Após um longo período de secretismo em torno do mediático e polémico homicídio de Elvino Dias — advogado do partido PODEMOS, conhecido pelas suas posições contundentes contra os resultados das Eleições Gerais de 2024 —, o Procurador-Geral da República (PGR), Américo Letela, fez revelações surpreendentes esta quinta-feira.
Sublinhando repetidamente a extrema complexidade do crime, o PGR revelou uma nova e forte linha de investigação que pode alterar o rumo do caso, afastando a tese exclusiva de que o advogado teria sido silenciado apenas para travar as contestações eleitorais de Venâncio Mondlane e do partido PODEMOS.
A Nova Hipótese: O Envolvimento de Nini Satar e a Falsa Morte
Segundo Américo Letela, o homicídio pode estar intimamente ligado ao crime organizado. Elvino Dias actuava como mandatário num processo-crime altamente sensível envolvendo Edite António de Copta Chilindro, descrita como companheira de Nini Satar (um dos autores condenados pela morte do jornalista Carlos Cardoso).
Edite Chilindro, que já estava sob investigação num caso de rapto e se encontrava foragida, estava a ser acusada de forjar a sua própria morte. O detalhe macabro é que o julgamento deste caso de falsificação estava agendado para 20 de Outubro de 2024, exactamente um dia antes do trágico assassinato do advogado.
O Esquema da Certidão de Óbito
A mulher, que entretanto passou a colaborar com as autoridades para desvendar a simulação do seu falecimento, terá forjado uma série de documentos para escapar à justiça.
“Foram forjados alguns documentos, incluindo de hospitais e de uma clínica na África do Sul, dando a entender que esta senhora estava morta”, detalhou o Procurador-Geral. As autoridades moçambicanas cruzaram dados com a justiça sul-africana e rapidamente confirmaram a fraude: não existia qualquer registo de óbito ou enterro naqueles locais. Como resultado, foi aberto um processo para responsabilizar os autores desta falsificação, no qual Elvino Dias era mandatário.
A Tese Política Não Foi Descartada
Apesar da força desta nova ligação criminal, a PGR garante que não abandonou a motivação política. As autoridades continuam a explorar as pistas relacionadas com o clima de alta tensão que se viveu no país após a divulgação dos resultados parciais das eleições. Letela confirmou que ambas são “linhas concorrentes” que estão a ser investigadas em simultâneo.
O Estado Actual da Investigação
Cerca de dois anos após os acontecimentos, as investigações já começaram a produzir resultados palpáveis. As autoridades confirmam a detenção de três suspeitos, estando dois deles actualmente em prisão preventiva no estabelecimento penitenciário de Maputo.
O PGR assegurou que as diligências decorrem a bom ritmo, com a realização de interrogatórios e sessões de reconhecimento em instalações próprias. A terminar a sua intervenção, Américo Letela deixou uma garantia e um apelo à população: “Esta situação também nos preocupa. Estamos a fazer o nosso trabalho. Queremos mais uma vez pedir a vossa paciência. A investigação é complexa.”
(Com informações do jornal O País)
