A instabilidade interna continua a marcar o percurso do partido Podemos, que, apesar de ter alcançado um feito histórico ao conquistar, pela primeira vez, representação na Assembleia da República e tornar-se a segunda maior força política do país, enfrenta sucessivos conflitos entre membros da sua liderança e diferentes sectores da organização.
Criado em 2019, o partido conseguiu nas eleições gerais de 2024 entrar no Parlamento, ultrapassando a Renamo em número de assentos, depois de ter concorrido em aliança com o político Venâncio Mondlane, através de um acordo estabelecido entre as duas partes. Contudo, após o escrutínio, surgiram divergências entre Mondlane e a liderança do Podemos, com o político a acusar o partido, dirigido por Albino Forquilha, de ter violado os termos do entendimento firmado.
Quando parecia haver sinais de estabilização, novas disputas internas vieram à tona. Alberto Ferreira, antigo membro da Renamo que ingressou no Podemos, acusou a liderança do partido de manipular o processo eleitoral interno para escolha do secretário-geral, alegando que Albino Forquilha e Sebastião Mussanhane, então secretário-geral, pretendiam colocar no cargo uma pessoa da sua confiança.
Segundo Alberto Ferreira, a direcção do partido estaria a violar as regras internas para favorecer interesses próprios. Perante o conflito, Ferreira recorreu aos tribunais através de várias providências cautelares, tendo obtido decisões favoráveis.
Diante da situação, o Podemos acabou por encontrar uma solução para acomodar Alberto Ferreira num outro cargo, levando-o a desistir das acções judiciais. O político passou então a representar o partido na Comissão Técnica para o Diálogo Nacional Inclusivo (COTE), enquanto Caetano Mussacaze, considerado próximo de Albino Forquilha, assumiu o cargo de secretário-geral.
Deputado Carlos Tembe leva partido aos tribunais
Pouco tempo depois, outro conflito voltou a envolver o Podemos. Desta vez, o deputado Carlos Tembe entrou em confronto com a direcção do partido, alegando que a liderança de Albino Forquilha não estaria a cumprir os termos de um acordo estabelecido com a Associação Solidariedade Cívica de Moçambique, organização que terá contribuído para a entrada do partido no Parlamento.
Uma das principais reivindicações do grupo ligado a Carlos Tembe está relacionada com a partilha de benefícios financeiros e materiais. Segundo informações, dos 43 deputados eleitos pelo Podemos, 15 seriam provenientes da Associação Solidariedade Cívica de Moçambique, razão pela qual a organização exige participação nas decisões políticas, administrativas e financeiras do partido, conforme previsto no acordo firmado.
Críticas internas e suspensões
No seio do partido, outro quadro de destaque, Hélder Mendonça, antigo secretário-geral do Podemos, também levantou críticas ao modelo de gestão da organização.
Mendonça questionou a forma como os membros são escolhidos e apontou falta de transparência na gestão das contas do partido. Defendeu uma estrutura administrativa e financeira mais aberta e descentralizada, diferente de um modelo concentrado em torno do presidente do partido.
Na sequência das críticas, Hélder Mendonça acabou suspenso do Podemos, assim como outros membros que manifestaram posições contrárias à liderança.
Caso Fernando Jone chega ao Conselho Constitucional
Enquanto o partido ainda enfrentava estas divergências, surgiu um novo conflito envolvendo Fernando Jone, deputado e um dos fundadores do Podemos.
A liderança do partido alegou ter perdido confiança política no parlamentar, apontando, entre outros motivos, críticas feitas por Jone sobre a gestão dos fundos da organização, que considerava pouco transparente.
Como consequência, o Podemos decidiu substituir Fernando Jone por Carlos Tembe no cargo de 2.º vice-presidente da Assembleia da República, uma decisão que marcou um momento inédito no período multipartidário do país, ao afastar um titular daquele cargo.
Inconformado com a decisão, Fernando Jone recorreu ao Conselho Constitucional, que acabou por lhe dar razão através do Acórdão n.º 5/CC/2026, de 21 de Julho.
No documento, o Conselho Constitucional decidiu “declarar nula a resolução n.º 6/2026, de 3 de Junho, que elegeu o senhor deputado Carlos Tembe para o cargo de 2.º vice-presidente da Assembleia da República, por inexistência de prévia e válida cessação das funções do anterior titular”, referindo-se a Fernando Jone.
O órgão determinou igualmente a reposição de Fernando Jone no cargo de 2.º vice-presidente da Assembleia da República, com a recuperação da situação jurídica anterior e todas as consequências legais resultantes da decisão.
As decisões do Conselho Constitucional são obrigatórias para todas as entidades e não admitem recurso, significando que o partido Podemos deverá cumprir a determinação do órgão máximo de fiscalização constitucional.
