MAPUTO — Aos 52 anos, Luís Guirrugo, residente no bairro de Magoanine, carrega uma história marcada pelas consequências de um acidente vascular cerebral (AVC) que sofreu em 2013, quando tinha apenas 38 anos. Entre as sequelas que ficaram, considera que a mais difícil foi a emocional, depois de ter sido abandonado pela companheira numa altura em que dependia dela para praticamente todas as actividades do dia-a-dia.
Luís é actualmente um dos cerca de 60 membros da Associação de Pessoas Vivendo com Sequelas Pós-AVC (PSAVC), localizada na Rua da Resistência, no bairro da Maxaquene “C”.
O AVC aconteceu por volta das 10h00, quando Luís se encontrava a tomar o pequeno-almoço. De repente, sofreu o ataque e caiu imobilizado no chão da sua residência.
Durante várias horas, permaneceu no soalho sem conseguir procurar ajuda. Só por volta das 20h00, quando a companheira regressou a casa, é que foi encontrado.
Segundo o próprio, a mulher retirou-o do chão, colocou-o na cama, fez a sua higiene e continuou a cuidar dele, mas durante cerca de duas semanas não o levou ao hospital.
A ausência prolongada de Luís na igreja acabou por chamar a atenção dos membros da sua congregação. Alguns companheiros decidiram visitá-lo e, ao tomarem conhecimento da situação, entraram em contacto com os seus familiares.
A família levou-o então ao Centro de Saúde 1.º de Maio. Naquele período, porém, decorria uma greve dos médicos, situação que Luís acredita ter contribuído para que não recebesse o atendimento de que necessitava. Posteriormente, acabou por regressar para casa.
Abandonado três meses depois
Três meses após o AVC, Luís enfrentaria uma nova e dolorosa realidade: a companheira decidiu deixá-lo.
Segundo o seu relato, a mulher afirmou que já não conseguia permanecer numa casa onde “já não havia nada” e que ainda era jovem para “vestir luto”.

A companheira terá partido sem sequer comunicar a decisão à família de Luís.
“Ela disse que já não podia permanecer num lar onde já não havia nada e que ainda era jovem para vestir luto. Não avisou a minha família. Fiquei dias na cama sem banho, sem nada e só dependia dos vizinhos de boa vontade que me davam soupa”, recorda.
Sem condições para cuidar de si próprio, Luís passou a depender da solidariedade dos vizinhos, que lhe forneciam alimentação e o ajudavam na medida das suas possibilidades.
Hoje agradece por ter sido abandonado
Apesar da experiência dolorosa, Luís afirma actualmente que chegou a encarar o abandono de outra perspectiva.
Para ele, se a companheira tivesse permanecido ao seu lado nas condições em que se encontrava, o desfecho poderia ter sido ainda pior.
“É que se ela tivesse ficado, talvez aí é que eu morria”, afirma.
Foi a sua família que assumiu posteriormente um papel decisivo na recuperação. Luís foi levado para sessões de fisioterapia em Mavalane e, depois de começar a apresentar melhorias, continuou os exercícios em casa.
Com o tempo, conseguiu recuperar parte da sua autonomia e passou a realizar sozinho várias actividades.
“Minha família levou-me a fisioterapia em Mavalane e dali com a melhora passei a fazer sozinho em casa e até hoje, melhorei sozinho”, recorda.
Recomeçou a vida
Actualmente, Luís afirma ser independente e ter reconstruído a sua vida. Em Janeiro deste ano, voltou a casar-se e tem uma nova companheira.
A experiência, no entanto, deixou-lhe uma importante lição sobre a necessidade de força interior diante das adversidades.
“A nossa vida depende de nós. Esta doença tira-nos tudo e se não tens força interior, vais embora”, sentencia.
A história de Luís é também um retrato dos desafios enfrentados por pessoas que vivem com sequelas de AVC e da importância do apoio familiar, comunitário e de estruturas dedicadas à recuperação e reintegração dos sobreviventes.
Fonte: Jornal Domingo
