Membros da Polícia da República de Moçambique (PRM) decidiram quebrar o silêncio e expor uma crise interna de descontentamento. Agentes integrados nos 13.º, 14.º e 15.º cursos da corporação encaminharam cartas de denúncia anónimas à Assembleia da República — especificamente à Comissão da Defesa e Ordem Pública — e à Presidente do Tribunal Administrativo. O documento acusa a liderança da polícia de favoritismo, irregularidades e congelamento deliberado das progressões de carreira.
A informação, avançada originalmente pela Eco TV, detalha o sufoco profissional de agentes que já contam com mais de 32 e 33 anos de serviço efetivo dedicados ao Estado moçambicano.
O Peso da História Versus o Esquecimento Institucional
O protesto ganha contornos ainda mais sensíveis devido ao perfil dos reclamantes. Entre eles estão os integrantes do histórico 13.º Curso da PRM, um contingente selecionado no passado para a missão de garantir a segurança e proteção pessoal do primeiro Presidente de Moçambique independente, Samora Moisés Machel.
Após décadas de sacrifício e serviços prestados à pátria, estes veteranos relatam o receio e a indignação de serem empurrados para a reserva sem receber as patentes devidas e sem uma evolução justa nas suas carreiras militarizadas.
“A última progressão relevante ocorreu em 2020, quando fomos promovidos à patente de inspector principal da Polícia (equivalente a capitão). Desde então, há um silêncio total, apesar da nossa antiguidade”, aponta um dos trechos da exposição enviada às autoridades.
Acusações de Suposto Favoritismo e Violação de Estatutos
Os queixosos apontam diretamente o dedo à liderança do Ministério do Interior (MINT) e ao Comando-Geral da PRM, alegando que as duas entidades estão a violar de forma sistemática os estatutos que regem a própria corporação ao ignorarem o critério legal de promoção por tempo de serviço (antiguidade).
A revolta dos veteranos também se estende à gestão descentralizada nas províncias. Segundo as denúncias:
- Vários comandos provinciais estão a contornar as regras para nomear agentes recém-chegados e com pouca experiência para cargos de alta visibilidade, como o de porta-vozes da corporação;
- Enquanto os mais novos ganham projeção, os quadros seniores e altamente qualificados são mantidos na obscuridade, sem qualquer tipo de reconhecimento ou valorização institucional.
Medo de Represálias e Silêncio das Autoridades
Até ao momento, os autores das exposições preferem manter-se sob anonimato, justificando a medida com o forte receio de sofrerem perseguições ou sanções disciplinares dentro da instituição. O caso já começa a acender debates profundos sobre a falta de transparência na gestão de recursos humanos e o abandono dos profissionais que moldaram a segurança pública do país.
Diante do cenário, nem o Ministério do Interior nem o Comando-Geral da PRM emitiram qualquer posicionamento público para rebater ou esclarecer as graves acusações enviadas ao Parlamento e ao Tribunal Administrativo.
Fonte: Mz News
