O Governo moçambicano foi chamado a regularizar uma dívida de quase 30 milhões de meticais ao empreiteiro responsável pela reabilitação do Estádio Nacional do Zimpeto, acrescida de juros de mora, mais de um ano depois da conclusão e entrega das obras.
A intervenção permitiu que a principal infraestrutura desportiva do País recuperasse a aprovação da Confederação Africana de Futebol (CAF) para acolher jogos internacionais. Contudo, apesar da entrega dos trabalhos, a empresa responsável pela empreitada continua sem receber o pagamento acordado e já terá recorrido a advogados para exigir a liquidação da dívida.
A informação consta de uma reportagem publicada pelo jornal Dossiers & Factos, na edição n.º 680, de 12 de Outubro de 2026, assinada por Amad Canda.
Contrato previa pagamento após a entrega das obras
De acordo com a investigação do Dossiers & Factos, o contrato celebrado entre o Fundo de Promoção Desportiva (FPD) e a empresa responsável pela reabilitação do estádio foi assinado em 2025 e estabelecia que o pagamento deveria ser efectuado imediatamente após a entrega dos trabalhos.
Entretanto, passado mais de um ano, o montante acordado continua por liquidar, uma situação que tem provocado mal-estar entre as partes envolvidas.
O atraso no cumprimento da obrigação financeira levanta dúvidas sobre os motivos que impedem a regularização da dívida.
Fontes próximas do processo, citadas pelo jornal, suspeitam que o problema não esteja relacionado com a falta de disponibilidade orçamental, mas com uma alegada ausência de vontade política para cumprir o compromisso assumido.
As obras realizadas no Estádio Nacional do Zimpeto incluíram a colocação de um novo relvado, a reposição de tanques de água, a manutenção dos geradores e a recuperação dos balneários e sanitários, entre outras intervenções destinadas a garantir condições adequadas para a realização de partidas internacionais.
Apesar da importância dos trabalhos para a recuperação da aprovação da CAF, a empresa responsável continua à espera do pagamento.
Directora do FPD recusa comentar o atraso
Contactada pelo Dossiers & Factos para prestar esclarecimentos sobre as razões do atraso no pagamento, a directora do Fundo de Promoção Desportiva, Sílvia Langa, mostrou-se indisponível para comentar o assunto, alegando tratar-se de um domingo.
Na ocasião, sugeriu que o jornal remetesse uma carta formal à instituição para solicitar os esclarecimentos pretendidos.
A recomendação, porém, suscitou reservas por parte da publicação, uma vez que, em ocasiões anteriores, o jornal já tinha recorrido ao mesmo procedimento, seguindo indicações da própria entidade, sem obter qualquer resposta.
Confrontada com essa experiência e com a necessidade de recolher o contraditório em tempo útil, Sílvia Langa questionou: “Mas será num domingo que vais resolver isso?”, mantendo a sua indisponibilidade para prestar esclarecimentos naquele momento.
Até ao momento relatado pela publicação, não são apresentados esclarecimentos da instituição que justifiquem o atraso na liquidação da dívida.
Prémio Jovens Criativos reacende debate sobre prioridades do Governo
A dívida relacionada com a reabilitação do Estádio Nacional do Zimpeto voltou a gerar críticas depois de o Governo ter realizado, na semana anterior, na cidade de Tete, a XII edição do Prémio Jovens Criativos.
A iniciativa distinguiu dezenas de jovens provenientes de diferentes pontos do País, com a atribuição de prémios monetários.
A realização do evento reacendeu o descontentamento entre os que aguardam há mais de um ano pelo pagamento dos trabalhos executados no principal estádio nacional.
Entre as fontes ouvidas pelo Dossiers & Factos, o caso alimenta críticas sobre as prioridades do Ministério da Juventude e Desporto, sobretudo no que diz respeito à atenção dispensada ao sector desportivo em comparação com as iniciativas dirigidas à juventude.
Uma das fontes lamentou a situação, considerando que o tratamento dado à dívida não corresponde à importância da infraestrutura para o desporto nacional.
“O Estádio Nacional do Zimpeto é a maior infraestrutura do País e não é bonito que seja secundarizado desta forma”, afirmou a fonte citada pelo jornal.
Estado do relvado volta a preocupar apesar da aprovação da CAF
Apesar de ter recuperado a aprovação da Confederação Africana de Futebol para acolher partidas internacionais, o Estádio Nacional do Zimpeto continua a enfrentar dificuldades relacionadas com as condições do seu relvado.
A degradação do piso tornou-se evidente durante os jogos disputados contra o Senegal e o Sudão, no âmbito da campanha de qualificação para o Campeonato Africano das Nações (CAN) de 2027.
O estado do relvado volta a levantar preocupações sobre a manutenção da infraestrutura e a durabilidade das intervenções efectuadas.
A situação reforça a necessidade de assegurar que os trabalhos de reabilitação produzam resultados duradouros, evitando que o recinto volte a ser reprovado nas inspecções da entidade que tutela o futebol africano.
O Estádio Nacional do Zimpeto já foi interditado em diferentes ocasiões, obrigando a Selecção Nacional de Futebol, os Mambas, a disputar jogos internacionais fora do território moçambicano.
Em 2021, a interdição do recinto condicionou a campanha de qualificação para o Campeonato do Mundo de 2022, incluindo os confrontos com a Costa do Marfim e os Camarões.
Dois anos depois, em 2023, uma nova reprovação afectou os compromissos de qualificação para o CAN de 2025 e para o Mundial de 2026. Como consequência, Moçambique teve de receber adversários como a Argélia, a Somália e o Uganda em estádios da África do Sul.
Em Dezembro de 2024, a CAF voltou a interditar o estádio, comprometendo a realização de partidas internacionais previstas para 2025.
Já em Março de 2025, uma nova inspecção voltou a reprovar o recinto, obrigando os Mambas a disputar fora do País o encontro contra o Uganda, referente à qualificação para o Campeonato do Mundo de 2026.
O historial de interdições, associado às preocupações actuais com o relvado e ao atraso no pagamento da empreitada, coloca novamente em debate a gestão, a manutenção e a sustentabilidade financeira da principal infraestrutura desportiva moçambicana.
