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Moçambique aposta em satélites e nova estratégia para levar Internet a mais pessoas

Moçambique está a reforçar a aposta na conectividade e inclusão digital, através da proposta da Estratégia Nacional “Internet para Todos” e da análise de novas tecnologias de comunicação por satélite.

As iniciativas foram discutidas esta semana, em Maputo, num momento em que o país procura ampliar a cobertura da Internet, reduzir as desigualdades de acesso e facilitar a utilização dos serviços digitais, sobretudo nas zonas rurais e comunidades com menor cobertura.

“Internet para Todos” pretende ampliar o acesso

A proposta da Estratégia Nacional “Internet para Todos”, apresentada pelo Instituto Nacional das Comunicações de Moçambique (INCM), pretende coordenar os esforços de expansão da conectividade e inclusão digital.

A presidente do Conselho de Administração do INCM, Helena Fernandes, defendeu uma abordagem que não considere apenas a existência de cobertura, mas também factores como a qualidade das ligações, preço dos serviços, acesso a equipamentos, segurança digital e competências dos utilizadores.

Entre os principais obstáculos identificados estão as diferenças entre zonas urbanas e rurais, a cobertura limitada e a falta de competências digitais.

A estratégia está a ser desenvolvida com a participação do Governo, regulador, operadores de telecomunicações, sector privado, academia, sociedade civil e parceiros de desenvolvimento.

Sónia Jorge, directora-executiva da Global Digital Inclusion Partnership, organização que colabora com o Governo na elaboração da estratégia, explicou que o documento deverá servir como um roteiro para alinhar projectos existentes, identificar lacunas e definir novas intervenções.

A expectativa é que uma maior conectividade contribua para áreas como educação, saúde, agricultura, negócios e acesso aos serviços públicos.

Satélites podem ajudar zonas sem cobertura

No dia 6 de Outubro, o INCM realizou em Maputo um workshop sobre “Tecnologias Emergentes de Satélite para a Transformação Digital”, reunindo reguladores da África Austral e especialistas internacionais.

A iniciativa contou com o apoio da Commonwealth Telecommunications Organisation e da Viasat e antecedeu a primeira Reunião Ordinária do Comité de Comunicações Electrónicas da CRASA, realizada entre 7 e 9 de Outubro.

Entre os temas discutidos estiveram as constelações de satélites, a integração de diferentes redes de comunicação, aplicações de serviços móveis por satélite e tecnologias de comunicação Direct-to-Device (D2D).

Esta tecnologia permite, em determinadas condições, estabelecer comunicação directa entre dispositivos compatíveis e satélites, podendo ser útil em locais onde não existe cobertura convencional.

As aplicações podem incluir mensagens, localização e alertas de emergência, além de outros serviços à medida que a tecnologia evolui.

África continua com grandes desigualdades digitais

Dados da União Internacional das Telecomunicações (UIT) mostram a dimensão do desafio.

Em 2025, cerca de 35,7% da população africana utilizava a Internet, contra aproximadamente três quartos da população mundial.

A diferença entre zonas urbanas e rurais é particularmente significativa: a utilização da Internet era estimada em 54,7% nas áreas urbanas e 20,9% nas zonas rurais.

Também existe uma diferença entre homens e mulheres, com taxas de utilização de aproximadamente 40,3% e 31,2%, respectivamente.

A UIT estima ainda que cerca de 2,2 mil milhões de pessoas em todo o mundo continuavam sem acesso efectivo à Internet em 2025.

Cobertura em Moçambique não significa utilização efectiva

Dados da UIT relativos a 2024 indicam que cerca de 88% da população moçambicana estava abrangida por redes móveis 2G, 86% por 3G e 84% por tecnologias 4G/LTE.

A cobertura de redes 5G abrangia aproximadamente 10% da população.

Apesar disso, havia cerca de 30 subscrições activas de banda larga móvel por cada 100 habitantes.

Os dados mostram que ter cobertura de rede não significa necessariamente que a população utilize regularmente os serviços. Factores como o preço, disponibilidade de equipamentos, competências digitais e qualidade da ligação continuam a influenciar o acesso.

Banco Mundial quer levar banda larga a 300 localidades

O Banco Mundial apoia a expansão da conectividade através do Projecto de Aceleração Digital de Moçambique.

Segundo uma avaliação publicada em 2026, o projecto pretende estabelecer conectividade em 300 localidades que anteriormente não tinham cobertura e proporcionar acesso novo ou melhorado à banda larga a cerca de 5,2 milhões de pessoas.

O programa prevê ainda disponibilizar tecnologias digitais a 1.000 instituições de ensino, com o objectivo de melhorar as condições de aprendizagem e o acesso a recursos educativos.

Internet pode impulsionar empresas e economia

A expansão da conectividade poderá beneficiar especialmente as pequenas e médias empresas, permitindo maior acesso a clientes, fornecedores, plataformas de pagamento, informação de mercado e ferramentas de gestão.

Na agricultura, a Internet pode facilitar o acesso a preços, previsões meteorológicas, serviços de extensão rural e mercados.

No comércio e nos serviços, pode facilitar pagamentos, divulgação de produtos e contacto entre consumidores e empresas.

No entanto, para que estes benefícios se concretizem, será necessário investir também em electricidade, transportes, competências digitais e sistemas de pagamento.

Satélites podem complementar redes terrestres

As tecnologias de satélite poderão complementar as redes de fibra óptica e telecomunicações móveis, sobretudo em regiões onde a construção de infra-estruturas terrestres é mais cara.

Os satélites de órbita terrestre baixa (LEO) podem oferecer ligações com menor latência do que os sistemas geoestacionários tradicionais, criando possibilidades para ligar escolas, centros de saúde, postos administrativos, empresas e comunidades isoladas.

Em Moçambique, estas soluções podem ser particularmente importantes para zonas com comunidades dispersas, dificuldades de acesso e exposição a fenómenos climáticos extremos.

Os sistemas satelitais também podem ajudar a manter as comunicações durante ciclones, cheias e outras emergências, quando as infra-estruturas terrestres são danificadas.

Contudo, os custos dos equipamentos, serviços, energia e manutenção continuam a ser factores importantes para a sua implementação.

Regulação será decisiva

A expansão das tecnologias satelitais também coloca novos desafios regulatórios relacionados com espectro radioeléctrico, licenciamento, concorrência, interoperabilidade e segurança das comunicações.

A harmonização das regras entre os países da África Austral poderá facilitar investimentos e a introdução de novos serviços.

O INCM considera igualmente importante reforçar a capacidade técnica dos reguladores para acompanhar a rápida evolução tecnológica.

Segundo o porta-voz da instituição, Edmundo Alberto, o encontro permite aprofundar o conhecimento sobre as novas aplicações e fortalecer a cooperação regional.

Estratégia exigirá investimento e coordenação

A Estratégia “Internet para Todos” e a aposta em tecnologias satelitais fazem parte de uma mesma agenda de transformação digital.

A concretização dos objectivos dependerá da definição de metas claras de cobertura, financiamento, qualidade dos serviços, preços acessíveis, acesso a equipamentos e formação digital.

O Fundo de Acesso e Serviço Universal poderá também desempenhar um papel no financiamento de soluções destinadas às regiões com menor interesse comercial.

A participação dos operadores tradicionais e de novos fornecedores de serviços por satélite poderá contribuir para diversificar as opções tecnológicas e levar conectividade a mais comunidades.

Fonte: O Económico

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