
Faltando poucas semanas para as eleições legislativas na Colômbia, uma proposta inédita passou a dominar o debate público: uma plataforma de Inteligência Artificial foi apresentada como candidata ao Congresso Nacional. O projeto, denominado Gaitana, disputa assentos no Senado e na Câmara dos Representantes pelo Distrito Eleitoral Especial Indígena.
Diferentemente dos candidatos tradicionais, Gaitana não é uma pessoa física. Nas redes sociais, é representada como uma mulher de pele azul e voz digital. Trata-se de um sistema tecnológico criado para recolher opiniões, organizar propostas e definir posicionamentos legislativos com base na participação coletiva da comunidade que a acompanha.
A iniciativa foi desenvolvida por Carlos Redondo, membro do povo Zenú, na região caribenha do país. Como a legislação colombiana não permite que uma Inteligência Artificial seja oficialmente registada como candidata, o Conselho Nacional Eleitoral autorizou que dois representantes humanos assumam as eventuais cadeiras, comprometendo-se a votar no Congresso de acordo com as decisões geradas pela plataforma.
Como funciona o modelo digital
O sistema opera a partir da contribuição dos utilizadores, que enviam sugestões de temas e propostas legislativas. A tecnologia organiza os conteúdos, produz resumos e apresenta versões simplificadas para facilitar a compreensão, inclusive com materiais visuais explicativos.
Atualmente, mais de dez mil participantes — entre indígenas e afro-colombianos — integram a comunidade digital. Após analisarem as propostas, registam as suas posições. Quando uma das opções atinge 50% mais um dos votos, forma-se o consenso, que passa a orientar a atuação dos representantes humanos nas sessões parlamentares.
Segundo o idealizador, o modelo inspira-se nas práticas tradicionais de deliberação das comunidades indígenas, adaptando-as ao ambiente digital.
Proposta alternativa ao sistema tradicional
A candidatura apresenta-se como uma alternativa ao modelo político convencional. Redondo argumenta que existe um afastamento entre os parlamentares e as reais necessidades da população. O projeto também prevê a redução de estruturas de gabinete, defendendo que a plataforma dispensaria parte da equipa técnica normalmente associada a um congressista.
Apesar do entusiasmo, o criador reconhece limitações tecnológicas, incluindo desafios ligados à segurança de dados e à gestão de opiniões divergentes. O sistema opera com três servidores de pequena escala, e os responsáveis afirmam que o impacto ambiental é reduzido.
Desafios e questionamentos
Entre as preocupações levantadas está a possibilidade de manipulação das votações digitais, caso grupos organizados tentem influenciar resultados estratégicos. Redondo admite o risco, mas considera que seria necessária uma mobilização significativa para alterar decisões de forma coordenada.
Outro ponto de incerteza envolve a adesão do eleitorado jovem. Estudos indicam que apenas cerca de um terço dos cidadãos com menos de 24 anos pretende participar nas eleições, o que pode influenciar diretamente o desempenho da candidatura.
A experiência coloca a Colômbia no centro do debate internacional sobre o uso de tecnologias digitais na política, ao propor que decisões legislativas sejam orientadas por um sistema alimentado pela participação coletiva.
