Governo Exige Metas Claras para a Inclusão Feminina nas Grandes Empresas e Projectos Nacionais

Maputo | 5 de Agosto de 2026

O Executivo moçambicano apelou às grandes corporações que operam no País para que estabeleçam objectivos precisos voltados à integração de mulheres. A directriz abrange não apenas a contratação e capacitação profissional, mas também a priorização na compra de bens e serviços de empresas geridas pelo público feminino, com especial enfoque nos sectores estratégicos e nos grandes projectos em desenvolvimento.
Esta posição foi defendida nesta quarta-feira (5), em Maputo, pela Ministra do Trabalho, Género e Acção Social, Ivete Alane. A intervenção ocorreu durante a 4.ª edição da Conferência Mulheres na Economia, um evento organizado pela Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC).

O Paradoxo da Presença Sem Poder Económico

Durante o seu discurso, Ivete Alane destacou que a actuação feminina na economia ainda se restringe fortemente a pequenos negócios, o que não garante acesso a postos de decisão, grandes contratos ou empregos de alta qualificação. A governante foi categórica ao afirmar que a simples presença no mercado não se traduz, automaticamente, em verdadeiro poder económico.
Para ilustrar o subaproveitamento do potencial feminino, a ministra partilhou dados relativos ao ano de 2025:

  • Dos cerca de 178 mil novos postos de trabalho criados, apenas 23,3% foram preenchidos por mulheres.
  • Este cenário representa, nas palavras da ministra, uma capacidade produtiva e um talento que o País falha em capitalizar.

Desigualdades na Educação e Transição para o Mercado

No campo da educação profissional, os dados mostram um cenário misto. Se por um lado as mulheres representam 45% das vagas em cursos técnico-profissionais e 49% nos estágios pré-profissionais remunerados, por outro, a atribuição de bolsas de estudo para o ensino técnico-profissional revela uma profunda disparidade, com as mulheres a garantirem apenas 21% destes apoios.
A ministra sublinhou que a educação deve estar intrinsecamente ligada à procura do mercado. O objectivo final das capacitações deve ser garantir que a formação resulte em emprego real, autonomia financeira ou negócios duradouros, questionando as instituições sobre quais competências estão a ser desenvolvidas e como será feita a ponte para o mercado de trabalho.

Conteúdo Local Inclusivo e Dados de Financiamento

Um dos pontos mais fortes da intervenção focou-se nas políticas de conteúdo local dos grandes projectos. Para Ivete Alane, qualquer programa de conteúdo local que não inclua efectivamente as mulheres está “incompleto”. A governante defendeu a necessidade de métricas rigorosas para avaliar:

  • O número de mulheres efectivamente contratadas;
  • A quantidade de fornecedoras lideradas por mulheres;
  • O volume e valor dos contratos adjudicados a estas empresas;
  • O número de mulheres que alcançaram cargos de liderança.
    O Governo partilhou ainda os avanços registados em 2025 através de iniciativas públicas de apoio:
  • Acesso à Terra: 41% dos títulos de Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT) foram emitidos para mulheres.
  • Emprego e Juventude: 44% das vagas do programa “Meu Kit, Meu Emprego” e 40% das oportunidades no Fundo de Apoio às Iniciativas Juvenis foram destinadas ao público feminino.
  • Apoio Directo: Distribuição de kits de geração de rendimento a cerca de duas mil mulheres, que se mantêm operacionais nos seus negócios.
    Apesar dos números encorajadores, o apelo foi para que as mulheres não fiquem estagnadas numa economia de subsistência, devendo existir um caminho claro que as leve da poupança ao crédito, e do investimento à liderança de empresas competitivas. A ministra encerrou a sua intervenção pedindo à banca a criação de produtos financeiros à medida destes pequenos negócios, e desafiou os presentes a assumirem compromissos mensuráveis a serem revistos na edição seguinte do evento.

Sobre a 4.ª Conferência Mulheres na Economia

Realizado em Maputo, o evento promoveu um espaço de debate entre membros do Governo, sociedade civil, academia e o sector privado (com forte presença das áreas de tecnologia e energia).
A conferência destacou-se pelos seus painéis diversificados, que contaram com a participação de figuras de relevo, tais como:

  • Emília Nhalevilo – Reitora da Universidade Púnguè;
  • Elma dos Santos – Especialista em engenharia de reservatórios;
  • Djamila Carvalho – Especialista em desenvolvimento internacional e mobilização de recursos;
  • Rudêncio Morais – Presidente do Conselho de Administração da ENH;
  • Edna Simbine – Gestora de conteúdo local na TotalEnergies;
  • Shelzia Mucavele – CEO da Rovuma Tech, Lda.

(Baseado na reportagem original de Felisberto Ruco)

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