Novo bastonário inicia mandato 2026-2030 com o compromisso de reforçar a regulação da profissão, recuperar a confiança institucional e aproximar a arquitectura das necessidades do país. A expansão da formação, a protecção dos jovens profissionais e a intervenção nos distritos figuram entre as prioridades.
A valorização da profissão, o reforço da regulação do mercado e a participação dos arquitectos no planeamento territorial estão entre as prioridades de Anselmo Cani, que assumiu a liderança da Ordem dos Arquitectos de Moçambique (OAM) para o mandato 2026-2030.
O novo bastonário considera que a arquitectura deve desempenhar um papel mais activo no desenvolvimento do país, não apenas através da concepção de edifícios, mas também na organização do território, na melhoria das condições de vida das comunidades e na promoção de espaços seguros, funcionais e adequados às necessidades da população.
Na cerimónia de tomada de posse, Cani assumiu o compromisso de trabalhar pela defesa, dignificação e valorização da classe, num contexto marcado por desafios relacionados com o exercício da profissão, a integração dos jovens no mercado de trabalho e a presença limitada de arquitectos em vários pontos do território nacional.
Em entrevista concedida à margem da cerimónia, o responsável identificou as assimetrias do mercado e a desvalorização da arquitectura como questões que exigem uma intervenção da Ordem, sobretudo para garantir maior protecção e orientação aos profissionais recém-formados.
“Sentimos que há muitas questões que precisam de ser resolvidas”, afirmou, defendendo uma organização profissional capaz de apoiar os seus membros e contribuir para melhores condições de exercício da actividade.
Regulação e valorização num mercado em transformação
Um dos desafios destacados por Anselmo Cani é o exercício da arquitectura por pessoas sem a devida qualificação profissional. Segundo o bastonário, a realização de projectos sem competências adequadas pode representar riscos para os utentes, tornando necessário reforçar a sensibilização pública sobre as responsabilidades e o papel do arquitecto.
A questão coloca a regulação profissional no centro da discussão sobre a qualidade dos projectos e a confiança nos serviços prestados. Para a Ordem, o desafio passa por promover o reconhecimento das competências técnicas, defender o exercício qualificado da actividade e contribuir para a protecção dos cidadãos.
Cani reconhece, contudo, que as limitações económicas e de recursos existentes no país devem ser consideradas na definição das soluções. Ainda assim, defende que determinadas obras públicas, como escolas, devem contar com a intervenção de arquitectos devidamente qualificados.
A valorização da profissão assume igualmente importância para os jovens que procuram entrar no mercado de trabalho. O bastonário considera que a Ordem deve proporcionar maior orientação aos recém-formados, num contexto em que o aumento da oferta de formação torna necessário reforçar as condições de integração profissional.
Arquitectura mais próxima dos distritos
A expansão da presença dos arquitectos para além dos principais centros urbanos constitui outra das prioridades do novo mandato. Cani defende uma maior intervenção destes profissionais ao nível dos distritos, com o apoio do Estado moçambicano.
Na sua perspectiva, muitos dos desafios relacionados com o ordenamento e o planeamento territorial manifestam-se ao nível local, exigindo conhecimentos técnicos e soluções ajustadas às características de cada comunidade.
O responsável considera, por isso, desejável que o Estado apoie a colocação de mais arquitectos nos distritos, de modo a reforçar a participação destes profissionais nos processos de organização do território.
A proposta abre espaço para uma maior articulação entre a Ordem, a administração pública e os actores envolvidos no desenvolvimento urbano e territorial. A sua concretização, porém, dependerá da capacidade de mobilizar recursos, estabelecer mecanismos de colaboração e criar condições para uma presença profissional mais abrangente.
Autoconstrução e responsabilidade social
No seu discurso de tomada de posse, Anselmo Cani destacou a dimensão social da arquitectura, defendendo que o espaço construído deve ser entendido para além da sua componente física.
Na perspectiva apresentada pelo bastonário, as cidades e os edifícios são espaços onde se manifestam a identidade, a memória, a dignidade e as aspirações das comunidades. Esta abordagem reforça a necessidade de aproximar o conhecimento técnico das condições concretas em que a população constrói e ocupa o território.
Cani chamou a atenção para a realidade da autoconstrução, que assume relevância em diferentes contextos urbanos do país, defendendo que os arquitectos devem contribuir para responder às necessidades das populações e promover melhores condições de segurança e convivência.
O responsável recorreu também ao pensamento do filósofo camaronês Achille Mbembe para sublinhar a complexidade das cidades africanas, encaradas não apenas como espaços de desigualdade e dificuldades, mas igualmente como territórios de criação e transformação social.
Esta visão coloca a arquitectura perante um desafio que combina competência técnica, responsabilidade social e capacidade de contribuir para soluções sustentáveis de desenvolvimento territorial.
Nova direcção inicia mandato com 90,96% dos votos registados
A eleição da nova liderança decorreu com uma lista única e registou a participação de 166 membros elegíveis, dos quais 125 votaram por via electrónica e 41 presencialmente.
De acordo com os dados apresentados no contexto da tomada de posse, a lista obteve 151 votos favoráveis, correspondentes a 90,96% do total de votos registados. A nova direcção reconheceu que o processo decorreu num contexto de desmobilização associado às incertezas prolongadas, mas interpretou a participação eleitoral como uma expressão do envolvimento dos membros na vida democrática da Ordem.
No discurso, Cani afirmou que a confiança recebida deve ser acompanhada por um sentido acrescido de responsabilidade e por uma actuação orientada para toda a classe, independentemente das posições assumidas durante o processo eleitoral.
“É tempo de recuperar a confiança, consolidar a estabilidade institucional e concentrar os nossos esforços na missão que nos une”, declarou, apontando a defesa e a dignificação da arquitectura como objectivos centrais do mandato.
Além do bastonário, tomaram igualmente posse os membros da Assembleia Geral, do Conselho Directivo, do Conselho de Ética e Deontologia Profissional e do Conselho Fiscal.
Mais formação, novas oportunidades para o sector
Apesar dos desafios, Anselmo Cani manifesta optimismo quanto ao futuro da arquitectura em Moçambique, destacando o aumento do número de instituições de ensino que formam profissionais nesta área.
Segundo o bastonário, o país passou de uma realidade em que existia apenas uma escola de arquitectura para um cenário com mais instituições de formação e um número crescente de jovens a ingressar na profissão.
A expansão da formação poderá contribuir para aumentar a disponibilidade de competências técnicas no mercado e reforçar a participação dos arquitectos nos processos de desenvolvimento nacional. Contudo, esse potencial depende também da capacidade de criar oportunidades de trabalho, promover o reconhecimento profissional e assegurar uma integração adequada dos recém-formados.
No contexto das celebrações dos 51 anos da Independência Nacional, Cani considera que o país deve continuar a apostar na planificação das actividades realizadas no território, reconhecendo os arquitectos como intervenientes fundamentais nesse processo.
Ao assumir o mandato 2026-2030, o bastonário apresenta uma agenda que articula regulação profissional, formação, planeamento territorial e responsabilidade social. A concretização destas prioridades será determinante para avaliar a capacidade da Ordem de reforçar o seu papel institucional e contribuir para o desenvolvimento da arquitectura em Moçambique.
Sob o lema “Visão para qualificar. Rigor para transformar!”, a nova liderança assume o compromisso de trabalhar pela unidade, defesa e valorização da classe, num sector cuja intervenção ultrapassa a construção de edifícios e se estende à organização do território e à qualidade de vida das comunidades.
