O que começou como uma solução inovadora para gerar rendimentos e combater o desemprego está agora a ser descrito por muitos motoristas da plataforma Yango como um verdadeiro pesadelo. Em declarações à nossa equipa, condutores em Maputo relatam perdas financeiras, jornadas extenuantes, insegurança crescente e mudanças no funcionamento do aplicativo que, segundo eles, tornaram o trabalho “inviável”.
Esses profissionais, que confiaram na Yango como caminho para sustentar as suas famílias, pagar contas e conquistar estabilidade, denunciam que a plataforma passou a impor regras desiguais, reduzindo a sua autonomia, aumentando as penalizações e diminuindo significativamente os lucros por corrida.
Menos Autonomia, Mais Pressão
De acordo com os motoristas, as recentes atualizações da aplicação restringem drasticamente o acesso a informações essenciais antes da aceitação da viagem. “Já não sabemos o valor da corrida nem o destino antes de apanhar o passageiro — só quando é muito longe é que aparece algo”, explicou um dos condutores, que pediu anonimato.
Além disso, o sistema passou a forçar a aceitação de pedidos mesmo em situações desfavoráveis. Caso o motorista recuse ou ignore, perde pontos e reduz a sua visibilidade na plataforma. “Estamos a ser punidos por tentar proteger o pouco que ganhamos. Somos obrigados a aceitar tudo, mesmo quando não compensa”, desabafa outro profissional.
Sistema de Pontos Penaliza em Vez de Premiar
A funcionalidade de pontuação implementada pela Yango — supostamente criada para premiar bons desempenhos — tem gerado revolta entre os motoristas. Enquanto uma corrida garante apenas um ou dois pontos, um simples contratempo, como um passageiro que não atende ao telefone, pode custar até 12 pontos. “Gasto combustível, perco tempo e ainda sou castigado por algo que não depende de mim”, lamenta um dos entrevistados.
Preços em Queda e Custos em Alta
A queda acentuada nas tarifas por quilómetro também é motivo de insatisfação. Os motoristas afirmam que o valor médio caiu de cerca de 60 meticais para apenas 13 meticais por quilómetro, sem qualquer correção automática em situações como congestionamentos ou subida dos combustíveis.
“Só para buscar um passageiro já gasto combustível. Se a corrida for curta, saio a perder. E ainda temos de arcar com manutenção do carro, seguros, licenças, combustível, crédito no telemóvel… e no fim a Yango ainda retira 15% da tarifa como comissão”, afirma um condutor revoltado.
Falta de Segurança e Respostas Vazias
Outro ponto crítico é a segurança. Vários motoristas relataram situações de assaltos e agressões durante o trabalho, afirmando que o suporte da plataforma é insuficiente. “A Yango diz que tem botão de emergência, mas ele não serve para nada em situações sérias. Só responde se for para casos leves como assédio verbal”, denunciou um dos condutores.
Sentimento de Abandono e Reação Fria da Empresa
A sensação generalizada entre os motoristas é de abandono e exploração. Muitos afirmam que continuam na plataforma apenas por não encontrarem outras formas de sustento. “A empresa exige muito, mas não dá retorno. Se reclamamos, não há resposta. Estamos apenas a ser usados”, conclui um dos entrevistados.
Embora alguns condutores estejam a mobilizar-se para reivindicar melhorias — incluindo reajuste nas tarifas, mais transparência nas penalizações e garantias de segurança —, até agora, as tentativas de contacto com a empresa não resultaram em respostas concretas.
Comunicado Genérico Não Convence
Confrontada com as denúncias, a Yango limitou-se a divulgar um comunicado genérico, sem responder diretamente às questões colocadas pelos motoristas. No texto, a empresa afirma estar comprometida com a segurança dos utilizadores e disponível para colaborar com as autoridades em casos graves — desde que formalmente notificada.
A nota destaca funcionalidades como o botão de conflito, a avaliação de passageiros, o envio de rotas em tempo real e a verificação facial. No entanto, evita abordar os problemas estruturais como tarifas baixas, falta de suporte em emergências e a penalização sistemática dos motoristas.
A Yango reforça que integra um grupo internacional presente em mais de 30 países e que continuará a “melhorar os seus sistemas”. No entanto, para os condutores moçambicanos, a ausência de diálogo e de medidas concretas apenas agrava a percepção de que estão a ser negligenciados.
