Fonte Original: Carta de MZ | Autor: Valter Siba Siba Macuácua
Nasci no dia em que o meu Pai foi assassinado. Aparentemente todos menos Ele e Eu apercebemo-nos do evento que vira tornar início a vida de um e fim a do outro. Neste intervalo de 25 anos não constatamos sequer se o celebramos ou lamentamos, mesmo tendo ocorrido num Sábado!
Retorno ainda na ausência de qualquer resposta às perguntas debruçadas há 5 anos no meu último artigo, como se de um monólogo se tratasse.
A minha Mãe não conta histórias mórbidas sobre o meu Pai. A minha Irmã não inicia conversas difíceis sobre o meu Pai. Qualquer outro indivíduo ou entidade no poder ou capacidade de fazê-lo procura ocasiões especiais ou abordagens delicadas para eufemizar este tópico malparado, porém nunca esquecido. Em outras palavras, passados 25 anos, sou o único cidadão Moçambicano que se pronuncia sobre o que aconteceu ao António Siba-Siba Macuácua, como se me responsabilizasse pela sua morte.
–
Tão adorado que Ele era por todos, especialmente pelos mais velhos, aos 33 anos não me recordo de um único mentor cujo apoio, fora interacção e promessas durante confraternizações, desde o seu funeral a missas e encontros casuais, pudesse contar. Como órfão, almejei esperançosamente desde pequeno que os Homens que o apoiavam, bem como tios e até pais de amigos o fizessem. Nunca alguém preencheu esse vazio. Sozinho, tive sempre de prosperar, prospectar, ensaiar, simular, iniciar, aturar, tolerar, terminar e recomeçar a minha jornada. Tive sempre de queimar a ponte nos vários trechos da caminhada. Tive sempre de reajustar a minha sanidade pela sociedade que me rodeia pelo que esta por si só não entregou-me: A Verdade.
Particularmente dum ano para cá perguntaram-me porque andei tão desaparecido; perguntam-me frequentemente na mesma ocasião se estava bem. Respondi sempre que estava bem e que “a idade” havia-me retirado motivos para sorrir e estar sempre bem disposto. Se tivesse sempre de ser brutalmente honesto, diria que nunca passou. A idade não curou o que o tempo não resolveu. Não reside mais em mim a energia que tornava o silêncio constrangedor em empatia; conversas profundas em superficiais ou fiadas. Sou hoje o Produto da Dor. A Cara da Verdade. Estou “cada vez mais parecido com Ele”, conforme têm dito.
Tal como ele, que foi assassinado aos 33 anos, na ausência de dúvida alguma aos 33 anos constato que fui também o sacrifício do sonho que Ele tinha para mim. Aos 33 anos era um pilar na mesma sociedade onde ainda batalho sozinho para ser alguém que o mundo julga conhecer. Culmino preso em tudo que a minha Mãe deixou de ter ou perdeu consequente do trauma, receio, medo e da progressiva gestão danosa do meu património e futuro, partilhado com mais nomes do que possa mencionar ou desvendar. Sobrevivo dentre as pequenas expectativas da minha Irmã, que vergonhosamente nunca consegui devidamente servir e acompanhar como Irmão mais velho. Conduzo a paternidade e uma família que não sabe o que esperar de mim, se não o mesmo que esperei dele. Escuso-me de mencionar que já fui também o bode expiatório de alguns corporativos com os quais tive a mera oportunidade de trabalhar pela sua consideração parcial, assim como dos meus amigos de infância, entre vários grupos de amigos próximos e conhecidos.
Em outras palavras, na ausência de Pai vivo ou mentor, já fui liderado e apoiado por pessoas que tinham as melhores intenções e expectativas de mim, porém cujo senso de empatia nunca pôde estar perto de retribuir o meu legado, respeitosamente. Não escrevo estas palavras sem o conhecimento de causa, como se fosse a vítima central no meio destas relações. Escrevo pelo desgaste consequente do silêncio embaraçoso e conversas difíceis que por sua vez continuaram a espera que fosse iniciar. Silêncio abismal que por vezes equiparo ao silêncio com o qual lido perante a morte do meu Pai. Constato que com bastante esforço construí fortes laços de suporte, porém incapazes de lidar com e curar a solidão que me alberga desde os 8 anos de idade.
Por razões óbvias, durante 25 anos a história da minha vida foi exorbitantemente maior do que a minha própria jornada. Por consequência do evento mais crítico e marcante da mesma, o assassinato ao meu Pai, várias vezes fui até julgado como intransigente, errático, desfocado e demasiado defensivo por terceiros, como se por instantes me tivesse esquecido de quem sou.
Não obstante, foi dentre vezes como esta que reconheceram a coragem e tenacidade que aqui apresento. Conforme julgado ou aparente, aproveito esta ocasião para confirmar que não sou um epítome de herói ou filho de herói corajoso, elegância ou “coração grande” para cordialmente digerir perante a sociedade o crime odioso cometido ao meu Pai. Precisamente perante as famílias bem constituídas e com Pai vivo, algumas das quais, salvo mencionar se beneficiaram directa e indirectamente desse mesmo crime odioso.
Certamente que todo o investimento atribuído à minha educação, emancipação e ascensão após ao seu assassinato, bem como daqueles que foram os seus sucessores onde trabalhou, não foi para tornar-me num autor crítico ou responsável jurídico para fazer razão do assassinato ao meu Pai. Daí auto questionar: Porque ainda encontro-me a escrever monólogos sem resposta acerca do assassinato do meu Pai? Por quanto mais tempo devo permanecer figurante num sistema do qual sou o elemento fulcral? Quantas mais entrevistas, debates, conferências e cimeiras vou acompanhar na ausência da Verdade que me distancia da minha realidade? Onde se encontram as pessoas que lideraram o meu Pai à morte?
Hoje faço parte duma sociedade onde além de mal interpelado, extorquido ou deparado com recentes integrados que chegam até a questionar-me se Siba-Siba era um artista! E respondo que não, como se o artista fosse Eu.
Dele não me resta sequer memória da voz, apenas do seu misto tom autoritário e sereno. Dele nunca me lembro da altura, mas olhava-o sempre dum ângulo obtuso, sei que não era pequeno. Dele não me recordo de um único dente ao sorrir, mas ausência de motivos para rir, era “de menos.”
Dele não reside mais a voz que que há 25 anos nunca mais ouvi, mas o eco das questões perdidas no tempo que em voz alta ele nunca perguntou e os que o assassinaram nunca responderam.
Dele não residem sequer as boas memórias externas ao seu perfil e conquistas, exceptuando a euforia do quão fantástica teria sido aquela festa no Sábado para a qual estava pronto a juntar-me a toda família, enquanto ele era cordialmente convidado para ser atirado vivo do 14° andar do seu local de trabalho à sua morte.
Dele não sobrou um plano concreto, nem um testamento; apenas uma pensão e uma ideia distante de quem ele foi e do mínimo que ele poderia esperar. Mínimo que até consequente do seu sacrifício não consigo honrar. Por ele não sobrou um pingo de respeito e empatia, apenas um aglomerado de famílias que ainda tem por prosperar e sem respostas a receber, ou mais perguntas a partilhar.
–
Dele sobrou-me o tracto gastrointestinal afiado do desgosto de seguir a vida em frente ao redor da morte trágica, que tornou-se uma tendência, cada vez mais próxima a típica ou evento cultural. O fillet mignon servido ao pequeno-almoço à minha família pelo mais conceituado restaurante e chef foi recusado. E não foi até hoje o único declaro de suicídio público que foi servido a mais famílias. Vimos degustando intermitentemente de um amuse-bouche pelas mesas do bar, convenientemente convencidos de que o chef adjunto encontra-se inapto e a cozinha sob constante manutenção. Enquanto os meus familiares esperam degustar da sobremesa antes que o restaurante feche, aguardo incessantemente e de estômago ruído pelo prato que se come frio.
Não há um único privilégio que não tenha experianciado aos olhos daqueles que acreditam que contribuem para a restituição do meu legado. Obviamente que nenhum desses privilégios se equipara ao custo de oportunidade da Verdade.
A minha vida é o resumo das mentiras da verdade, as mesmas que o meu trato gastroinstenial não digeriu, desde a euforia ao sentimento mórbido da festa que nunca fomos naquele Sábado.
Sou o resultado de tudo aquilo que o meu Pai continua a ser impedido de ser. E justamente por isso nunca me foi atribuído o devido tempo e espaço. O meu acesso, presença e oportunidade para crescer colidem com o desconforto que nenhum líder de equipa ou conselho directivo consegue mascarar ou por muito tempo tolerar. Nenhum líder seria capaz de digerir este texto e reconfigurar o espírito de equipa adiante, como se de nada se tratasse. Nenhum mentor saberia como progredir.
Aparenta ser mais fácil conviver e prosperar a volta daqueles que se contêm à ilusão de quem somos e para onde vamos como Moçambicanos, desde que consigamos comprar sono para acordar no dia seguinte. Daí, não viver de aparências. Mal durmo, obcecado pelas respostas que não tenho.
Sempre que perco o sono colho imediatamente o remorso de aceitar o facto de ninguém ter culpa ou responsabilidade atribuída. Porém, o facto de ninguém ter culpa jamais irá significar que a mim ninguém nada deva.
Sou o único filho do meu Pai, pelo que agradecia que me pagassem às dívidas; assim como o meu Pai, ainda que sem vida, tem ainda pago pelas vossas.
Embora a bastantes leitores possam interpretar este artigo e ficar com a impressão de que se trata de um sentido de direito excessivo, procuro apenas ter o direito que a Verdade deveria conferir-me desde o dia em que nasci; o dia que o meu Pai foi assassinado. Ou posso deixar assim original levar e colar no meu site?
Leia mais na fonte original: A Carta de Moçambique
