“Mia Couto critica falta de respostas sobre insurgência que aterroriza Moçambique”

O escritor moçambicano Mia Couto defendeu que a mobilização da sociedade contra a violência armada em Cabo Delgado depende de maior clareza sobre quem está por trás dos ataques que assolam o norte do país desde 2017.

Em declarações à agência Lusa, o autor manifestou preocupação com o facto de, após oito anos de conflito, ainda não ser claro para os cidadãos quem são, de onde vêm e quais são os objetivos dos insurgentes. Para Mia Couto, esse vazio de informação compromete a união nacional:

“É óbvio que todos os moçambicanos estão solidários, estão unidos para combater esta agressão e estão solidários com a entrega dos nossos soldados nesse combate. Mas precisamos de mais respostas sobre quem ataca. Isso ajudaria a mobilizar ainda mais a população”, afirmou.

Mais do que uma resposta militar

O escritor sublinhou que a solução para a crise em Cabo Delgado não pode ser exclusivamente militar. Segundo ele, o país deve investir também numa resposta social, que ofereça inclusão, emprego e esperança às comunidades afetadas, sobretudo aos jovens.

“Cada soldado deve ser visto não apenas como combatente, mas também como agente humanitário, alguém que protege vidas e que mostra solidariedade para com os deslocados e vítimas”, destacou.

Rejeição a explicações simplistas

Mia Couto rejeitou a ideia de que a violência possa ser explicada apenas pela pobreza ou pela religião. Para ele, tais fatores, embora relevantes, não explicam por que o conflito se concentrou apenas em Cabo Delgado.

“O problema é mais complexo e pode envolver interesses territoriais e de exploração de recursos, mascarados sob uma fachada religiosa”, observou, acrescentando que esta ambiguidade torna quase impossível qualquer negociação direta com os insurgentes.

Custo humano crescente

O escritor citou dados do Centro de Estudos Estratégicos de África (ACSS), segundo os quais pelo menos 349 pessoas foram mortas em ataques de grupos extremistas islâmicos em Moçambique em 2024, um aumento de 36% em relação ao ano anterior.

Desde 2017, a violência em Cabo Delgado já causou milhares de mortos e obrigou mais de um milhão de pessoas a abandonar as suas casas, segundo números oficiais e de organizações internacionais.

Mobilização nacional depende de informação

Para Mia Couto, a melhor forma de mobilizar os moçambicanos passa por oferecer informação clara e transparente sobre os responsáveis pelos ataques. Só assim, acredita, será possível unir plenamente o país contra a violência.

Fonte: Lusa, Notícias ao Minuto

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