Tirana – A Albânia está cogitando um experimento inédito no cenário mundial: permitir que a inteligência artificial (IA) assuma funções governamentais, numa tentativa de enfrentar décadas de corrupção enraizada na política e nas instituições do país.
O primeiro-ministro Edi Rama acredita que algoritmos podem trazer mais transparência, eliminar o nepotismo e reduzir práticas de favorecimento que marcam a história recente da nação. Em entrevistas, ele chegou a sugerir que ministérios inteiros poderiam ser administrados por sistemas de IA, defendendo que as máquinas “não cometem erros humanos, não precisam de salário, não podem ser subornadas e trabalham sem parar”.
Tecnologia contra corrupção histórica
Segundo reportagens do Politico e do portal Futurism, a proposta inclui desde o uso de algoritmos para análise em tempo real de contratos públicos até o monitoramento territorial por drones e satélites. Atualmente, parte da fiscalização fiscal e aduaneira já utiliza recursos tecnológicos, o que fortalece a ideia de um “ministério digital” na administração pública.
O portal RBC-Ukraine destaca que o projeto também prevê reforço no acompanhamento de compras públicas, um dos setores mais vulneráveis à corrupção. Já especialistas ouvidos pela OECD.AI e pelo site Winsome Marketing apontam que, embora a tecnologia possa reduzir falhas humanas, há o risco de digitalizar a corrupção se os algoritmos forem controlados pelos mesmos grupos que hoje dominam o sistema político.
Escândalos e resistência interna
A proposta surge em meio a uma onda de processos contra antigos líderes políticos. Em julho de 2025, o ex-primeiro-ministro e atual líder da oposição, Sali Berisha, foi a julgamento por corrupção ligada à privatização de terrenos em Tirana, num caso envolvendo milhões de euros.
Outro nome de peso, o ex-presidente Ilir Meta, foi formalmente acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal pela estrutura especial anticorrupção (SPAK). Esses processos mostram a profundidade do problema que Edi Rama busca combater com a adoção de soluções tecnológicas.
Apesar dos avanços, críticos lembram que a corrupção na Albânia está enraizada em décadas de instabilidade política e econômica, o que levanta dúvidas sobre se a IA conseguirá de fato transformar o sistema ou se será apenas mais uma ferramenta sujeita a manipulações.
De olho na União Europeia
Além do combate à corrupção, Rama usa o discurso tecnológico como parte de sua estratégia para garantir que a Albânia alcance a adesão à União Europeia até 2030. Para ele, a modernização do governo através da inteligência artificial é um passo fundamental para mostrar ao bloco que o país está pronto para integrar-se plenamente.
