Ao retornar recentemente de uma viagem pela Europa, no dia 17 deste mês, chamou-me atenção a imagem em destaque de Daniel Chapo no Aeroporto Internacional de Maputo. Uma grande fotografia do atual Presidente encontrava-se exposta na área de chegadas, como se fosse um outdoor. Mais adiante, dentro do átrio principal, uma imagem ainda maior reforçava essa presença simbólica.
Durante suas aparições públicas, Chapo tem demonstrado um comportamento que muitos interpretam como uma tentativa constante de se afirmar como verdadeiro Presidente da República — apesar de não contar com o apoio de cerca de 70% do eleitorado. Em vez de abordar propostas concretas, frequentemente dirige suas falas ao seu principal adversário, Venâncio Mondlane (VM7), o que reforça a ideia de que Chapo vive um dilema interno de autoafirmação e busca de legitimidade.
Recentemente, em declarações que geraram ampla controvérsia, Chapo afirmou que as manifestações pós-eleitorais teriam causado mais destruição que a guerra civil de 16 anos em Moçambique — um conflito que deixou marcas profundas no país. Só em número de deslocados, estima-se que a guerra tenha forçado o abandono de seus lares por mais de 5 milhões de moçambicanos. Houve também centenas de milhares de amputações causadas por minas terrestres, além de quase dois milhões de mortos, entre 1976 e 1992, incluindo civis que teriam sido vítimas de ações atribuídas à FRELIMO.
O próprio Adriano Nuvunga, conhecido ativista e académico moçambicano, já revelou publicamente que seu pai foi assassinado durante esse período, supostamente por grupos ligados à supressão de denúncias contra o regime. Ele afirmou que a FRELIMO se beneficiou economicamente com a guerra, e que silenciava aqueles que pretendiam denunciar tais práticas.
Dinis Tivane, comentador político e jurista, também criticou duramente as palavras de Chapo. Em entrevista a um canal local, afirmou:
“Comparar manifestações civis à guerra dos 16 anos é uma afronta à memória coletiva do povo moçambicano. É uma declaração infeliz, desprovida de sensibilidade histórica e humana. A guerra civil foi um período de dor, sofrimento e mortes massivas. As manifestações são um exercício legítimo de protesto, ainda que contestado.”
Tivane acrescentou ainda:
“Precisamos de líderes que curem feridas, não que as reabram por conveniência política. Um Presidente eleito de forma legítima não teme o confronto com a verdade e não utiliza tragédias para justificar sua fragilidade institucional.”
A tentativa de Daniel Chapo de comparar os protestos recentes contra os resultados eleitorais com a brutalidade e o sofrimento da guerra civil é vista por muitos como irresponsável. Para diversos analistas e cidadãos, esse tipo de retórica apenas acentua as feridas históricas e revela o distanciamento do Presidente da realidade vivida pela população.
Lideranças legítimas teriam como prioridade unir o povo moçambicano, promovendo a reconciliação nacional, e não reavivar memórias dolorosas com comparações consideradas infelizes. Essa abordagem, para muitos, é um insulto às vítimas de um conflito causado justamente pela ausência de democracia no país.
O sentimento que fica é de profunda tristeza: por que Moçambique tem de suportar tamanhos retrocessos?
