Maputo – A Renamo, segunda maior força política de Moçambique, continua enfrentando crises internas, com tensões, desentendimentos e até episódios de violência, situação que se intensificou após a derrota eleitoral de 2024, que relegou o partido para a terceira posição, atrás do Podemos. Elias Dhlakama, irmão mais novo do falecido líder Afonso Dhlakama, general na reserva e cofundador da Renamo, falou em entrevista exclusiva ao Dossiers & Factos sobre a situação, defendendo uma renovação completa da direção e a eleição direta dos delegados ao Congresso Nacional, substituindo o sistema de indicação, que, segundo ele, tem distorcido processos.
“Se disser que o ambiente está bom, estaria a enganar-me, porque até um cego percebe a situação”, afirmou Dhlakama, acrescentando que fará tudo para que a Renamo recupere sua força histórica, o que passa necessariamente pela saída de Ossufo Momade da presidência do partido.
Nos últimos meses, ex-combatentes do partido têm encerrado sedes e delegações provinciais para pressionar Momade, movimento que Dhlakama acredita surtirá efeito. “Se não quiser sair por bem, será afastado. O sacrifício que deu origem à Renamo não pode ter sido em vão”, disse.
Para Dhlakama, é doloroso ver a Renamo em terceiro lugar, rompendo a tradicional bipolaridade com a Frelimo. Ele acusa Momade de ter chegado à liderança através de manipulações internas e do sistema de indicação de delegados, e não por mérito. “As pessoas não ganham por competência, mas por batota, e só percebem o erro depois”, criticou.
O dirigente sublinha que um líder verdadeiro deve ter palavra, mérito e boa reputação. Numa comparação, lembra que, nos Estados Unidos, Bill Clinton teve apoio principalmente pela imagem, não pelas qualidades políticas. Por isso, classifica a eleição de Momade como a maior decepção da história da Renamo e defende a exoneração de toda a liderança, do topo à base, para retomar eleições democráticas e garantir representatividade.
Apesar da crise interna, Dhlakama reafirma sua lealdade ao partido e descarta aderir a outros grupos políticos, garantindo que prefere trabalhar a terra a abandonar a Renamo. Ele acredita que reformas profundas podem devolver força e dignidade à organização.
Crítica ao Governo Chapo
Além da situação interna do partido, Elias Dhlakama avaliou o desempenho do Governo de Daniel Francisco Chapo. Ele considera que Moçambique permanece com os mesmos problemas de sempre, apenas com novos discursos. “Nada mudou. As coisas vão de mal a pior”, declarou, criticando a retórica excessiva em detrimento da ação, que, segundo ele, contribui para a instabilidade em regiões como Cabo Delgado.
Dhlakama alertou ainda para sinais de autoritarismo contra a oposição, citando o caso de Venâncio Mondlane, recebido com tiros e gás lacrimogéneo ao regressar ao país. “Será que isso é democracia? Não estaremos regredindo ao monopartidarismo?”, questionou.
Para o general na reserva, o Governo precisa agir mais e falar menos, enfrentando os problemas concretos da população. Em tom crítico, ele afirmou que, até, seria preferível manter Filipe Nyusi no poder, contanto que as políticas fossem revistas. “O que queremos são mudanças efetivas”, concluiu.
