruturas microscópicas que imitam parcialmente determinadas características do funcionamento de um cérebro humano.
Minicérebros transformam impulsos em sons
Os chamados “minicérebros” foram ligados a uma rede de eléctrodos capaz de captar os seus impulsos eléctricos.
Cada sinal produzido pelos organoides é posteriormente convertido em vibrações que fazem ressoar placas de latão. O resultado é uma forma de música biológica, sem partitura e sem controlo humano directo, produzida através da actividade eléctrica dessas estruturas.
Os sons são imprevisíveis e estão em constante transformação, criando uma obra que não segue uma composição musical convencional.
O artista Guy Ben-Ary, um dos responsáveis pelo projecto, explicou que “Revivificação” procura ampliar a própria ideia de criatividade e questionar o que significa produzir arte num cenário em que a vida pode ser recriada em laboratório.
A intenção, segundo a proposta do projecto, não é ressuscitar Lucier, mas dar continuidade à sua investigação sobre a natureza do som através de um meio completamente diferente.
Ciência e arte no mesmo espaço
A instalação combina elementos científicos e artísticos, permitindo ao público ouvir as vibrações produzidas pelo tecido biológico e acompanhar o funcionamento do sistema em tempo real.
Uma das questões levantadas pela obra é se os organoides poderiam possuir algum tipo de percepção. Contudo, os cientistas envolvidos no projecto afirmam que essas estruturas não possuem consciência nem memória, funcionando apenas como modelos de actividade neural.
Apesar disso, a instalação provoca fascínio e também algum desconforto, sobretudo pela ideia de utilizar fragmentos de células humanas para produzir sons de forma autónoma.
O projecto levanta, por isso, questões éticas e filosóficas sobre a relação entre vida, morte, criatividade e tecnologia.
Outro aspecto destacado é que a obra não depende de inteligência artificial nem de uma simples simulação digital. Trata-se de matéria viva cuja actividade eléctrica é transformada em elementos sonoros.
A instalação “Revivificação” está em exibição na Galeria de Arte da Austrália Ocidental, dando continuidade, através da biologia, à exploração que Lucier dedicou durante décadas ao som e à percepção.
Com esta experiência, a investigação artística do compositor ultrapassa a sua própria morte e continua a produzir sons através de um sistema biológico criado a partir das suas células.
