Enquanto o Governo central se ocupa em criar discursos sobre “terrorismo urbano” nas avenidas de Maputo, a província de Cabo Delgado segue sendo palco de ataques violentos e contínuos, protagonizados por insurgentes que aterrorizam a população desde 2017. A brutalidade dos ataques — com decapitações, casas incendiadas e populações inteiras deslocadas — acontece diante de um aparato estatal militarizado, mas praticamente ausente.
De acordo com a base de dados ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project), já se contabilizam mais de 4 mil mortos, milhares de pessoas deslocadas e uma destruição significativa de infraestrutura pública e privada. O mais preocupante é que, em muitos casos, os meios de comunicação e cidadãos alertaram previamente sobre a movimentação dos insurgentes, mas a resposta governamental tem sido marcada pelo silêncio, alimentando suspeitas de cumplicidade ou omissão deliberada.
Na última sexta-feira, dia 25, um novo ataque atingiu o posto administrativo de Chiúre Velho, no sul de Cabo Delgado. O grupo armado invadiu edifícios públicos em plena luz do dia, como mostram vídeos partilhados nas redes sociais. Alguns dos atacantes vestiam uniformes que aparentavam ter sido roubados das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM). O cenário foi de total impunidade: não houve resistência visível das forças de segurança.
Durante a ação, os insurgentes sequestraram um homem, entregaram-lhe uma mochila e, antes de abandonar o local, hastearam uma bandeira preta com inscrições em árabe. Em seguida, proferiram um discurso em Emakhuwa — um dos idiomas locais — declarando:
“A bandeira traz a frase em árabe: ‘Não há deus senão Deus’.
E em Emakhuwa, disseram: ‘Lutamos por Deus e, se for da vontade Dele, continuaremos até que a Sua palavra prevaleça. Por isso, convidamos todos a se juntar à jihad e abandonar as terras da descrença rumo às terras do Islão. Allahu Akbar.’”
A cena, assustadora por si só, ganha contornos ainda mais alarmantes quando se constata a ausência de qualquer força de resposta. Tudo parece indicar que os insurgentes têm liberdade para agir, planejar e atacar, sem grande obstáculo institucional.
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe é: quem são, de fato, os verdadeiros terroristas? Serão apenas os homens armados que atacam aldeias, ou também o Estado que assiste de longe, sem agir com a urgência e responsabilidade que a situação exige?
Para muitos moçambicanos, o verdadeiro terror está na falha sistemática do Estado em proteger seus cidadãos. E enquanto essa realidade persistir, Cabo Delgado continuará à mercê da violência, da insegurança e de um silêncio que grita por justiça.
