Comércio de carvão nas ruas de Moçambique resiste como sustento familiar face à ascensão do gás

MAPUTO, 13 de abril de 2026 — No pulsar constante do bairro de Benfica, em Maputo, a poeira negra que cobre o chão de uma rua estreita conta a história de décadas de sobrevivência. Desde 1991, Rute Manhiça transforma sacos de carvão no sustento, educação e futuro dos seus quatro filhos. Embora o negócio tenha garantido diplomas universitários à sua descendência, a comerciante enfrenta agora a ameaça crescente da modernização energética.

​O Rosto da Economia Informal

​O posto de Rute é um dos quatro localizados numa via movimentada, rodeada por construções precárias e pequenos comércios. Aos 60 anos, ela recorda à Lusa que entrou no ramo incentivada por amigas. O seu percurso é um espelho da vasta economia informal de Moçambique — um setor que emprega cerca de 13 milhões de pessoas e representa mais de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

​Para Rute, estas estatísticas traduzem-se numa rotina rígida: das 07:30 às 19:00, ela permanece entre os sacos de carvão, enfrentando o peso do cansaço e a passagem do tempo com a resiliência de quem não teve outra alternativa após a morte do marido, em 2001.

​”Quando o meu marido faleceu, consegui mandar os meus filhos à escola. Estudaram, alguns até tiraram doutoramentos”, partilha com orgulho, destacando que o carvão também lhe permitiu transformar a sua antiga casa de colmo numa habitação de blocos com casa de banho.

​O Declínio perante a “Modernidade”

​Apesar das conquistas passadas, o cenário atual é desolador. Rute nota que os hábitos de consumo mudaram drasticamente. Com a popularização do gás e dos fogões elétricos, as vendas caíram em flecha. Se outrora conseguia faturar 2.000 meticais (cerca de 26,8 euros) num dia, hoje dá-se por satisfeita se regressar a casa com 500 meticais (seis euros).

​”Hoje em dia é muito difícil; só dá para comer. Às vezes vou dormir sem comer porque as pessoas não compram”, lamenta, admitindo que abandonaria o negócio imediatamente se surgisse outra oportunidade.

​Histórias de Guerra e Sobrevivência

​Lado a lado com Rute está Lina Manhiça, de 64 anos. A sua jornada no Benfica começou em 1992, empurrada pelas deslocações forçadas da guerra. Natural de Marracuene, Lina também encontrou no carvão a âncora para sustentar quatro filhos após ficar viúva.

​Tal como a vizinha, Lina utilizou os lucros para erguer a sua própria casa e investir na escolaridade dos filhos. Contudo, o aumento do custo de aquisição do produto — que chega a custar 2.200 meticais (29,49 euros) por carga — esmaga as margens de lucro.

​”Agora não conseguimos ganhar dinheiro como antes”, explica Lina. Com as mãos e o olhar marcados por anos de trabalho árduo, ela descreve um ciclo de subsistência onde o que é vendido num dia é imediatamente consumido pela alimentação diária, impossibilitando qualquer poupança. Mesmo perante a crise, a persistência mantém-se: “Não desistimos, estamos aqui para ganhar o dinheiro do banho e da comida.”

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