Danúbio Lado abandona a ZHONGMEI, mas mantém boa relação com antigos sócios
Investigação: responsável municipal confirma saída da empresa em Novembro de 2025, nega ter investido dinheiro na aquisição da participação de 51% e esclarece contactos com o empresário chinês Hefeng Dong.
O director do Gabinete de Desenvolvimento Estratégico e Institucional (GDEI) do Conselho Municipal de Maputo, Danúbio Lado, já não integra a estrutura societária da ZHONGMEI Engineering Group, mas afirma manter uma boa relação com os antigos sócios. O responsável voltou a ser entrevistado pelo 4Vês Repórter, depois de ter sido mencionado numa investigação sobre as ligações entre empresas, empresários e projectos de obras públicas em Moçambique.
Desta vez, Danúbio Lado mostrou-se disponível para responder a várias questões relacionadas com a sua participação na empresa, que tem surgido em diferentes concursos públicos adjudicados recentemente.
A investigação do jornal tinha anteriormente associado o responsável municipal à ZHONGMEI Engineering Group com base em informações publicadas no Boletim da República. De acordo com o documento, Danúbio Lado detinha uma participação de 51% do capital social da sociedade, equivalente a 15,3 milhões de meticais, na sequência de uma cessão de quotas deliberada numa Assembleia Geral Extraordinária realizada a 1 de Março de 2024.
Entretanto, informações actualizadas indicam que o responsável já não faz parte da empresa. O seu percurso na estrutura societária começou em 2015, tendo saído em 2020, regressado em 2024 e abandonado novamente a sociedade em Novembro de 2025. Esta cronologia foi confirmada pelo próprio durante a entrevista e por meio de um documento enviado pela sua assessoria.
O Boletim da República n.º 2046, de 23 de Dezembro de 2025, confirma a saída de Danúbio Lado. Na sequência das alterações efectuadas a 20 de Novembro de 2025, a ZHONGMEI Engineering Group, Limitada, passou a deter 99% do capital social, correspondente a 29,7 milhões de meticais, enquanto Liu Weiwen ficou com os restantes 1%, equivalentes a 300 mil meticais.
Danúbio Lado diz que nunca investiu dinheiro na empresa
Questionado sobre os motivos que o levaram a abandonar a sociedade em Novembro de 2025, Danúbio Lado afirmou que a decisão resultou de questões pessoais, sem apresentar detalhes adicionais.
O responsável também foi questionado sobre a proveniência dos 15,3 milhões de meticais correspondentes à participação de 51% que detinha na empresa. Em resposta, garantiu que nunca desembolsou dinheiro para adquirir essa participação, explicando que a sua entrada na sociedade aconteceu através de amigos que conheceu durante a formação académica na China.
“Eu acho que você percebeu que não são acções, é participação nominal. É uma sociedade anónima que compra as acções. É participação nominal. Nesta participação não investi nenhum valor, foi tudo através de amigos. Sou formado na República Popular da China, fiz amizades e as mesmas convidaram-me para fazer parte da sociedade. Eu nunca cheguei a tirar dinheiro”, declarou.
Danúbio Lado realizou a sua formação académica na Nankai University, na China. Depois de concluir os estudos, integrou os quadros da Agência de Promoção de Investimento e Exportações (APIEX), onde trabalhou como técnico oficial de comunicação de marketing, desempenhando funções relacionadas com a facilitação de novos projectos de investimento e a atracção de capital estrangeiro para Moçambique.
Durante a entrevista, o responsável considerou importante esclarecer o seu vínculo profissional com o Conselho Municipal de Maputo, sublinhando que se encontra na instituição em comissão de serviço desde Junho de 2020.
“Eu não sou funcionário do município. Estou cá em comissão de serviço. Sou quadro da Agência de Promoção de Investimento e Exportações (APIEX). Não sou do município”, explicou.
Nega relação profissional com Hefeng Dong, mas confirma que o conhece
A entrevista abordou igualmente a eventual existência de uma relação profissional entre Danúbio Lado e o actual ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, tendo em conta as respectivas experiências profissionais ligadas ao Município de Maputo.
Sobre o assunto, o responsável afirmou que não existia uma ligação que justificasse a associação entre ambos, explicando que, quando João Matlombe começou a trabalhar no município, ele ainda estava a concluir a sua formação académica.
“Quando ele começou a trabalhar no município, eu era estudante. Estava a terminar a minha formação. Então, não me podem associar a pessoas com quem não tenho nenhuma relação”, afirmou.
A questão das relações empresariais ganhou relevância porque Danúbio Lado integrou anteriormente a ZHONGMEI Engineering Group, empresa que faz parte de um consórcio com a Union Portlink Capital.
A 22 de Abril de 2026, o consórcio assinou um memorando de entendimento com o Ministério dos Transportes e Logística para a construção da estrada de acesso ao Porto da Beira e do Terminal Logístico de Dondo.
O documento foi assinado pelo ministro João Matlombe e pelo empresário chinês Hefeng Dong, que representou o consórcio.
Questionado pelo 4Vês Repórter sobre a existência de uma relação com Hefeng Dong, Danúbio Lado negou manter qualquer ligação profissional com o empresário, embora tenha confirmado que o conhece.
Segundo explicou, os dois tiveram contacto quando Hefeng Dong apareceu nas instalações da APIEX, onde Danúbio Lado trabalhava. Na altura, o empresário chinês estaria ligado a uma empresa do sector dos recursos minerais.
“O cidadão Hefeng Dong é um chinês que fazia parte de uma empresa de recursos minerais. Na altura em que estava na APIEX, eles tinham umas minas. Não tenho nenhuma relação com ele. O mesmo apareceu na APIEX”, afirmou.
Apesar de negar uma relação profissional com Hefeng Dong, Danúbio Lado confirmou que continua a manter uma boa relação com os antigos sócios da ZHONGMEI Engineering Group.
“Não tenho uma relação profissional com Hefeng Dong. A relação profissional era com a ZHONGMEI, quando eu era sócio. E temos uma boa relação até agora”, declarou.
Investigação identifica ligações entre empresas e projectos públicos
A relação de proximidade que Danúbio Lado afirma manter com os antigos sócios ganha relevância no contexto da investigação, uma vez que estes continuam ligados empresarialmente a Hefeng Dong, que representou oficialmente o consórcio envolvido nos projectos relacionados com o corredor da Beira e Dondo.
O 4Vês Repórter identificou diferentes pontos de contacto entre as entidades e os intervenientes mencionados. De um lado, Danúbio Lado confirma manter boas relações com antigos sócios da ZHONGMEI; do outro, a empresa surge associada a Hefeng Dong, que também esteve nas instalações da APIEX, instituição onde o responsável municipal trabalha.
As ligações identificadas durante a investigação estendem-se a empresas e projectos nas regiões Norte, Centro e Sul de Moçambique. Ao longo do trabalho jornalístico, a ZHONGMEI e o empresário chinês Hefeng Dong surgem repetidamente como pontos de ligação entre diferentes actores empresariais e profissionais dos sectores da construção e da indústria extractiva.
O jornal voltou igualmente a encontrar Hefeng Dong associado à TZM RESOURCES, SA, empresa ligada à indústria extractiva na província da Zambézia, onde o empresário aparece como director principal. A actividade da sociedade poderá estar relacionada com o sector da empresa de recursos minerais mencionada por Danúbio Lado durante a entrevista, embora essa ligação não tenha sido estabelecida de forma conclusiva.
O cruzamento de informações permitiu ainda identificar a circulação de profissionais moçambicanos entre a Anhui Foreign Economic Construction Co., Ltd. (AFECC) e a ZHONGMEI Engineering Group.
Entre os perfis identificados encontram-se engenheiros civis, gestores ambientais ligados à área de Saúde, Segurança e Ambiente (HSE) e especialistas em salvaguardas sociais. Estes profissionais passaram pelas duas empresas em períodos diferentes e estiveram associados a projectos em províncias como Cabo Delgado, Sofala e Maputo.
As movimentações profissionais surgem no contexto da presença das empresas em diferentes empreitadas e adjudicações públicas.
AFECC executa obras de acesso ao aterro sanitário da KaTembe
A Anhui Foreign Economic Construction Co., Ltd. (AFECC) está actualmente envolvida na construção de vias de acesso ao aterro sanitário da KaTembe, no Município de Maputo. A obra integra o Projecto de Transformação Urbana de Maputo (PTUM) e é supervisionada por Danúbio Lado, na qualidade de director do Gabinete de Desenvolvimento Estratégico e Institucional do Conselho Municipal de Maputo.
Para a execução do projecto, a AFECC apresentou uma proposta no valor de 501,36 milhões de meticais, com um prazo de conclusão de 12 meses.
O concurso público, identificado pela referência MZ-CMM-374294-CW-RFB, diz respeito à construção e pavimentação de nove quilómetros de estrada com materiais betuminosos para acesso ao aterro sanitário da KaTembe, na cidade de Maputo.
A contratação foi realizada pelo Conselho Municipal de Maputo, no âmbito do PTUM, projecto co-financiado pelo Banco Mundial através da subvenção IDA D7490 MZ.
Durante a entrevista, Danúbio Lado foi confrontado com informações sobre possíveis actividades de outras empresas e profissionais identificados pelo jornal em ligação com as obras da KaTembe.
O responsável rejeitou ter informações suficientes para comentar as eventuais operações dessas entidades e afirmou que a sua ligação empresarial anterior se limitava à ZHONGMEI, não mantendo relações profissionais com as restantes empresas mencionadas.
Danúbio Lado reconheceu a AFECC como a empresa adjudicatária da empreitada e declarou que o município não tinha recebido qualquer comunicação sobre possíveis subcontratações.
“Não sei nada disso. Se acontece isso, é uma decisão da própria empresa, não interferimos. Nós adjudicámos à empresa Anhui Foreign Economic Construction Co., Ltd. (AFECC). Se ela está a trabalhar com outras empresas, não tenho informação. Para aquele trabalho, se houver outra empresa envolvida, a vencedora tem de submeter uma informação de subcontratação. E nós não recebemos nenhuma dessa informação”, afirmou.
A declaração indica que, segundo o responsável, o município não tinha sido informado oficialmente sobre a participação de outras empresas na execução do projecto.
Profissional passou pela ZHONGMEI antes de integrar as obras da KaTembe
No cruzamento de dados e informações, o 4Vês Repórter identificou o percurso de um engenheiro ambiental moçambicano que trabalhou nas duas empresas e esteve envolvido em dois grandes projectos rodoviários no país entre 2025 e 2026.
A primeira etapa da sua trajectória decorreu entre Março de 2025 e Janeiro de 2026, período em que trabalhou para a ZHONGMEI Engineering Group, em Mueda, na província de Cabo Delgado.
Na empresa, desempenhou funções de responsável de Saúde, Segurança e Ambiente (HSE) e de salvaguardas sociais no projecto de construção e reabilitação de 59 quilómetros da estrada Mueda–Nambungale.
Entre as suas principais responsabilidades estava a garantia do cumprimento das normas ambientais e sociais exigidas pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD).
Em Fevereiro de 2026, o profissional transferiu-se para Maputo, onde passou a integrar a equipa responsável pelas obras dos nove quilómetros da estrada de acesso ao aterro sanitário da KaTembe, adjudicadas à AFECC no âmbito do Projecto de Transformação Urbana de Maputo.
Inicialmente, assumiu funções de especialista ambiental e social. Em Maio de 2026, foi promovido a HSE Manager, passando a liderar as actividades de segurança no estaleiro, segundo as directrizes do Banco Mundial.
Até Outubro de 2026, acumulava nove meses de trabalho na AFECC.
Outro especialista transitou entre a AFECC e a ZHONGMEI
A investigação identificou também o percurso de outro especialista moçambicano que ocupou recentemente funções relevantes na gestão social e de segurança em dois grandes projectos de infra-estruturas rodoviárias, ao serviço da Anhui Foreign Economic Construction Co., Ltd. e da ZHONGMEI Engineering Group (Pty) Ltd.
Entre Fevereiro e Junho de 2026, o profissional trabalhou na AFECC, onde coordenou actividades relacionadas com os impactos sociais da construção dos nove quilómetros da estrada de acesso ao aterro sanitário da KaTembe, na cidade de Maputo.
Durante esse período, exerceu inicialmente funções de consultor para a mitigação da Violência Baseada no Género (GBV/SEA/SH) e, posteriormente, de especialista de interligação comunitária.
As suas responsabilidades incluíam assegurar o cumprimento das normas socioambientais estabelecidas pelo Banco Mundial, gerir os canais de reclamação e acompanhar os processos de reassentamento das populações locais.
Antes de integrar a AFECC, o mesmo profissional trabalhou na ZHONGMEI Engineering Group, na província de Cabo Delgado, entre Setembro de 2024 e Abril de 2025.
Na empresa, desempenhou funções de técnico de segurança (Safety Officer), sendo responsável pela fiscalização ambiental e pela implementação de políticas de Higiene e Segurança no Trabalho (HST).
O trabalho estava ligado às obras de reabilitação e modernização de 59 quilómetros da estrada R1251, no troço que liga Mueda a Nambungale.
A circulação destes profissionais entre as duas empresas constitui mais um dos elementos identificados pelo 4Vês Repórter no cruzamento de informações sobre as empresas envolvidas em projectos rodoviários em Moçambique.
A investigação reúne, assim, informações sobre a antiga participação societária de Danúbio Lado na ZHONGMEI, a sua relação actual com os antigos sócios, os contactos que afirma ter tido com Hefeng Dong e a presença de empresas e profissionais em diferentes projectos de infra-estruturas no país.
Danúbio Lado, por sua vez, afirma que deixou a ZHONGMEI por motivos pessoais, nega ter investido dinheiro para adquirir a participação de 51% na sociedade e rejeita manter uma relação profissional com Hefeng Dong. O responsável confirma, contudo, que continua a manter uma boa relação com os antigos sócios da empresa.
Por Nádio Jaime Taimo | 4Vês Repórter
