O Irão iniciou, esta sexta-feira, as cerimónias fúnebres do antigo líder supremo Ali Khamenei, que decorrerão até à próxima quinta-feira. O caixão do ayatollah chegou ao complexo religioso da capital, Teerão, onde milhares de pessoas são esperadas para prestar a última homenagem ao antigo líder, morto num alegado ataque aéreo israelo-americano a 28 de fevereiro de 2026.
O corpo de Khamenei, envolto na bandeira iraniana, permanecerá em câmara ardente na Grande Mosalla até segunda-feira. O complexo foi decorado com grandes retratos do antigo líder, bandeiras negras em sinal de luto e bandeiras vermelhas, que simbolizam o martírio e o desejo de vingança na tradição xiita.
Durante a cerimónia, Ahmad Vahidi, chefe da Guarda Revolucionária Islâmica, fez a sua primeira aparição pública desde o início do conflito. Segundo imagens divulgadas pela agência Fars, Vahidi aproximou-se do caixão, colocou a mão sobre ele e fez uma oração em homenagem ao antigo líder.
Até ao momento, não foi confirmada a presença de Mujtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei e seu sucessor na liderança suprema desde o início de março. De acordo com informações divulgadas pelas autoridades iranianas, Mujtaba ficou ferido no ataque que matou o pai e tem comunicado apenas através de declarações atribuídas à sua liderança, sem aparecer publicamente.
Cortejo passará por várias cidades
Ali Khamenei, que liderou o Irão durante mais de três décadas e foi o líder supremo com maior tempo no cargo desde a criação da República Islâmica em 1979, morreu aos 86 anos num bombardeamento contra a sua residência.
O funeral de Estado, inicialmente previsto para março, foi adiado devido à guerra e deverá tornar-se o maior da história do país. Em 1989, o funeral do ayatollah Ruhollah Khomeini reuniu cerca de 10 milhões de pessoas, segundo dados oficiais, tendo provocado mais de dez mortes devido à enorme concentração de fiéis.
Ao lado do caixão de Khamenei encontram-se também os caixões de vários familiares mortos no mesmo ataque, incluindo uma filha, um genro, uma nora e uma neta.
Sobre o caixão repousa um turbante preto, utilizado pelos clérigos que afirmam descender do profeta Maomé, bem como um lenço dobrado que representa os ideais revolucionários e a solidariedade para com a causa palestiniana.
Na segunda-feira, um cortejo fúnebre percorrerá as ruas de Teerão. Em seguida, os restos mortais seguirão para Qom, na terça-feira, devendo depois passar por Najaf e Kerbala, importantes centros religiosos xiitas localizados no Irão e no Iraque. O sepultamento está previsto para quinta-feira, em Mashhad, junto ao santuário do Imã Reza, um dos locais mais sagrados do país.
Delegações de mais de 100 países acompanham o funeral
Segundo a televisão estatal iraniana IRIB, representantes de mais de 100 países deverão participar nas cerimónias.
Entre as personalidades esperadas encontram-se o ex-presidente russo Dmitry Medvedev, o primeiro-ministro do Paquistão, Shebaz Sharif, e He Wei, representante do parlamento chinês.
Também participam delegações do Líbano, Iraque e Iémen, países onde atuam aliados estratégicos do Irão na região. Estão igualmente presentes familiares do antigo líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, e do comandante Imad Mughniyeh, ambos mortos anteriormente em ataques atribuídos a Israel.
Segundo as autoridades iranianas, nenhum líder europeu foi convidado para o funeral.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmail Baghai, afirmou recentemente que “todos os que participam no funeral estão do lado certo da história”, criticando o apoio de países ocidentais a Israel e aos Estados Unidos.
Forte simbolismo religioso e reforço da segurança
No sistema político iraniano, Ali Khamenei acumulava as funções de chefe de Estado, líder da Revolução Islâmica e representante terreno do 12.º Imã do Islão xiita.
A sua morte é apresentada pelas autoridades como um ato de martírio, reforçando uma tradição profundamente enraizada no xiismo, marcada por procissões, manifestações de luto e referências ao sacrifício do Imã Hussein.
Desde o início das cerimónias, Teerão encontra-se sob fortes medidas de segurança. A cidade registou um reforço do policiamento, restrições à circulação de viaturas e um amplo perímetro de segurança nas zonas onde decorrem os eventos.
O aeroporto da capital foi parcialmente encerrado e deverá suspender totalmente as operações na segunda-feira, feriado nacional no Irão. Além disso, centros comerciais permaneceram fechados e diversas empresas interromperam temporariamente as suas atividades.
As cerimónias decorrem num contexto de elevada tensão regional, marcado por um frágil cessar-fogo entre Teerão e Washington e por um ambiente interno ainda influenciado pelos protestos relacionados com o elevado custo de vida e a situação política do país.
