O recente reajuste nos preços dos combustíveis não foi suficiente para travar a crise de abastecimento sem precedentes que paralisa os principais centros urbanos de Moçambique. A Associação Moçambicana de Empresas Petrolíferas (AMEPETROL) reitera que a raiz do problema reside na escassez de moeda externa (divisas) no país, o que impede as gasolineiras de emitirem as garantias bancárias necessárias para importar o produto.
Em declarações ao portal Carta, o Secretário-Geral da AMEPETROL, Ricardo Cumbe, explicou a dinâmica do estrangulamento financeiro. “Sempre deixamos claro que a crise estava associada às dificuldades de emissão de garantias bancárias para cobrir as novas encomendas”, afirmou. Cumbe acrescentou que esta limitação financeira agrava-se face à subida dos custos operacionais na origem — como fretes e seguros —, inflacionados pelo atual conflito no Médio Oriente.
O cenário interno complica-se ainda mais com a recusa do Banco de Moçambique em equacionar o regresso aos subsídios para a fatura de combustíveis, uma medida de alívio que a instituição central suspendeu em meados de 2023.
O Impacto do Reajuste e o Risco de Contrabando
Avaliando a recente subida dos preços ditada pelo Governo, o Secretário-Geral da AMEPETROL reconheceu que a medida obedeceu estritamente aos ditames da lei e aos cálculos do regulador. No entanto, deixou um alerta: como a fórmula usa a média ponderada dos custos dos últimos dois meses, a atualização não será rápida o suficiente para esbater a diferença de preços entre Moçambique e as nações vizinhas. Consequentemente, o país continuará a sofrer pressão por parte de consumidores de toda a região da África Austral.
Cumbe alertou também para o perigo iminente do açambarcamento. As variações tarifárias, segundo o responsável, abrem espaço para o “oportunismo interno e externo”, fomentando o mercado paralelo e a venda perigosa de combustíveis em recipientes inadequados.
Petróleo a 109 Dólares e o Bloqueio em Ormuz
O sufoco moçambicano é o reflexo direto de um mercado internacional em ebulição. De acordo com a Economic Trading, o preço do barril de petróleo bruto (Brent) disparou 8,1% numa única semana, ultrapassando os 109 dólares na última sexta-feira. A escalada deve-se ao bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz, uma artéria vital para o tráfego energético global. Com o processo de paz no Médio Oriente estagnado, os receios de uma crise de inflação global intensificam-se.
A geopolítica também tem contribuído para a incerteza. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gerou confusão nos mercados com mensagens contraditórias. Após afirmar, num primeiro momento, que os EUA não precisavam que o Estreito estivesse aberto, recuou pouco depois. Ao lado do presidente chinês, Xi Jinping, Trump declarou taxativamente: “Queremos os estreitos abertos.”
Para agravar o panorama, a Agência Internacional de Energia (AIE) emitiu um aviso contundente na semana passada. A organização estima que o mundo enfrentará um grave subabastecimento de petróleo até ao mês de outubro, mesmo que os confrontos armados terminem no próximo mês. Com o trânsito de petroleiros severamente restringido e apenas algumas embarcações a conseguirem sair do Golfo Pérsico, as reservas globais continuam a apertar drasticamente.
