Maputo, Julho de 2025 – O governo moçambicano está a preparar o leilão de 24 embarcações da empresa pública EMATUM, numa tentativa de recuperar parte do enorme prejuízo provocado pelo escândalo das dívidas ocultas, que abalou a reputação financeira do país a nível internacional. A venda está avaliada em cerca de 10,6 milhões de dólares, um valor muito inferior aos mais de 500 milhões de dólares investidos originalmente na aquisição das embarcações.
As 24 embarcações — 21 palangreiros (barcos para pesca de atum) e 3 arrastões — foram entregues ao Estado há anos, mas permanecem sem utilização efetiva. A maioria está estacionada no Porto de Maputo, em bom estado de conservação, com motores Caterpillar e equipamentos de navegação ainda funcionais. Contudo, a sua subutilização ao longo da última década transformou os barcos num símbolo de má gestão pública.
O processo de leilão está a ser conduzido pelo Ministério da Economia e Finanças, e o prazo para apresentação de propostas foi inicialmente estabelecido até 21 de fevereiro de 2025, segundo informações da Forbes África Lusófona e Notícias ao Minuto. A expectativa do governo era arrecadar cerca de 400 mil dólares por embarcação, mas até agora, nenhum comprador manifestou interesse, segundo a Integrity Magazine.
Fontes ligadas ao processo acreditam que o clima político tenso e o medo de envolvimento com um ativo contaminado pelo escândalo das dívidas ocultas esteja a afastar possíveis interessados. Um artigo do Financial Times também destacou que, apesar do esforço de venda, a perda de valor é “colossal e irrecuperável”.
As embarcações foram originalmente compradas através de empréstimos secretos, contraídos sem a aprovação do parlamento e escondidos do público e dos parceiros internacionais. A EMATUM fazia parte de um esquema de financiamento secreto que envolveu também as empresas ProIndicus e MAM, totalizando 2,7 bilhões de dólares em dívidas. Este escândalo resultou em ações judiciais internacionais, prisões de altos dirigentes e processos de arbitragem, como o recente acordo com a Privinvest.
Apesar de um decreto judicial ordenar a liquidação da EMATUM e a venda dos ativos, especialistas alertam que o retorno financeiro será quase simbólico. Ainda assim, o governo vê o leilão como uma forma de mostrar compromisso com a responsabilização e a transparência na gestão de bens públicos.
