Washington / Monróvia – Um momento diplomático que parecia inofensivo rapidamente se transformou em controvérsia internacional. Durante um encontro oficial na Casa Branca, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiou publicamente o domínio da língua inglesa por parte do presidente da Libéria, Joseph Boakai, dizendo: “Onde aprendeu a falar tão bem assim? Seu inglês é lindo”. O comentário, feito diante de jornalistas, causou desconforto entre liberianos e reações críticas em várias plataformas.
A questão é que a Libéria é um país de língua oficial inglesa desde sua fundação, em 1822, por ex-escravizados norte-americanos, que adotaram o inglês como idioma do Estado. Por isso, para muitos liberianos, o comentário soou condescendente e ignorante, reforçando estereótipos sobre o continente africano.
“Senti-me insultado porque o nosso país é um país de língua inglesa”, afirmou Archie Tamel Harris, ativista da juventude liberiana, em entrevista à CNN.
Também se manifestou o psicólogo e líder da oposição Foday Massaquio, que classificou o comentário como “desrespeitoso e paternalista”. Para ele, a declaração mostra falta de preparo de Trump para interações diplomáticas com líderes africanos.
A controvérsia se agravou com o histórico de declarações do ex-presidente norte-americano sobre países africanos. Em 2018, Trump foi acusado de se referir a nações africanas como “países de merda”, o que gerou protestos globais.
Apesar da reação pública negativa, o governo liberiano tentou amenizar a situação. A ministra das Relações Exteriores da Libéria, Sara Beysolow Nyanti, afirmou na rede X (ex-Twitter) que o presidente Boakai não se sentiu ofendido. Segundo ela, Trump teria reconhecido o “sotaque americano” característico dos liberianos, resultado da influência histórica dos EUA no país.
O jornal norte-americano Washington Post revelou que, durante o encontro, Trump ainda perguntou: “Você foi educado nos Estados Unidos?”, ao que Boakai respondeu que foi educado inteiramente na Libéria, onde o inglês é ensinado desde os primeiros anos escolares.
O Time e a Reuters descreveram o episódio como mais um exemplo de como a ignorância sobre a história e cultura africanas pode prejudicar as relações diplomáticas. A plataforma People também repercutiu o caso, destacando que a gafe causou “constrangimento generalizado” entre observadores internacionais.
Nas redes sociais, milhares de liberianos expressaram desapontamento com o comentário, dizendo que esperavam respeito à soberania e identidade cultural do país, e não elogios “exóticos” sobre algo que é básico e institucional.
“Trump elogiou o presidente como se fosse um papagaio bem treinado, quando na verdade é um chefe de Estado educado, culto e preparado – e no próprio idioma nacional”, escreveu um internauta liberiano no X.
O incidente reacende o debate sobre respeito e sensibilidade cultural nas relações diplomáticas, especialmente entre potências ocidentais e países africanos. Enquanto o governo liberiano tenta manter o equilíbrio diplomático, muitos cidadãos exigem mais consideração e conhecimento da parte dos líderes internacionais.
