A expansão da economia digital em África está a ser acompanhada por um crescimento ainda mais rápido da criminalidade informática. Um relatório da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) revela que o continente enfrenta uma ameaça crescente, impulsionada pela dimensão do mercado criminoso, pela utilização de novas tecnologias e, sobretudo, pela inteligência artificial (IA).
Os dados referentes a 2025 mostram uma África digital em plena transformação, com oportunidades significativas de desenvolvimento, mas também cada vez mais exposta à actuação de redes criminosas organizadas.
No final do ano, o continente contabilizava mais de 1,1 mil milhões de subscrições de serviços móveis, aproximadamente 570 milhões de utilizadores de Internet e um volume superior a 1,1 biliões de dólares em transacções digitais.
Contudo, o ritmo acelerado da digitalização não foi acompanhado por investimentos proporcionais na protecção das infra-estruturas, no fortalecimento das instituições, na actualização da legislação e na preparação dos profissionais responsáveis pela investigação criminal.
O mais recente African Cyberthreat Assessment Report, relatório da Interpol sobre as ameaças cibernéticas em África, caracteriza 2025 como um período de intensificação dos riscos digitais.
O documento reúne informações provenientes de 36 países, incluindo Moçambique, bem como dados fornecidos por empresas privadas de cibersegurança, autoridades policiais e outras fontes.
A análise identifica uma mudança importante na natureza do crime digital: deixou de ser apenas uma sucessão de ataques informáticos isolados e passou a funcionar como um mercado criminoso transnacional, no qual a inteligência artificial assume um papel central na aceleração das actividades ilícitas.
A transformação do crime digital num negócio
Um dos aspectos mais preocupantes identificados no relatório é a combinação entre o aumento da escala dos ataques, a automatização das operações e a personalização dos métodos utilizados pelos criminosos.
Os números demonstram a dimensão desta evolução. Os prejuízos associados ao cibercrime mais do que duplicaram entre 2024 e 2025, passando de 192 milhões para 484 milhões de dólares. No mesmo período, o número de vítimas identificadas aumentou de 35 mil para 87 mil.
As estimativas globais apontam para consequências económicas ainda mais elevadas, com danos directos de pelo menos cinco mil milhões de dólares em África durante o ano passado.
Outra transformação relevante está relacionada com a forma como os ataques são executados. Actualmente, os criminosos já não dependem necessariamente de conhecimentos técnicos avançados para explorar vulnerabilidades e comprometer sistemas informáticos.
Através da Internet clandestina, podem adquirir ferramentas, credenciais de acesso, infra-estruturas e serviços especializados para executar operações criminosas.
Este modelo é conhecido como Cybercrime-as-a-Service (CaaS), ou cibercrime como serviço, e permite que indivíduos com conhecimentos técnicos limitados realizem ataques de grande dimensão e impacto.
A inteligência artificial veio ampliar ainda mais estas capacidades, facilitando a identificação de alvos, a elaboração de mensagens fraudulentas de phishing, a criação de identidades falsas, a manipulação de vítimas através da engenharia social e determinados mecanismos de evasão dos sistemas de segurança.
Segundo o relatório, durante 2025, 55% dos casos de cibercrime analisados nos países abrangidos pela investigação recorreram à inteligência artificial.
Do ransomware aos ataques contra a economia
O ransomware, modalidade de ataque informático também conhecida como rapto digital, constitui um dos exemplos mais evidentes da evolução das ameaças cibernéticas.
Tradicionalmente, este tipo de crime consistia na encriptação de ficheiros e na exigência de pagamentos para devolver o acesso aos dados bloqueados.
Entretanto, em 2025, a ameaça ganhou uma dimensão mais abrangente, passando a colocar em risco o funcionamento de sectores essenciais das economias africanas.
Hospitais, serviços públicos, empresas de energia, telecomunicações, transportes e outras infra-estruturas críticas passaram a integrar o conjunto de alvos preferenciais, uma vez que a interrupção das suas actividades aumenta a capacidade de pressão e extorsão dos atacantes.
A região da África Austral registou a maior exposição a este tipo de ameaça. De acordo com dados da TrendAI, a África do Sul concentrou 92% das detecções de ataques de ransomware no continente.
Entre os casos destacados está um ataque contra o Serviço Meteorológico da África do Sul (South African Weather Service), que comprometeu sistemas de dados e provocou perturbações com possíveis implicações para a navegação aérea e marítima.
Na Nigéria, um ataque informático contra o serviço aduaneiro interrompeu operações de desalfandegamento e terá provocado custos de armazenamento estimados em cerca de 18 milhões de dólares.
Já no Uganda, um incidente suspeito do mesmo género afectou os sistemas de monitorização da rede eléctrica nacional.
Mais digitalização também significa maior exposição
O relatório da Interpol identificou mais de seis mil vulnerabilidades informáticas em África, concentradas sobretudo na África do Sul, no Quénia e na Nigéria, países que também apresentam os maiores números de utilizadores da Internet.
Uma parte significativa das falhas detectadas não correspondia a ameaças novas ou desconhecidas. Tratava-se, sobretudo, de equipamentos desactualizados, redes vulneráveis e plataformas de gestão documental configuradas de forma inadequada.
Eram problemas já identificados e documentados, mas que continuavam sem correcção, facilitando a sua exploração por criminosos.
A permanência destas vulnerabilidades está relacionada com deficiências na chamada higiene digital, na gestão de actualizações de segurança, na distribuição de recursos e na manutenção dos sistemas informáticos.
Esta realidade demonstra que o desafio africano não se limita à falta de tecnologia, envolvendo também problemas de governação tecnológica.
Mesmo quando são implementadas plataformas digitais sofisticadas, a sua segurança pode ficar comprometida se, por exemplo, um portal administrativo permanecer acessível a utilizadores não autorizados.
Um dos casos referidos no relatório envolve uma operadora de telecomunicações da Namíbia, cujo ataque informático expôs aproximadamente 500 mil registos pessoais e financeiros.
Neste episódio, a vulnerabilidade não resultou de uma operação tecnologicamente extraordinária, mas da existência de um portal administrativo sem protecção adequada.
Legislação avança, mas aplicação continua a ser um desafio
No domínio legislativo, o relatório indica que 17 países africanos aprovaram ou introduziram alterações nas leis relacionadas com o cibercrime durante 2025. Moçambique não integra este grupo de países.
Entre os exemplos apresentados, o Burkina Faso criou uma plataforma para apresentação de denúncias e adoptou uma estratégia nacional, seguindo uma iniciativa semelhante à de Angola.
A Costa do Marfim aprovou um novo quadro de segurança digital, enquanto a Zâmbia começou a implementar uma nova legislação nesta área.
As Ilhas Maurícias, por sua vez, avançaram com um plano de transformação digital.
Apesar destes progressos, a Interpol identifica dificuldades na aplicação efectiva das leis aprovadas. As definições legais continuam a variar entre os diferentes países e os critérios para aceitação de provas electrónicas não são uniformes.
O relatório aponta igualmente para demoras nos pedidos de assistência jurídica mútua, diferenças nas regras de conservação de dados e falta de tratamento jurídico equivalente para crimes emergentes facilitados pelas plataformas digitais.
Desta forma, embora vários países africanos estejam a reforçar os seus instrumentos legais e tecnológicos, a capacidade de resposta às ameaças digitais continua a enfrentar desafios relacionados com a aplicação das leis, a cooperação internacional e a protecção das infra-estruturas.
Fonte: Diário Económico
