O mercado global de alumínio está à beira de um colapso sem paralelo. O alerta foi deixado pela prestigiada consultora escocesa Wood Mackenzie, que aponta o dedo a dois grandes catalisadores: a escalada do conflito no Médio Oriente e a escassez crítica de energia a preços viáveis. Esta tempestade perfeita, que já forçou o encerramento temporário da fundição Mozal na província de Maputo, ameaça desferir um golpe severo em indústrias vitais como a construção civil, os transportes, as embalagens e as energias renováveis.
O Colapso da Produção no Golfo
Numa análise citada pelo portal Engineering News, a consultora descreve um cenário de destruição e bloqueio nas infra-estruturas do Médio Oriente:
- Emirates Global Aluminium: Em Março, a sua fundição de Al Taweelah foi alvo de um ataque com mísseis. A Wood Mackenzie avisa que, mesmo que o conflito terminasse hoje, a empresa precisaria de até um ano para reparar os estragos.
- Aluminium Bahrain: A maior unidade de produção num único local fora da China também foi atingida. Embora a extensão dos danos ainda esteja sob avaliação, a fábrica já se encontrava a operar com capacidade reduzida antes do ataque.
- Qatar Aluminium: Foi forçada a abrandar a produção devido a fortes restrições no fornecimento energético.
Para agravar o quadro, as restrições à navegação no Estreito de Ormuz estão a asfixiar a chegada de matérias-primas. Com os stocks das fundições a esgotarem-se rapidamente, a estimativa é que o défice de oferta global dispare até aos quatro milhões de toneladas métricas no decurso deste ano.
Caos na LME e o Impacto no Ocidente
Os compradores ocidentais estão na linha da frente para sofrer as piores consequências. No passado, o défice seria coberto pelas reservas da Bolsa de Metais de Londres (LME), mas os armazéns apresentam níveis de stock cada vez mais reduzidos.
O bloqueio ao metal russo — que contabilizava 270 mil toneladas na LME no final de Março e que os ocidentais não podem adquirir devido às sanções resultantes da invasão à Ucrânia — desencadeou uma guerra frenética pelas reservas restantes. Um exemplo da enorme volatilidade do mercado ocorreu na primeira semana de Março: um operador cancelou a compra de 98 mil toneladas de alumínio indiano registado na LME, para ser forçado a recomprar a maioria do lote dias depois, quando as margens de tempo dispararam descontroladamente.
O Efeito Dominó da Energia e a Mozal
Em teoria, a Europa e os Estados Unidos têm fundições inativas que poderiam ser reativadas para suprir a falta de metal. Contudo, a Wood Mackenzie relembra que essas infra-estruturas foram desativadas durante crises energéticas anteriores e a energia continua a ser um obstáculo.
A falta de energia acessível já ditava o fecho de fábricas mesmo antes da instabilidade no Golfo. O caso da Mozal, em Moçambique, é emblemático. Controlada maioritariamente pela empresa australiana South32, a unidade teve de ser colocada em regime de manutenção e conservação depois de fracassarem as negociações para garantir um contrato de fornecimento elétrico economicamente sustentável.
Um Défice Inevitável de 18 Meses
A conclusão da consultora escocesa não deixa margem para otimismo: mesmo tendo em conta uma maior aposta na reciclagem e uma quebra na procura industrial face aos altos custos da energia, “não há como escapar a um grande défice no mercado global de alumínio nos próximos 18 meses”. Esta escassez vai atingir o Ocidente de forma desproporcional, colocando uma enorme pressão sobre os governos para tomarem decisões difíceis no curto prazo.
