A decisão do Executivo moçambicano de garantir o financiamento e a continuidade das Forças de Defesa do Ruanda em Cabo Delgado foi recebida com agrado pelos residentes de Mocímboa da Praia. A medida surge como um alívio para uma das vilas mais fustigadas pelo terrorismo no norte do país.
O posicionamento oficial foi consolidado após o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, confirmar que o Governo liderado pelo Presidente Daniel Chapo assumiu o compromisso de assegurar os recursos necessários para a manutenção das operações militares conjuntas. Esta decisão resolve as incertezas que pairavam sobre a continuidade da missão, motivadas pelo fim do apoio financeiro da União Europeia. O cenário de dúvida tinha-se agravado nos últimos meses, após o Presidente Paul Kagame ter admitido publicamente as dificuldades orçamentais para sustentar a presença militar na província.
Estabilidade e o Impacto no Quotidiano
Para os habitantes de Mocímboa da Praia, a presença das tropas ruandesas é sinónimo de um clima de paz que parecia inalcançável desde o início do conflito.
- Alberto Mussa (46 anos, pescador): O residente destaca que a segurança atual permitiu a retoma da normalidade económica. “Começámos novamente a circular sem tanto medo. O comércio voltou, os barcos regressaram ao mar e algumas famílias começaram a reconstruir as casas. Se eles abandonassem Cabo Delgado agora, seria muito preocupante para nós”, sublinhou.
- Constâncio Ernesto (motorista de semi-colectivos): O profissional reconhece progressos na mobilidade, mas mantém a cautela. “Hoje já conseguimos viajar para pontos onde antes ninguém passava, mas os ataques persistem em certos distritos. A população sente que, sem as tropas ruandesas, Moçambique teria dificuldades em manter o controlo total”, afirmou.
- Amina Issufo (retornada): Para quem regressou recentemente à vila, a notícia da continuidade da missão é um fator decisivo para a confiança das famílias deslocadas. “Muita gente só decidiu voltar porque viu melhorias. Quando ouvimos que o Governo vai continuar a apoiar as tropas, sentimos que a situação não vai piorar novamente”, partilhou.
Desafios de Longo Prazo
Embora a população valide o papel estratégico das forças ruandesas — que, desde 2021, foram fundamentais na recuperação de Mocímboa da Praia, outrora um dos principais bastiões terroristas na região —, o debate sobre a segurança nacional continua em aberto. Especialistas e cidadãos sublinham a necessidade urgente de Moçambique reforçar a capacidade operativa e a autonomia das suas próprias Forças de Defesa e Segurança, de modo a encontrar uma solução sustentável para a crise de segurança a longo prazo.
(Por Bonifácio Chumuni)
