Aos 24 anos, Nívea Alice Pambo já carrega uma história de empreendedorismo iniciada ainda na infância. Apaixonada por negócios desde pequena, começou a vender produtos no Mercado Fajardo, na cidade de Maputo, quando tinha apenas 12 anos.
Na época, a jovem decidiu ajudar a mãe a fazer face às despesas familiares e, ao mesmo tempo, manter-se ocupada durante os períodos livres. Anos depois, Nívea conseguiu concluir a licenciatura em Biomedicina Laboratorial pela Universidade Àquila, formação que pretende colocar ao serviço do país através da realização de pesquisas na área médica.
A actividade que iniciou na adolescência continua a fazer parte da sua vida. Ao lado da mãe, Nívea dedica-se à venda a grosso e a retalho de diferentes legumes e hortícolas, entre eles tomate, cebola, pepino e batata-reno.
Como tudo começou
A entrada de Nívea no comércio aconteceu quando a mãe deixou de ter disponibilidade para permanecer no mercado durante todo o dia. Foi então que o irmão mais velho sugeriu que ela assumisse a actividade nos períodos em que a progenitora estivesse ausente.
Nos primeiros tempos, o irmão acompanhava-a ao mercado e ensinava-lhe os primeiros passos do negócio, incluindo a forma de vender e conquistar clientes. Porém, pouco depois, ele deixou de conseguir acompanhá-la porque precisava frequentar a faculdade.
Sem o apoio diário do irmão e ainda com pouca experiência comercial, Nívea teve de aprender, por conta própria, como funcionava o mercado e continuar com as vendas.
“Meu irmão já não podia ficar aqui no mercado comigo, porque tinha que ir à faculdade e para ele se tornou difícil conciliar as duas actividades. Sem saber muita coisa sobre negócio, fui obrigada a entender como o mercado funciona e continuar a vender”, conta.
Foi justamente durante esse processo de adaptação que a jovem começou a desenvolver uma verdadeira paixão pelo comércio. Para Nívea, o negócio representava uma oportunidade de obter uma fonte adicional de rendimento, conquistar independência financeira e manter-se concentrada em actividades produtivas.
Ela acredita ainda que ter começado a trabalhar tão cedo contribuiu para que permanecesse afastada de caminhos que poderiam prejudicar o seu futuro e ajudou-a a preservar os valores transmitidos pelos seus pais.
“Eu podia ter parado de vender algum tempo depois, mas não quis, então vinha vender no período da manhã e depois ia à escola. Saía de lá e vinha vender, minha rotina era essa. Estava sempre ocupada e não tinha tempo para brincadeiras. Aqui no mercado aprendi muita coisa, sobretudo, a preservar a boa educação que meus pais me transmitiram”, explica.
Do mercado para a universidade
Depois de concluir o ensino médio, Nívea precisou dar o passo seguinte e ingressar no ensino superior.
O seu primeiro objectivo era tornar-se médica. Por isso, candidatou-se à Universidade Eduardo Mondlane, mas não conseguiu uma vaga.
Em vez de desistir, começou a pesquisar outras opções e acabou por descobrir a Biomedicina Laboratorial, área pela qual ficou fascinada.
“Concorri para a Universidade Eduardo Mondlane, porque sonhava em ser médica, mas não admiti, daí comecei a fazer pesquisas e fiquei fascinada pelo curso de Biomedicina Laboratorial, então inscrevi-me numa universidade privada e com os lucros que fazia consegui garantir a minha formação”, partilha.
Para conseguir concluir a formação, a jovem diz que precisou de manter o foco e ser persistente. Por isso, considera que a banca onde comercializa tomate e outros produtos representa muito mais do que simplesmente um pequeno negócio.
“Foi necessário manter o foco e persistência, então isso é mais do que uma banca ou um pequeno negócio, pois é onde conquistei boa parte das coisas que eu sonhava”, afirma.
O comércio de hortícolas também possui um significado especial para a família. Foi através da mesma actividade que a mãe de Nívea conseguiu obter rendimentos para sustentar os seus cinco filhos.
Segundo a jovem, a mãe está entre as fundadoras do Mercado Fajardo e comercializa tomate desde os primeiros tempos da sua actividade.
“Minha mãe é uma das fundadoras do mercado e desde aquela época ela vende tomate. É através desse negócio que nunca faltou pão na mesa e, hoje, eu orgulho-me de também ter seguido por este caminho”.
Um ambiente desafiante
Apesar das oportunidades que encontrou no comércio, Nívea rapidamente percebeu que trabalhar num mercado não seria uma tarefa simples. O ambiente, onde diversas pessoas procuram diariamente garantir o sustento próprio e das suas famílias, apresenta desafios particulares para as mulheres.
Durante a sua experiência, a jovem conta ter sido várias vezes alvo de assédio e de propostas acompanhadas de promessas de uma suposta “vida melhor”.
Segundo Nívea, essas situações não partiam apenas dos clientes. Alguns colegas de trabalho também lhe dirigiam elogios e comportamentos que considerava desagradáveis, principalmente nos momentos em que a mãe não estava presente.
“Confesso que este não é um ambiente fácil. Aqui também há muitas tentações. Existem jovens que se perdem quando não conseguem manter o foco. Há muita gente que vêm me assediar, mas sempre deixo claro que, aqui, venho trabalhar e não para me relacionar com clientes ou colegas. Meu objectivo é apenas fazer dinheiro”, garante.
Para a empreendedora, o próprio acto de empreender está longe de ser fácil. Ela reconhece que existem períodos de dificuldades e até perdas, mas defende que é justamente nesses momentos que se deve demonstrar resistência e determinação.
Na sua perspectiva, é fundamental manter pensamentos positivos, olhar para o futuro e não desistir, independentemente das dificuldades encontradas pelo caminho.
Um apelo às mulheres
Com base na própria experiência, Nívea deixa uma mensagem às mulheres que pretendem construir o seu futuro através do empreendedorismo.
A jovem defende que é necessário manter o foco e trabalhar para alcançar os próprios sonhos, mesmo quando os recursos disponíveis são reduzidos.
Ela considera que actualmente existem muitas distracções e que algumas pessoas não reconhecem o potencial de actividades como a venda de hortícolas. No entanto, acredita que é possível construir uma vida melhor de maneira honesta, começando mesmo com poucos recursos.
“Actualmente, existem muitas distrações e poucos olham para esse negócio como algo rentável, mas é possível construir o nosso futuro de forma honesta. E sequer importa se começamos com pouco, desde que não desistamos e que não nos desviemos dos nossos princípios”.
A história de Nívea mostra como uma actividade iniciada aos 12 anos, no Mercado Fajardo, acabou por se transformar numa importante fonte de rendimento para a sua família e, posteriormente, ajudou-a a financiar a própria formação superior em Biomedicina Laboratorial.
