Líder da ANAMOLA afirma que o Executivo moçambicano só aceitou a legalização do partido e a sua tomada de posse como conselheiro de Estado após pressão de parceiros internacionais, com destaque para a Alemanha.
O líder da Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA), Venâncio Mondlane, afirma que a legalização do seu partido e a sua entrada no Conselho de Estado foram resultado da pressão exercida por parceiros internacionais sobre o Governo moçambicano, e não de uma iniciativa espontânea das autoridades nacionais.
Segundo Mondlane, o financiamento externo de que Moçambique depende terá sido determinante para levar o Executivo a ultrapassar a resistência inicial à legalização da formação política e à sua participação nas instâncias de consulta do Estado.
A declaração foi feita durante a Mesa Redonda sobre Justiça Eleitoral, realizada em Angola, onde o político explicou que decidiu recorrer directamente aos parceiros internacionais para denunciar o que considerava ser a falta de abertura do Governo à sua participação política.
Na sua versão, a dependência financeira do país em relação aos parceiros de cooperação terá criado condições para que estes exercessem pressão sobre as autoridades moçambicanas.
Mondlane aponta financiamento da União Europeia e influência alemã
Durante a sua intervenção, o dirigente da ANAMOLA destacou o financiamento do Diálogo Nacional Inclusivo pela União Europeia e o peso da contribuição alemã no apoio europeu.
Mondlane explicou que decidiu procurar as autoridades alemãs por considerar que o país tem uma influência significativa no financiamento disponibilizado pela União Europeia.
“O diálogo nacional inclusivo tem um orçamento e esse orçamento não provém do orçamento geral do Estado, mas sim do financiamento da União Europeia. Fui ao parlamento alemão porque sei que a maior parte do apoio da União Europeia, cerca de 70% desse valor, provém exactamente do Governo alemão. Pedimos um encontro com o Governo alemão e fomos recebidos pelo vice-presidente, pertencente ao partido de esquerda que está a crescer agora na Alemanha”, revelou.
De acordo com o político, o contacto com as autoridades alemãs tinha como objectivo apresentar uma versão dos acontecimentos diferente daquela que, na sua perspectiva, era transmitida pelo Governo moçambicano.
Mondlane sustenta que a intervenção dos parceiros internacionais acabou por contribuir para o desbloqueio dos dois processos: a sua tomada de posse como conselheiro de Estado e a aprovação da ANAMOLA.
Legalização da ANAMOLA foi marcada por obstáculos
O processo de registo do partido enfrentou dificuldades administrativas. Inicialmente, a formação política tentou legalizar-se com a designação “Anamalala”, expressão associada aos protestos pós-eleitorais e interpretada como uma mensagem de que algo terminou ou de que era necessário dizer “basta”.
O pedido foi rejeitado pelo Ministério da Justiça, tendo sido posteriormente adoptada a designação Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo, abreviada como ANAMOLA. A nova formação política foi formalmente aprovada em Agosto de 2025.
Para Mondlane, porém, a alteração da designação não explica, por si só, a superação dos obstáculos que impediam a legalização do partido.
O dirigente atribui o desfecho à pressão que afirma ter sido exercida junto das autoridades alemãs e, posteriormente, à intervenção dos parceiros internacionais junto do Governo moçambicano.
“O Governo da Alemanha remeteu para que eu tomasse posse como conselheiro de Estado e exigiu a aprovação do partido que formámos. Como é que, de repente, o Governo que não conseguia aceitar permitiu formar o partido ANAMOLA? Fomos ao Parlamento alemão, onde fomos apresentar a outra versão da história, e eles disseram que, para eles [Governo moçambicano] terem o dinheiro que querem, então, Venâncio Mondlane tem que tomar posse como conselheiro de Estado e o partido dele tem que ser aprovado”, contou.
Com base neste relato, o líder da ANAMOLA defende que a mudança de posição do Executivo esteve ligada à influência financeira e diplomática dos parceiros de cooperação, contrariando a interpretação de que a aprovação do partido resultou exclusivamente da vontade política das autoridades moçambicanas.
Mondlane rejeita que a aprovação tenha resultado da boa vontade do Governo
O político criticou ainda aqueles que, segundo afirma, apresentam a legalização da ANAMOLA como resultado da iniciativa ou da boa vontade do Executivo.
Na sua perspectiva, essa interpretação desvaloriza o papel que atribui à pressão internacional no desbloqueio do processo de registo da formação política.
“Alguns mercenários digitais ou milícias digitais lá em Maputo tiram as palavras nos jornais dizendo que foi boa vontade do Governo aprovar o partido ANAMOLA, mas a razão central é esta”, declarou.
As afirmações de Mondlane voltam a colocar em discussão a influência dos parceiros internacionais nas decisões políticas internas de Moçambique, sobretudo num contexto em que o país depende de financiamento externo para apoiar programas e iniciativas de interesse público.
Contudo, a alegada existência de uma condição formal imposta pela Alemanha para garantir a tomada de posse de Mondlane como conselheiro de Estado e a legalização da ANAMOLA não é acompanhada, no relato apresentado, de documentação independente que a confirme.
Assim, a relação directa entre o financiamento externo e as duas decisões deve ser entendida como a versão apresentada pelo líder da ANAMOLA, não como um facto oficialmente comprovado.
Fonte: Declarações de Venâncio Mondlane durante a Mesa Redonda sobre Justiça Eleitoral, realizada em Angola. Texto atribuído a Luísa Muhambe.
