MAPUTO — Enquanto milhões de fiéis ao redor do mundo fazem uma pausa em suas rotinas para observar o silêncio e a reflexão, a Sexta-Feira Santa desponta como um dos dias mais solenes do calendário cristão. Marcada por jejuns, encenações da Via Sacra e rituais de profunda reverência, a data convida a uma viagem no tempo até o século I, em Jerusalém, para compreender as raízes de uma tradição que moldou a civilização ocidental.
Mas, afinal, de onde surge a Sexta-Feira Santa e como ela foi instituída ao longo dos séculos?
As Raízes Históricas e o Evento Central
A origem da Sexta-Feira Santa está intrinsecamente ligada à narrativa bíblica da Paixão de Cristo. Historicamente, a data rememora os eventos que culminaram na crucificação e morte de Jesus de Nazaré no monte Calvário (Gólgota), por volta do ano 30 ou 33 d.C.
Segundo os relatos dos Evangelhos, após a Última Ceia (celebrada na Quinta-Feira Santa) e sua subsequente traição por Judas Iscariotes, Jesus foi preso, julgado por autoridades religiosas judaicas e, finalmente, condenado à morte na cruz pelo governador romano Pôncio Pilatos.
Para a teologia cristã, este não é um dia de derrota, mas o momento ápice do sacrifício que garantiu a redenção e a salvação da humanidade, abrindo caminho para a ressurreição, celebrada no Domingo de Páscoa.
A Institucionalização da Data
A observância da morte de Cristo começou de forma orgânica entre os primeiros cristãos, que se reuniam em vigílias e jejuns nos dias que antecediam a celebração da Páscoa judaica (Pessach). No entanto, a formatação da Semana Santa como a conhecemos hoje levou alguns séculos.
- Séculos II e III: Os primeiros registros de um período de jejum e luto antes do Domingo de Páscoa começam a se consolidar nas comunidades cristãs do Oriente.
- Concílio de Niceia (325 d.C.): O Imperador Constantino ajudou a unificar as datas das celebrações cristãs. O Concílio estabeleceu a regra de que a Páscoa seria celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia do equinócio de primavera (no hemisfério norte). A Sexta-Feira Santa, consequentemente, foi fixada na sexta-feira imediatamente anterior a esse domingo.
- Peregrinações a Jerusalém: No final do século IV, com a construção da Igreja do Santo Sepulcro, fiéis começaram a reconstituir os passos de Jesus carregando a cruz (a Via Crucis), prática que se espalhou pelo mundo e originou as procissões modernas.
Por que “Santa”?
O termo varia ao redor do mundo, mas o seu significado converge para a solenidade do sacrifício. Em português e nas línguas latinas, adotou-se o termo “Sexta-Feira Santa” para enfatizar a santidade e o peso espiritual do derramamento do sangue de Cristo.
Curiosamente, em inglês, a data é chamada de “Good Friday” (Sexta-Feira Boa). Linguistas e teólogos apontam que o termo “Good”, neste contexto antigo, era um sinônimo de “sagrado” ou “santo” (como na palavra Gospel, que deriva de Godspell ou “boa nova”). Outra interpretação teológica é que a sexta-feira é “boa” porque o sacrifício de Jesus trouxe resultados positivos (a salvação) para a humanidade.
Tradições e Observância Moderna
Hoje, a Sexta-Feira Santa é o único dia do ano litúrgico católico em que não se celebra a missa tradicional com consagração da Eucaristia. O altar permanece nu, os sinos silenciam e a liturgia foca-se na adoração da cruz.
Entre as práticas mais comuns que sobreviveram aos séculos, destacam-se:
- A Abstenção de Carne: Como forma de penitência e respeito ao sacrifício da carne de Cristo, muitos fiéis optam por não consumir carne vermelha, substituindo-a frequentemente por peixe.
- O Jejum: Recomendado pela Igreja como um ato de purificação e solidariedade espiritual.
- Procissões: Em diversos países, incluindo Moçambique, Portugal e Brasil, as ruas são tomadas por fiéis em procissões que encenam o enterro de Cristo e as dores da Virgem Maria.
A Sexta-Feira Santa continua sendo, milênios após os eventos que a originaram, um pilar fundamental da fé cristã, transformando o luto histórico em uma mensagem de esperança e renovação que culmina no domingo de Páscoa.
