ROQUE SILVA

Roque Silva era tratado como “futuro presidente” e camisetes começaram a chegar antes de o Comité Central escolher o seu candidato presidencial

O antigo secretário-geral da Frelimo, Roque Silva, terá sido tratado, nos círculos do partido, como um dos principais sucessores de Filipe Nyusi muito antes da escolha formal do candidato presidencial para as eleições de 2024. A convicção em torno da sua eventual vitória teria sido tão forte que camisetes e outro material de campanha com o seu rosto e nome começaram a ser produzidos cerca de duas semanas antes da reunião do Comité Central que viria a escolher Daniel Chapo.

A informação é avançada pelo jornal Evidências, na edição de 22 de Setembro de 2026, com base em relatos e fontes ouvidas pela publicação. Segundo a investigação, o material era produzido em Durban, na África do Sul, colocado em caixas e posteriormente transportado por estrada para Moçambique.

A preparação antecipada do material é apresentada como um dos sinais da confiança existente entre os sectores que apoiavam a candidatura de Roque Silva. Na altura, embora a Comissão Política tivesse indicado os nomes que seriam submetidos ao processo de escolha, o Comité Central ainda não tinha tomado a decisão definitiva.

Material produzido antes da decisão

Segundo os relatos reunidos pelo Evidências, a produção das camisetes começou aproximadamente duas semanas antes da reunião realizada entre 3 e 5 de Maio de 2024, encontro que terminou com a escolha de Daniel Chapo como candidato presidencial da Frelimo. O material destinado a Roque Silva teria sido produzido em Durban e transportado para Moçambique antes da votação.

Parte da carga teria sido encaminhada para um armazém na Matola, onde camisetes e outro material de campanha eram concentrados antes da distribuição.

A publicação relata, citando pessoas familiarizadas com a operação, que os motoristas encarregues do transporte recebiam instruções para contactar um número específico ao chegarem à fronteira da Ponta do Ouro. Do outro lado estaria uma pessoa previamente identificada que orientaria a entrada da mercadoria.

Os relatos indicam ainda que a passagem da carga teria ocorrido sem pagamento de direitos aduaneiros e sem seguir a tramitação normal, sendo posteriormente os transportadores acompanhados por viaturas até ao local de descarga. Entre os veículos mencionados pelas fontes estão Toyota Mark X e BMW.

De acordo com a mesma descrição, existiria uma rede responsável por receber e encaminhar a mercadoria, envolvendo cidadãos de origem asiática descritos na reportagem como “monhés”.

Empresários e apoiantes apostavam na vitória

A preparação das camisetes seria apenas uma parte de uma movimentação mais ampla em torno da candidatura de Roque Silva.

Segundo fontes ouvidas pelo Evidências, empresários e apoiantes teriam sido mobilizados para sustentar a sua candidatura. A reportagem afirma que alguns empresários procuravam inclusive acesso privilegiado a espaços de influência junto do consulado de um país que acreditavam que Roque Silva viria a governar.

A confiança na vitória estaria relacionada com a percepção de que a estrutura política criada em torno da sucessão de Filipe Nyusi funcionaria a favor do então secretário-geral.

Em Maio de 2024, a Comissão Política da Frelimo apresentou Daniel Chapo, Roque Silva e Damião José como nomes para a sucessão de Filipe Nyusi. Posteriormente, sob pressão, a lista acabou por incluir também Francisco Mucanheia e Esperança Bias.

O processo acabaria, contudo, por produzir um resultado diferente daquele que os apoiantes de Roque Silva esperavam: Daniel Chapo foi escolhido como candidato presidencial da Frelimo.

Produção terá sido interrompida após a escolha de Chapo

Com a mudança do cenário político, a operação preparada em torno da candidatura de Roque Silva terá começado a ser desmontada.

Segundo os relatos publicados pelo Evidências, na noite da decisão foram dadas instruções para interromper a produção e dar destino ao material que já estava pronto, incluindo a sua destruição.

Parte do stock que permanecia na África do Sul também teria recebido orientações para ser destruído ou queimado.

A reportagem refere que centenas de caixas contendo milhares de camisetes e outro material de campanha com o rosto e o nome de Roque Silva teriam sido destruídas.

Derrota provocou saída da liderança

A escolha de Daniel Chapo teve consequências políticas imediatas para Roque Silva.

Em 5 de Maio de 2024, depois da escolha de Chapo como candidato presidencial da Frelimo, Roque Silva deixou o cargo de secretário-geral do partido e renunciou igualmente ao seu lugar na Comissão Política.

A saída encerrou uma fase em que Roque Silva ocupava uma posição de elevada exposição e influência dentro da Frelimo. Actualmente, segundo o Evidências, é apenas membro do Comité Central.

De “futuro Presidente” a figura menos presente

A edição do Evidências traça ainda um contraste entre a posição que Roque Silva ocupava durante a corrida interna de 2024 e a sua situação actual.

Durante a XI Conferência Nacional de Quadros da Frelimo, realizada entre 21 e 23 de Agosto, numa tenda montada no bairro Chitémbwe, na cidade de Chimoio, estiveram cerca de 3.000 delegados e convidados.

Segundo a publicação, Roque Silva participou no encontro, mas a sua presença teria sido bastante diferente daquela que marcou os grandes eventos partidários durante o período em que era secretário-geral.

O jornal descreve-o como uma presença menos destacada, muitas vezes circulando sozinho ou acompanhado por figuras de menor exposição política, contrastando com o período em que era apontado nos corredores da Frelimo como “futuro Presidente”.

A reportagem conclui que o afastamento dos centros de decisão, a renúncia à secretaria-geral e à Comissão Política e o posterior desaparecimento dos principais palcos políticos da Frelimo marcaram uma mudança significativa no percurso de Roque Silva.

O caso das camisetes, segundo a investigação do Evidências, tornou-se um símbolo da confiança que alguns sectores tinham depositado numa candidatura que acabou por não se concretizar. A publicação destaca que o material começou a ser produzido antes mesmo de o Comité Central escolher oficialmente o candidato presidencial.

Nota: As informações sobre a produção antecipada das camisetes, facilidades na fronteira, rede de transporte e alegadas ordens de destruição são apresentadas pelo Evidências com base em relatos de fontes ouvidas pelo jornal; não são apresentadas no documento como factos judicialmente comprovados.

Fonte: Jornal Evidências

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