Cabo Delgado: Fome, stress e fatores socioculturais estão na origem de desmaios escolares, aponta estudo do INS

Um levantamento realizado pelo Instituto Nacional de Saúde (INS) em Cabo Delgado, com foco nos distritos de Pemba, Metuge e Mecúfi, indica que a fome, o stress e determinados fatores socioculturais estão entre as principais causas de desmaios nas escolas, atingindo principalmente as alunas.

O estudo, apresentado esta segunda-feira, 16 de março, pelo delegado do INS Álvaro Floriano Ernesto, identifica três dimensões explicativas: biomédica, psicológica e sociocultural, todas associadas aos episódios recorrentes de desmaios no meio escolar. A apresentação ocorreu em conferência de imprensa na cidade de Pemba, no âmbito da pesquisa sobre o fenômeno de contágio emocional nas escolas.

Na vertente biomédica, os desmaios estão relacionados a alterações hormonais, especialmente em meninas de 10 a 18 anos, período de transição para a adolescência e início da vida adulta. A hipoglicemia — falta de açúcar no organismo — e o stress, com maior incidência entre populações deslocadas pela crise humanitária, são apontados como fatores determinantes. Ernesto também destacou que a menarca e a epilepsia podem contribuir para os episódios.

“Identificamos que a fome, tecnicamente hipoglicemia, e o stress relacionado à deslocação forçada são fatores significativos. A menarca e a epilepsia também influenciam este fenômeno”, afirmou o delegado.

No aspecto psicológico, o estudo aponta a ocorrência de crises histéricas e transtornos fóbico-confusionais entre os alunos afetados. Já na esfera sociocultural, são mencionadas práticas espirituais locais, conhecidas como “madgine”, uso precoce de anticoncepcionais, recurso ao curandeirismo e superlotação das salas, com algumas turmas chegando a 80 estudantes.

Embora o problema atinja majoritariamente meninas, cerca de 6% dos casos envolvem meninos, segundo estimativas do INS. Ernesto explicou ainda que, embora a maioria dos episódios ocorra nas escolas, casos também são observados em comunidades locais.
“Não se restringe às escolas, mas a maior parte dos casos, quase 80%, ocorre no ambiente escolar, afetando estudantes entre 10 e 18 anos”, destacou.

Quanto às recomendações, o estudo sugere ações voltadas para o setor educacional e a sociedade em geral, incluindo a criação de instrumentos de monitoramento do fenômeno e o envolvimento de líderes comunitários, respeitando diferenças culturais e religiosas.

O delegado esclareceu que a pesquisa não entrevistou diretamente os estudantes afetados, já que o estudo foi realizado durante as férias escolares.

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