Pemba, 16 de julho de 2025 — O agravamento da violência armada na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, tem comprometido seriamente o acesso da população aos serviços essenciais de saúde. Após quase oito anos de conflito, mais de 400 mil pessoas continuam deslocadas e a assistência médica torna-se cada vez mais difícil em regiões afetadas por confrontos e ataques.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta para o impacto devastador do conflito sobre os sistemas de saúde locais, que sofrem com a destruição de infraestruturas, escassez de profissionais e suspensão frequente de serviços. A MSF tem apelado por maior proteção às unidades e trabalhadores da saúde e por uma resposta humanitária coordenada que atenda às comunidades mais atingidas.
Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), só em maio de 2025 mais de 134 mil pessoas foram afetadas por episódios de violência, marcando o maior pico desde junho de 2022. Em 2025, já se registam 43 mil novos deslocados, principalmente nos distritos de Macomia, Muidumbe, Meluco e Mocímboa da Praia — com relatos de extensão da violência à província vizinha de Niassa.
A cidade de Macomia, que havia sido atacada em maio de 2024 por grupos armados, ainda tenta se recuperar. Apesar da retomada parcial das atividades da MSF em abril deste ano, apenas uma unidade de saúde está operacional no distrito, onde anteriormente funcionavam sete.
“Estamos sobrecarregados com a chegada de deslocados e temos dificuldade para referenciar os casos mais graves. Isso deixa muitos pacientes sem atendimento”, explica Dr. Emerson Finiose, médico da MSF em Macomia.
A situação repete-se nos distritos de Palma, Mueda e Mocímboa da Praia, onde o sistema de saúde foi gravemente danificado. Cerca de metade das instalações médicas da província foram destruídas total ou parcialmente desde o início do conflito, segundo dados oficiais. A devastação foi agravada pela passagem do ciclone Chido, no final de 2024.
Muitos centros de saúde permanecem fechados devido à falta de pessoal, insegurança constante e escassez de recursos. Em cinco ocasiões somente neste ano, a MSF foi forçada a interromper suas atividades por semanas consecutivas, prejudicando o atendimento a milhares de pessoas.
Entre janeiro e maio de 2025, a MSF registrou uma média mensal de 18 mil consultas médicas, 30 encaminhamentos de casos graves e 740 partos em quatro distritos. No entanto, os atendimentos despencaram drasticamente com o aumento da violência. Em Mocímboa da Praia, por exemplo, as consultas externas caíram de 12.236 em abril para 1.951 em maio.
As ações comunitárias também têm sido afetadas. Agentes de saúde e promotores da MSF enfrentam desafios diários para conscientizar e apoiar as comunidades, especialmente em tempos de trauma psicológico e deslocamento forçado.
“Muitas pessoas adoecem, mas não têm coragem de buscar ajuda. Precisam de apoio emocional para conseguir se tratar”, relata Fátima Abudo Laíde, promotora de saúde da MSF.
Em alguns casos, pacientes com doenças crônicas, HIV ou gestantes acabam interrompendo tratamentos críticos. Um exemplo trágico ocorreu em Mbau, onde uma gestante em trabalho de parto não pôde ser evacuada a tempo e entrou em coma após dar à luz gêmeos.
“Se o posto local estivesse a funcionar, o desfecho poderia ter sido outro”, lamenta Sunga Antônio, parteira da MSF.
A redução de fundos para ajuda humanitária tem agravado ainda mais o cenário. A MSF denuncia que a capacidade das organizações de atender à crescente demanda está sendo minada pela falta de recursos, expondo a fragilidade da resposta humanitária.
“A crise em Cabo Delgado é humanitária e multidimensional. Sem acesso seguro e apoio coordenado, não conseguiremos ajudar adequadamente essas populações a recuperar a dignidade e reerguer suas vidas”, conclui o Dr. Finiose.
Fontes:
Médicos Sem Fronteiras (MSF) – Comunicado de imprensa
OCHA – Access Snapshot Cabo Delgado, 31 May 2025
Moz24h – Reportagem original por Estácio Valoi
