Moçambique apresenta a menor capacidade estrutural para enfrentar os efeitos de um episódio intenso do fenómeno climático El Niño entre sete países da África Subsaariana, devido à baixa produtividade cerealífera e à forte dependência da energia hidroeléctrica. A conclusão consta de um relatório da FurtherMarkets, publicado em Outubro de 2026, que alerta para possíveis impactos na produção agrícola, no abastecimento alimentar, na geração de electricidade e nos corredores logísticos durante a campanha de 2026-2027.
O estudo, intitulado As Linhas de Falha do El Niño em África, avalia a exposição de sete economias africanas aos riscos associados a um eventual agravamento do fenómeno, considerando indicadores relacionados com a agricultura, a energia e a logística. Além de Moçambique, a Nigéria é identificada como um dos mercados com maior exposição aos possíveis efeitos adversos.
Segundo o relatório, as projecções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), citadas pelos autores, indicavam uma probabilidade superior a 90% de ocorrência de condições de El Niño muito forte até ao primeiro trimestre de 2027. O documento refere ainda uma probabilidade de 83% de o fenómeno atingir uma intensidade histórica, caracterizada por anomalias de temperatura superiores a 2,5 graus Celsius, entre Outubro e Dezembro de 2026.
Baixa produtividade agrícola aumenta vulnerabilidade de Moçambique
Os dados apresentados pela FurtherMarkets mostram que Moçambique registou, em 2024, uma produtividade cerealífera de apenas 776 quilogramas por hectare, o valor mais baixo entre os sete países analisados.
A agricultura representou 25,6% do Produto Interno Bruto (PIB) moçambicano em 2025, enquanto a energia hidroeléctrica correspondeu a 83% da electricidade produzida no País em 2024.
De acordo com o estudo, a combinação entre a baixa produtividade agrícola e a elevada dependência da geração hidroeléctrica aumenta a exposição da economia nacional aos períodos de precipitação insuficiente. Uma redução das chuvas poderá comprometer simultaneamente a produção de alimentos e o fornecimento de electricidade.
O relatório recorda os efeitos do episódio de El Niño de 2015-2016, durante o qual a produção de milho em Moçambique caiu aproximadamente 35% em termos homólogos em 2016.
Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), citados no documento, indicam que a seca afectou cerca de 864 mil hectares de terras agrícolas e 459 mil agricultores. No mesmo período, as cheias atingiram aproximadamente 194.100 pessoas.
Estes antecedentes reforçam as preocupações sobre a capacidade do País de enfrentar um novo episódio climático intenso, sobretudo se as condições meteorológicas adversas coincidirem com dificuldades no abastecimento alimentar e energético.
África do Sul e Gana lideram em produtividade cerealífera
Na comparação entre os sete países analisados, a África do Sul apresentou a maior produtividade cerealífera em 2024, com 4.562 quilogramas por hectare. O Gana ocupou a segunda posição, com 2.632 quilogramas, seguido da Zâmbia, com 2.318 quilogramas por hectare.
A Tanzânia registou 1.872 quilogramas por hectare, enquanto o Quénia alcançou 1.693 quilogramas e a Nigéria 1.558 quilogramas. Moçambique ficou na última posição, com 776 quilogramas por hectare.
Segundo a análise da FurtherMarkets, a África do Sul e o Gana apresentam menor vulnerabilidade estrutural no domínio da produção alimentar, embora o Gana continue a enfrentar fragilidades ao nível da logística.
A Zâmbia e a Tanzânia, por sua vez, estão particularmente expostas aos riscos associados às condições meteorológicas e à produção de energia hidroeléctrica.
Zâmbia enfrenta riscos no fornecimento de electricidade
Na Zâmbia, a energia hidroeléctrica representou 78,5% da electricidade gerada em 2024, o que torna o país particularmente sensível a períodos de escassez de água.
O relatório refere que, em Maio de 2024, os cortes de electricidade chegaram a atingir 12 horas por dia. Em 11 de Dezembro do mesmo ano, a reserva utilizável do lago Kariba desceu para apenas 2,89%.
Estes indicadores ilustram os riscos que a redução dos níveis de água pode representar para o funcionamento do sistema eléctrico, com possíveis consequências para as empresas, as actividades económicas e os serviços essenciais.
A vulnerabilidade da Zâmbia demonstra que os efeitos de um episódio intenso de El Niño podem ultrapassar o sector agrícola, afectando também a produção energética e o funcionamento das cadeias de abastecimento.
Tanzânia sob ameaça de cheias e deslizamentos de terras
Na Tanzânia, as perspectivas de precipitação acima do normal em algumas regiões até Março de 2027 levantam preocupações sobre a possibilidade de cheias, inundações súbitas e deslizamentos de terras.
Segundo o relatório, estes fenómenos poderão afectar as infra-estruturas de transporte e os corredores comerciais, dificultando a circulação de mercadorias e o comércio regional.
A situação evidencia que os riscos climáticos não se limitam à seca: dependendo da região e das condições meteorológicas, o excesso de precipitação também pode provocar perturbações económicas e logísticas significativas.
Factores que poderão atenuar os impactos económicos
Apesar dos riscos identificados, a FurtherMarkets assinala a existência de alguns factores que poderão reduzir a dimensão das perturbações previstas para a campanha de 2026-2027.
Em Moçambique, a inflação alimentar homóloga desacelerou de 13,4% em Junho para 8,9% em Agosto de 2026, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Na Zâmbia, os preços de venda a retalho do milho em grão e da farinha de milho diminuíram 25% em termos homólogos em Março, reflectindo a abundância da oferta interna, segundo informações da FAO.
O relatório acrescenta que uma colheita sul-africana acima da média, a produção recorde de milho na Zâmbia e as reservas alimentares acumuladas em 2026 poderão ajudar a compensar eventuais perdas agrícolas em diferentes mercados da região.
Estes factores poderão funcionar como mecanismos de protecção, reduzindo parcialmente a pressão sobre a disponibilidade de alimentos e os preços. Contudo, a sua eficácia dependerá da dimensão dos impactos climáticos e da capacidade de cada país de distribuir os produtos pelos mercados afectados.
Efeitos do El Niño continuam incertos
A FurtherMarkets ressalva que os efeitos económicos do El Niño permanecem incertos e poderão variar significativamente entre os países analisados.
Uma das possibilidades consideradas é que o fenómeno enfraqueça antes de provocar impactos relevantes nas culturas agrícolas de fim de época ou na produção hidroeléctrica.
Além disso, as consequências das cheias e da escassez de água poderão ocorrer apenas em determinadas localidades, sem afectar simultaneamente os principais mercados africanos.
O estudo cita igualmente a Absa Research, que alerta para a dificuldade de estabelecer uma relação directa entre a intensidade do El Niño no oceano Pacífico e a dimensão dos danos económicos em África.
Segundo a análise referida, episódios anteriores do fenómeno produziram efeitos diferentes sobre o crescimento económico e a inflação nos vários países, demonstrando que a exposição depende também das características estruturais de cada economia.
Estudo apresenta três cenários para a campanha de 2026-2027
Para avaliar a possível evolução dos riscos climáticos e económicos, a FurtherMarkets apresenta três cenários para a campanha agrícola de 2026-2027, atribuindo uma probabilidade estimada a cada um.
O primeiro cenário, com uma probabilidade de 35%, prevê perturbações localizadas no Sul de África, com impactos concentrados em determinadas regiões e sectores económicos.
O segundo, considerado o mais provável pelos autores e estimado em 45%, contempla perturbações simultâneas em vários corredores comerciais, envolvendo Moçambique, Zâmbia, Quénia e Tanzânia. Neste cenário, os efeitos climáticos poderão comprometer diferentes rotas de abastecimento e intensificar os desafios logísticos regionais.
O terceiro cenário, com uma probabilidade de 20%, prevê uma pressão mais abrangente sobre vários mercados africanos, incluindo riscos para o abastecimento alimentar e energético na África Ocidental.
O relatório esclarece que estas percentagens correspondem a estimativas da FurtherMarkets e não a previsões oficiais das autoridades meteorológicas.
Recomendações para empresas e instituições financeiras
Perante os riscos identificados, a FurtherMarkets recomenda que empresas e instituições financeiras reforcem a avaliação preventiva da sua exposição a possíveis interrupções no abastecimento, nos transportes, na produção agrícola e no fornecimento de electricidade.
A análise sugere que a preparação antecipada poderá ajudar as organizações a identificar vulnerabilidades nas cadeias de fornecimento e a reduzir os efeitos de eventuais perturbações climáticas.
Para Moçambique, os dados apresentados colocam em evidência a necessidade de considerar a vulnerabilidade da produção cerealífera e a dependência da energia hidroeléctrica na avaliação dos riscos económicos associados ao El Niño.
Embora a dimensão dos impactos ainda seja incerta, o relatório alerta que um episódio intenso do fenómeno poderá criar dificuldades simultâneas para a agricultura, a segurança alimentar, a energia e a logística, sectores essenciais para a estabilidade económica do País.
