Nampula — Duas mulheres que trabalham como profissionais do sexo há mais de 25 anos, tendo exercido a actividade em diferentes prostíbulos da cidade de Nampula, decidiram quebrar o silêncio e pedir ajuda para conseguir emprego ou apoio para iniciar um negócio que lhes permita abandonar a actual actividade e garantir o sustento dos filhos.
Cansadas da vida que levam, as duas mulheres afirmam estar à procura de uma oportunidade que lhes permita mudar de vida. Por isso, decidiram lançar um apelo às pessoas de boa vontade, pedindo apoio para que possam deixar para trás a prostituição e construir uma nova fonte de rendimento.
Falando ao Jornal Ikweli, uma das entrevistadas afirmou que já não tem forças para continuar na actividade e garantiu que, caso receba algum tipo de apoio, pretende abandonar a profissão para se dedicar à criação dos seus quatro filhos.
A mulher conta que teve os filhos com homens diferentes e em circunstâncias que considera dolorosas. Segundo o seu relato, a falta de alternativas para sustentar as crianças acabou por mantê-la durante anos na actividade.
“Eu sou trabalhadora de sexo e faço por causa de sofrimento, mas estou a ver que não estou a fazer nada, estou há 25 anos nessa vida, mas não consigo mudar a minha vida. Assim estou cansada, porque isso me dói, já não consigo mais, quero sair disso, mas as crianças em casa esperam por mim.”
A entrevistada explica que tem quatro filhos sob a sua responsabilidade e que, para conseguir alimentá-los, acaba por recorrer à única actividade que aprendeu a exercer ao longo da vida.
“Tenho quatro filhos que deixaram comigo, e para dar de comer aquelas crianças tenho que ir me vender porque é o único negócio que eu aprendi na minha vida, então peço ajuda.”
“Atendo mais de dez clientes por dia”
A mulher revelou ainda que chega a atender mais de dez clientes por dia, situação que considera anormal e que, segundo afirma, contribuiu para o seu cansaço físico e emocional.
“Agora já não consigo mais essa vida, estou cansada.”
Perante a situação, diz estar disposta a aceitar qualquer oportunidade de trabalho ou uma pequena ajuda que lhe permita começar uma nova actividade e abandonar a prostituição.
“Por isso que se há oportunidade para me dar qualquer coisa, pelo menos ganhar 50,00 MT (cinquenta meticais) eu vou conseguir porque já não dá mais, esse trabalho dói muito.”
Segunda mulher relata falsas promessas de casamento
A segunda trabalhadora de sexo entrevistada também afirma que pretende abandonar a actividade, mas diz não guardar boas recordações dos relacionamentos que teve com alguns homens.
Segundo o seu relato, recentemente terá sido enganada por um professor, que lhe teria feito promessas de casamento, manteve uma relação com ela e posteriormente a abandonou.
A mulher afirma que este não teria sido um caso isolado e que, ao longo dos anos, recebeu promessas semelhantes de homens que diziam querer ajudá-la a mudar de vida.
“Eu sempre quis sair dessa vida, mas recebi muito engano dos homens que vinham, diziam que queriam mudar minha vida, enquanto tudo era máfia.”
Segundo a entrevistada, o professor teria chegado a prometer casamento, manteve relações com ela até terem um filho e, posteriormente, desapareceu.
“Por exemplo, um professor veio e me enganou que iria casar e dormiu comigo até ter um filho e me fugiu e não é o primeiro caso que acontece, então prefiro mesmo ajuda de trabalho qualquer para criar meu filho.”
As duas mulheres apelam, assim, a pessoas de boa vontade, instituições ou outras entidades que possam ajudá-las a encontrar emprego, formação ou meios para iniciar pequenos negócios, permitindo-lhes abandonar a actividade e encontrar uma nova forma de sustentar as suas famílias.
O caso foi relatado pelo Jornal Ikweli, numa reportagem assinada por Malito João.
