O mercado mundial de gás natural liquefeito (GNL) está a entrar numa nova fase de forte expansão, impulsionada pelo aumento da procura por segurança energética, pelo lançamento de novos projetos e pela crescente concorrência entre os países exportadores. Neste cenário, Moçambique surge como um dos países com maior potencial para liderar a próxima vaga de fornecimento global de GNL.
De acordo com o World LNG Report 2026, publicado pela International Gas Union (IGU), Moçambique integra o grupo de países com maior capacidade projetada de crescimento no setor, graças a uma carteira de projetos com capacidade combinada estimada em 45 milhões de toneladas por ano, considerada a maior de África. Estes projetos concentram-se sobretudo na Bacia do Rovuma, envolvendo as Áreas 1 e 4.
O relatório destaca que o gás natural liquefeito deixou de ser apenas uma mercadoria energética para assumir um papel estratégico na geopolítica, na segurança do abastecimento, na reorganização das rotas comerciais e na competitividade industrial. Para Moçambique, o desafio passa agora por transformar as suas vastas reservas de gás em produção regular, receitas públicas sustentáveis, desenvolvimento de competências nacionais e novas cadeias de valor.
Comércio mundial continua a crescer
Segundo a IGU, o comércio global de GNL atingiu 436,98 milhões de toneladas em 2025, um crescimento de 25,74 milhões de toneladas, equivalente a 6,3%, em comparação com o ano anterior. O mercado passou a ligar 24 países exportadores a 50 mercados importadores.
O aumento da produção foi impulsionado sobretudo pelos Estados Unidos, Qatar, Canadá, Malásia, Angola e Nigéria, enquanto a procura europeia voltou a crescer devido à necessidade de substituir parte do fornecimento de gás por gasodutos e reforçar a segurança energética.
Ao mesmo tempo, a capacidade mundial de liquefação alcançou 524,5 milhões de toneladas por ano no final de 2025, após um aumento de 30,1 milhões de toneladas durante o ano, com a entrada em funcionamento de novas unidades nos Estados Unidos, Canadá, Mauritânia, Senegal e Rússia.
Moçambique destaca-se em África
O relatório identifica África como uma das regiões com maior potencial para aumentar a produção de GNL, com cerca de 121,1 milhões de toneladas por ano de capacidade proposta. Dentro desse volume, Moçambique possui a maior carteira de projetos do continente, estimada em cerca de 45 milhões de toneladas anuais.
Este potencial resulta principalmente do desenvolvimento da Área 4, que inclui os projetos Coral Sul, Coral Norte e Rovuma LNG, bem como do projeto Mozambique LNG, localizado na Área 1, além de outras oportunidades de expansão offshore na Bacia do Rovuma.
Apesar disso, a IGU alerta que esta capacidade continua dependente de decisões finais de investimento, financiamento, contratos de compra e venda, evolução dos preços internacionais, desenvolvimento de infraestruturas e estabilidade operacional.
Coral Norte representa o maior avanço recente
O progresso mais significativo registado em 2025 foi a aprovação do projeto Coral Norte FLNG, com capacidade de 3,6 milhões de toneladas por ano, localizado a cerca de 55 quilómetros da costa, na Área 4 da Bacia do Rovuma.
Segundo a IGU, a nova unidade será semelhante ao Coral Sul, utilizando poços submarinos ligados diretamente a uma plataforma flutuante onde o gás será processado, liquefeito, armazenado e transferido para navios de transporte.
Este modelo offshore reduz a exposição aos problemas de segurança em terra e às limitações de infraestruturas, permitindo aproveitar a experiência adquirida com o Coral Sul e diminuir parte dos riscos associados a projetos de grande dimensão.
O projeto Coral Sul, com capacidade nominal de 3,4 milhões de toneladas por ano, iniciou operações em outubro de 2022 e operou perto da capacidade máxima durante 2024 e 2025. Com a entrada do Coral Norte, a capacidade flutuante de produção de GNL em Moçambique deverá ultrapassar sete milhões de toneladas por ano.
Segurança em Cabo Delgado continua a ser um desafio
Embora os projetos flutuantes estejam a avançar, o relatório refere que o verdadeiro potencial de Moçambique depende da concretização dos projetos em terra.
A IGU assinala que os projetos Rovuma LNG, na Área 4, e Mozambique LNG, na Área 1, continuam a enfrentar atrasos devido à situação de segurança na província de Cabo Delgado.
O Rovuma LNG é apresentado com uma capacidade potencial de 18 milhões de toneladas por ano, numa configuração revista e mais modular do que a inicialmente prevista. Já o Mozambique LNG continua a ser considerado uma peça central da futura capacidade exportadora do país.
Segundo o relatório, a concretização destes projetos poderá alterar significativamente a posição de Moçambique no comércio mundial de energia. Contudo, esse objetivo dependerá da estabilidade da segurança, da confiança dos investidores, da capacidade de execução, da previsibilidade regulatória, da estabilidade social e da coordenação eficaz entre investidores, Estado e comunidades locais.
O World LNG Report 2026 conclui que Moçambique reúne condições para desempenhar um papel de destaque na próxima geração de fornecimento mundial de gás natural liquefeito, desde que avance com os projetos offshore, retome os empreendimentos em terra e aumente a participação nacional na cadeia de valor do setor.
