Moçambique concluiu o pagamento total da sua dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI), numa operação considerada importante do ponto de vista institucional, embora o impacto económico imediato seja considerado reduzido por analistas financeiros.
Apesar de a liquidação reforçar a credibilidade externa do país, especialistas indicam que o reembolso não deverá aliviar significativamente, no curto prazo, a pressão sobre a tesouraria do Estado nem alterar de forma substancial o cenário da sustentabilidade da dívida pública.
Dados do FMI mostram que o saldo da dívida pendente passou de 514,04 milhões de direitos de saque especiais no final de fevereiro para zero no dia 27 de março, após o pagamento total do montante, sem novos desembolsos durante esse período.
Na prática, o valor pago corresponde a cerca de 701,4 milhões de dólares. Segundo uma análise do Standard Bank, esta era uma das dívidas externas com condições mais favoráveis na carteira do Estado, pelo que a sua liquidação deverá ter um efeito limitado no alívio da liquidez do país.
O montante amortizado representa aproximadamente 3,1% do Produto Interno Bruto estimado para 2025. No entanto, o quadro geral da dívida pública continua a exigir cautela. A dívida total de Moçambique, incluindo o Governo e algumas empresas públicas, aumentou 4,7% em 2025, atingindo cerca de 1,132 biliões de meticais, o equivalente a 79,1% do PIB, acima dos 74,4% registados no ano anterior.
A estrutura da dívida também revela algumas fragilidades. Enquanto a dívida externa do Governo diminuiu 2,4%, devido ao acesso limitado a novos financiamentos externos, a dívida interna aumentou 16,5%, atingindo 474 mil milhões de meticais, num contexto de menor arrecadação de receitas públicas. Na prática, a redução da dívida externa foi compensada pelo aumento do financiamento interno.
Analistas indicam ainda que o pagamento ao FMI poderá reduzir as reservas cambiais do país, que estavam em cerca de 4,2 mil milhões de dólares em dezembro de 2025, para aproximadamente 3,5 mil milhões de dólares, o que corresponde a cerca de cinco meses de importações, excluindo grandes projetos.
Do ponto de vista institucional, a liquidação da dívida representa, contudo, um avanço importante, pois elimina a necessidade de uma avaliação pós-financiamento prevista pelo FMI para agosto deste ano. Ao mesmo tempo, continuam as negociações para um novo programa de apoio financeiro, que poderão avançar nas próximas reuniões internacionais do Fundo.
Mesmo assim, especialistas alertam que o pagamento ao FMI resolve apenas parte do problema, uma vez que continuam os desafios relacionados com a tesouraria do Estado, a fragilidade das contas públicas, a dependência de financiamento e a sustentabilidade da dívida num contexto económico internacional mais exigente.
Fonte: Diário Econômico
