Uma investigação realizada por pesquisadores das universidades de Shenzhen e Shantou, na China, sugere que manter relações sexuais uma ou duas vezes por semana pode estar associado a uma menor probabilidade de desenvolver depressão. O estudo, publicado em 2025 na revista científica Journal of Affective Disorders, analisou dados de jovens adultos dos Estados Unidos.
Embora os benefícios da atividade sexual em diferentes áreas da saúde já sejam conhecidos, os seus efeitos sobre o equilíbrio psicológico ainda são pouco investigados. Os autores da pesquisa destacam que uma vida sexual ativa pode contribuir para a regulação emocional e ajudar a reduzir sintomas depressivos, embora a frequência considerada adequada varie de pessoa para pessoa.
Os investigadores analisaram informações de 15.794 norte-americanos, com idades compreendidas entre os 20 e os 59 anos. Para isso, cruzaram dados sobre a frequência de relações sexuais, relatada pelos próprios participantes, com a probabilidade de apresentarem sintomas de depressão.
Os resultados indicaram que os participantes que mantinham relações sexuais entre uma e duas vezes por semana apresentavam indicadores mais favoráveis de bem-estar psicológico e uma menor probabilidade de sofrer de depressão.
O trabalho sugere ainda que a frequência da atividade sexual pode funcionar como uma espécie de indicador biopsicossocial da condição do paciente. Nesse sentido, o psiquiatra Daniel Mori, do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), considera importante incluir a saúde sexual nas avaliações médicas e psicológicas.
Segundo o especialista, este é um assunto que ainda é pouco abordado durante as consultas, apesar da sua relevância para a compreensão do bem-estar dos pacientes.
Por sua vez, a ginecologista e obstetra Aline Ambrósio, especialista em sexualidade humana do Einstein Hospital Israelita, explica que várias investigações demonstram que a vida sexual, sobretudo quando está associada a relacionamentos afetivos saudáveis, pode produzir efeitos positivos na saúde mental e no bem-estar psicológico.
A médica destaca que, durante a atividade sexual, ocorre a libertação de neurotransmissores benéficos, como ocitocina, dopamina e serotonina, além de endocanabinoides, substâncias importantes para a regulação do humor.
Existem também evidências consistentes de que a interação social e a construção de vínculos afetivos sólidos favorecem tanto a saúde física como a psicológica. Por envolver contacto físico, intimidade e ligação emocional, a atividade sexual pode contribuir para o bem-estar.
Além disso, a prática costuma estar relacionada com relacionamentos mais cuidadosos, hábitos de vida saudáveis e uma maior sensação de pertença, factores que podem ajudar a melhorar o estado emocional.
Existe uma frequência sexual ideal?
Apesar dos resultados da investigação, os especialistas esclarecem que não existe um número mínimo de relações sexuais considerado obrigatório para garantir a saúde física e emocional.
De acordo com Aline Ambrósio, embora existam evidências de que uma maior frequência sexual está associada a melhores resultados em termos de saúde mental e bem-estar, é fundamental considerar as particularidades de cada pessoa ou casal, incluindo o contexto, o desejo e o nível de satisfação.
Daniel Mori também reforça que não existe uma quantidade universal de relações sexuais que seja adequada para todas as pessoas. Segundo o psiquiatra, o estudo identificou, ao analisar a população, uma frequência na qual os benefícios parecem ser mais expressivos, mas esse resultado deve ser entendido como uma referência científica e não como uma recomendação médica obrigatória.
O especialista acrescenta que a vida sexual deve respeitar o contexto, os valores individuais, os sentimentos, os desejos e o consentimento de cada pessoa.
Outro aspecto importante é que a investigação não avaliou a qualidade dos relacionamentos, um elemento que pode ter grande influência nos benefícios associados à atividade sexual.
Por essa razão, os especialistas alertam que os resultados demonstram uma associação, e não uma regra que todos devem seguir. Ninguém deve sentir-se pressionado a atingir determinada frequência sexual, incluindo pessoas assexuais, cuja condição não deve ser tratada como uma doença.
Antidepressivos também podem afectar a vida sexual
No que diz respeito à saúde mental, os especialistas lembram ainda que alguns medicamentos antidepressivos podem diminuir a vitalidade e o desejo sexual.
Essa situação, contudo, não deve levar os pacientes a desenvolverem sentimentos de culpa ou a cobrarem de si próprios uma determinada frequência de relações sexuais.
Daniel Mori recomenda que eventuais dificuldades relacionadas com a vida sexual sejam abordadas abertamente durante as consultas médicas, permitindo que os profissionais de saúde avaliem possíveis ajustes no tratamento, sem comprometer a qualidade de vida dos pacientes.
