Lula tem maioria nos paises da Europa com votacao concluida mostra parcial do

Lula consegue virada histórica e conquista quarto mandato como Presidente do Brasil

O Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, foi reeleito este domingo, 25 de Outubro de 2026, pela segunda vez, garantindo um quarto mandato à frente da República, que deverá prolongar-se até 2030. Com isso, o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) passará mais de metade deste século no poder no Brasil.

Com 96% das urnas apuradas, Lula ultrapassou os 64 milhões de votos, alcançando uma vantagem superior a quatro milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal (PL). Segundo a Justiça Eleitoral, a diferença já era considerada irreversível.

Lula, que completa 81 anos na terça-feira, 27 de Outubro, alcançou um resultado inédito na história democrática brasileira: tornou-se o primeiro Presidente a conseguir duas reeleições e, simultaneamente, a conquistar uma vitória presidencial depois de terminar o primeiro turno em segundo lugar.

A virada foi impulsionada por uma campanha que recuperou força depois da derrota na primeira volta, marcada por grandes manifestações de apoiantes nas ruas e uma intensa mobilização nas redes sociais. Uma parte importante dessa estratégia foi conduzida pelo deputado André Janones, da Rede Sustentabilidade de Minas Gerais, sem participação directa de grande parte da direcção nacional do PT.

No discurso de vitória, realizado na noite de domingo, Lula agradeceu o contributo de Janones para a recuperação da campanha.

“Eu quero agradecer a esse companheiro aqui, o Janones, o nosso general que teve um papel exponencial nessa campanha para levantar, diariamente, de manhã, de tarde e de noite, a moral da nossa tropa”, afirmou.

O antigo metalúrgico, que se tornou uma das principais figuras da esquerda brasileira desde a sua primeira candidatura presidencial, em 1989, inicia, contudo, o caminho para o quarto mandato num contexto político, económico e internacional particularmente difícil.

O novo Governo deverá tomar posse a 5 de Janeiro de 2027, enfrentando obstáculos no Congresso Nacional, tensões externas, incluindo a hostilidade activa do Presidente norte-americano, Donald Trump, e desafios económicos imediatos, num cenário de desconfiança por parte dos agentes do mercado financeiro.

Congresso mais à direita coloca dificuldades à governação

Lula terá de governar um país profundamente dividido e lidar com um Congresso Nacional considerado o mais à direita desde a redemocratização brasileira.

O Partido Liberal, que apoia Flávio Bolsonaro, foi a formação política que mais cresceu nas eleições, alcançando um número histórico de 121 deputados federais na Câmara dos Deputados. No Senado, o partido deverá contar com 28 parlamentares a partir do próximo ano.

Para o cientista político Lucas Aragão, sócio da consultora Arko Advice, o cenário representa um desafio sem precedentes para o Presidente reeleito, sobretudo na relação com o Senado.

“Vai ser um cenário inédito, desafiador na Câmara e beirando a incapacidade de se fazer política no Senado. Nunca houve um cenário assim, em que uma das Casas é claramente de oposição. Ele não vai ter espaço algum no Senado”, afirmou.

Na avaliação de Aragão, Lula poderá encontrar algum apoio na Câmara dos Deputados, sobretudo se conseguir estabelecer entendimentos com o chamado Centrão, grupo de partidos que costuma negociar apoio ao Governo em troca de espaço político e participação nas decisões. No Senado, porém, as possibilidades de negociação serão mais limitadas.

Na noite da vitória, Lula reconheceu as dificuldades que enfrentará no Congresso, mas afirmou que respeitará a escolha dos eleitores.

Segundo o Presidente, foi o povo brasileiro que escolheu os representantes parlamentares, pelo que pretende trabalhar para conseguir aprovar as propostas do Governo.

Aragão considera que, para garantir condições mínimas de governação, Lula terá de procurar iniciativas que encontrem algum ponto de contacto com a agenda da direita ou que tenham forte apoio popular. Entre os exemplos está a proposta de acabar com a escala de trabalho 6×1, que prevê seis dias consecutivos de trabalho para um dia de descanso.

Ainda assim, o cientista político avalia que o Presidente terá um conjunto limitado de instrumentos para avançar com a sua agenda.

O historiador Lincoln Secco, professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro A História do PT, publicado pela Ateliê Editorial, recorda que os governos do Partido dos Trabalhadores privilegiaram historicamente a negociação em vez do confronto político.

Para Secco, permanece por esclarecer se Lula manterá essa estratégia diante de um Congresso com uma composição particularmente adversa ou se tentará mobilizar a sociedade civil para pressionar os parlamentares.

“Não sabemos se, pela primeira vez, o governo vai tentar mobilizar a sociedade civil para sensibilizar o Congresso, como aconteceu com o fim da escala 6×1, ou se vai manter o que é a marca do PT governista desde que chegou ao poder em 2003, que é buscar a conciliação e não ir pro embate”, declarou.

Durante os últimos dias da campanha, Lula prometeu adoptar uma nova forma de governar, tendo em conta tanto a oposição parlamentar como a mobilização popular que marcou a recta final da disputa.

“Depois da nossa vitória a gente vai ter que discutir um novo jeito de governar este país. A participação do povo nesta campanha, a saída na rua dos estudantes, das mulheres, dos trabalhadores, vai nos obrigar a fazer um novo jeito de governar este país. Este país nunca mais será o mesmo”, afirmou numa transmissão em directo realizada com André Janones.

A iniciativa reuniu, segundo o relato, cerca de 10 milhões de apoiantes de Lula num canal de WhatsApp.

No discurso da vitória, o Presidente voltou a defender mudanças na forma de governar, prometendo atribuir maior importância às redes sociais e defendendo a regulamentação das plataformas digitais.

Lula reconheceu que não é um Presidente apoiado pela maioria absoluta da população, mas sublinhou que a sua eleição lhe confere a responsabilidade de governar para todos os brasileiros.

“Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos”, afirmou.

Pressão sobre as contas públicas e aprovação abaixo dos primeiros mandatos

Mesmo antes da tomada de posse, prevista para 5 de Janeiro de 2027, Lula terá de responder às preocupações do mercado financeiro sobre a situação das contas públicas, num contexto de dívida elevada e de pressão sobre o orçamento do Estado.

O Presidente terá ainda de enfrentar o descontentamento de parte da população com o custo de vida e o endividamento das famílias, numa altura em que as previsões apontam para um crescimento económico mais lento em 2027.

Lula chega ao quarto mandato com menos de metade dos brasileiros a aprovar a sua actual administração. Na última sondagem do Datafolha antes do segundo turno, divulgada no sábado, 49% dos inquiridos aprovavam o Governo, mas apenas 36% classificavam a gestão como óptima ou boa. Em contrapartida, 48% desaprovavam a administração.

Os indicadores são inferiores aos registados durante os dois primeiros mandatos do Presidente e mostram que as medidas populares adoptadas pelo Governo desde o final do ano passado não foram suficientes para elevar significativamente os níveis de aprovação.

Entre as iniciativas está a isenção do imposto sobre o rendimento para a classe média, acompanhada por um aumento da tributação sobre os contribuintes mais ricos.

A medida integrou um conjunto de benefícios económicos anunciado pelo Governo durante a fase final da campanha eleitoral.

Entre as iniciativas referidas estão o aumento dos recursos destinados ao Bolsa Família, com um custo adicional previsto de 22 mil milhões de reais no orçamento de 2027; o perdão de dívidas para microempreendedores individuais (MEIs), com um impacto estimado de três mil milhões de reais entre 2027 e 2029; e o lançamento do programa Desenrola 3, destinado a aliviar o endividamento da população.

Apesar dessas medidas, Lucas Aragão considera que o Governo não conseguiu transmitir uma sensação generalizada de melhoria económica aos brasileiros.

“O governo não conseguiu gerar conforto econômico na população”, afirmou.

O especialista acrescentou que, embora alguns indicadores económicos apresentem resultados positivos, como o baixo desemprego e o crescimento sustentado pelo consumo, esses factores não se traduziram numa percepção de bem-estar para uma parte significativa da população.

A pressão económica é agravada pelos juros elevados, que marcaram o terceiro mandato de Lula e contribuíram para o aumento do endividamento das famílias e do Estado, além de alimentarem a desconfiança dos mercados financeiros.

Segundo dados do Banco Central do Brasil citados pela BBC News Brasil, a dívida bruta do Governo geral atingiu 11,1 biliões de reais em Agosto, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O indicador inclui as obrigações do Governo federal, da Previdência Social, dos Estados e dos municípios.

A dívida pública aumenta quando as despesas do Estado ultrapassam as receitas provenientes dos impostos. Para cobrir a diferença, o Governo recorre ao endividamento, contraindo empréstimos que podem implicar o pagamento de juros elevados.

O elevado nível da dívida, aliado à ausência de perspectivas claras de estabilização em relação ao PIB nos próximos anos, levanta dúvidas sobre a capacidade do Governo de cumprir as suas obrigações financeiras.

Durante a campanha, Lula fez algumas aproximações à direita no domínio da segurança pública, incluindo o apoio à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes graves e hediondos.

No entanto, não apresentou concessões semelhantes na área económica. Apesar de vários economistas considerarem necessário reduzir despesas em 2027, o Presidente não manifestou apoio a um ajustamento fiscal quando questionado sobre o tema.

O programa de Governo entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prevê aumentar o poder de compra dos reformados, pensionistas e beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC). A proposta gera reservas entre alguns economistas devido ao possível impacto nas contas públicas.

Campanha marcada por altos e baixos e pela mobilização de André Janones

A reeleição de Lula foi marcada por uma disputa apertada e por uma recuperação eleitoral que se consolidou entre o primeiro e o segundo turno.

Segundo o agregador de sondagens da BBC News Brasil, Lula e Flávio Bolsonaro começaram o ano com níveis de apoio relativamente próximos. A primeira inversão nas intenções de voto ocorreu em Maio.

O desempenho de Lula terá melhorado após o escândalo em torno de Dark Horse, filme sobre a trajectória do antigo Presidente Jair Bolsonaro.

Mensagens obtidas a partir do telemóvel de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, detido desde Março, indicavam que Flávio Bolsonaro teria pedido dinheiro ao banqueiro para financiar a produção cinematográfica.

De acordo com informações atribuídas à produtora Go UP Entertainment, o montante solicitado pelo senador, de 134 milhões de reais, correspondia a quase o dobro do orçamento total do filme, estimado em 75 milhões de reais.

A estreia da produção foi adiada para o próximo ano, e o projecto passou a ser alvo de um inquérito da Polícia Federal. Os investigadores suspeitam que os fundos possam ter sido utilizados para financiar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Contudo, as mensagens encontradas no telemóvel de Vorcaro também apontavam para uma relação próxima com Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Quando essas conversas começaram a ser divulgadas, a vantagem de Lula nas sondagens diminuiu, segundo a análise apresentada pela BBC News Brasil.

Lucas Aragão considera que a associação do Governo ao Supremo Tribunal Federal teve consequências negativas na primeira volta.

“O governo tomou uma porrada no primeiro turno abraçado com o STF”, afirmou, acrescentando que parte da população vê o Executivo como próximo do tribunal.

Lula tentou ainda adoptar uma medida controversa antes da primeira volta, ao procurar proibir as apostas desportivas e outros jogos de apostas, conhecidos como bets, através de uma medida provisória apresentada pouco mais de uma semana antes da votação.

Apesar dessas iniciativas, o resultado das urnas de 4 de Outubro colocou Lula em segundo lugar, com uma desvantagem de cerca de 2,2 milhões de votos.

No dia seguinte à votação, vários analistas consideravam o Presidente praticamente derrotado. A reacção dos mercados financeiros foi positiva, com a subida da bolsa e a descida do dólar, num contexto em que investidores demonstravam expectativas favoráveis em relação ao ajustamento fiscal prometido por Flávio Bolsonaro.

Ao longo do mês, a diferença entre os dois candidatos, que no primeiro turno tinha sido inferior a dois pontos percentuais, começou a aumentar, mas manteve-se relativamente reduzida. Segundo o agregador de sondagens da BBC News Brasil, a maior vantagem chegou a quatro pontos percentuais no dia 7 de Outubro, antes de voltar a diminuir.

Para Lincoln Secco, a recuperação do PT não se explica apenas pela mobilização dos seus apoiantes, tendo também sido influenciada por erros estratégicos da campanha adversária.

“Enquanto espontaneamente a militância do PT foi para as ruas, o Flávio apresentava apoio de pessoas do sistema, como o Ronaldo Caiado e o Michel Temer”, afirmou.

O historiador acrescentou que Flávio Bolsonaro terá demonstrado excesso de confiança ao começar a indicar possíveis nomes para os ministérios antes de garantir a vitória.

“Ele ficou de salto alto, apontando nomes para os ministérios; isso prejudicou a campanha dele no segundo turno”, avaliou.

Em sentido contrário, Lula conseguiu mobilizar milhares de apoiantes em manifestações de rua e nas plataformas digitais. A esquerda brasileira, que tradicionalmente enfrentava dificuldades para superar a direita nas mobilizações nas redes sociais, contou nesta campanha com o apoio de André Janones e dos seus seguidores.

Sob a coordenação do deputado, um canal de WhatsApp reuniu mais de 10 milhões de apoiantes na fase final da disputa. A estratégia procurava incentivar os eleitores a mudar o sentido do voto e ajudar Lula a recuperar a desvantagem do primeiro turno.

A tarefa era particularmente difícil num país profundamente polarizado, e o calendário eleitoral também representava um obstáculo: apenas três semanas separaram as duas votações.

Ainda assim, existia uma margem de recuperação entre os eleitores que não tinham votado na primeira volta. Cerca de 33 milhões de brasileiros tinham-se abstido no primeiro turno.

Na segunda votação, a taxa de abstenção caiu pelo menos 1,88 ponto percentual, enquanto os votos brancos e nulos recuaram pelo menos um ponto, segundo os números apresentados na análise.

A recuperação culminou numa virada eleitoral inédita, que Lula comentou com ironia durante o discurso da vitória, recordando o seu percurso nas eleições presidenciais.

“Eu nunca ganhei eleição no primeiro turno”, declarou. “Mas nunca perdi no segundo turno”, acrescentou.

A vitória garante a Lula um quarto mandato presidencial e abre uma nova etapa política, marcada pela necessidade de negociar com um Congresso mais à direita, responder às preocupações económicas e procurar governar um país cuja população permanece dividida.

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